O ferry catamarã China Zorrilla, branco com detalhes azuis e amarelos da Buquebus, no estaleiro da Incat em Hobart, Tasmânia
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O maior navio elétrico do mundo está a caminho da América do Sul: 40 MWh para cruzar o Rio da Prata

O maior veículo elétrico do mundo — de qualquer tipo — está neste momento no meio do oceano. A 5 de agosto, o ferry China Zorrilla, com 130 metros de comprimento, deixou Hobart, na Tasmânia, içado a bordo do navio semi-submersível Black Marlin, para uma travessia do Pacífico de cerca de 40 dias até Buenos Aires. Quando chegar, vai fazer história de novo: ligar as duas margens do Rio da Prata sem queimar uma gota de combustível.

A operação de carga foi uma das mais complexas alguma vez feitas na Tasmânia. O Black Marlin — um gigante de 217 metros operado pela Boskalis — submergiu o convés de carga abaixo da linha de água no rio Derwent, o ferry flutuou para cima da estrutura e o navio voltou a emergir, erguendo o China Zorrilla para fora do mar. Foram vários dias de soldaduras e amarras para fixar a carga. A partida, prevista para 4 de agosto, foi adiada 24 horas para acabar o trabalho de segurança, e milhares de curiosos acompanharam a manobra nas margens do rio.

40 MWh: quatro vezes mais baterias do que qualquer navio anterior

O coração do China Zorrilla é uma bateria de 40 MWh (43.000 kWh) fornecida pela norueguesa Corvus Energy — 250 toneladas de células de iões de lítio organizadas em 5.016 módulos, distribuídos por quatro salas dedicadas. É quatro vezes maior do que qualquer instalação de baterias já montada num navio, e equivale a cerca de 660 baterias de um Tesla Model 3. O sistema alimenta oito motores elétricos de 2,4 MW ligados a waterjets Wärtsilä, que empurram o catamarã de alumínio a 25 nós (46 km/h).

Com 90 minutos de autonomia a velocidade de cruzeiro e recarga em cerca de 40 minutos, o ferry foi desenhado para uma rota curta e intensa: a travessia de 55 a 60 quilómetros entre Buenos Aires, na Argentina, e Colónia do Sacramento, no Uruguai, três vezes por dia, para 2.100 passageiros e 225 veículos. A bordo leva ainda o maior espaço de compras duty-free do mundo em qualquer ferry, com 2.300 m².

Imagem de satélite do Rio da Prata com Buenos Aires e Colónia do Sacramento assinaladas, separadas por 50 quilómetros

Buenos Aires e Colónia do Sacramento estão separadas por cerca de 50 km de água — a travessia que o China Zorrilla fará três vezes por dia. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY-SA)

Começou como navio a gás; a guerra mudou os planos

O projeto do China Zorrilla começou em 2019 como um ferry a gás natural liquefeito (GNL), encomendado pela Buquebus, operadora histórica do Rio da Prata. Em 2023, com os preços das baterias em queda e os custos do combustível a subir, o dono da operadora pediu à Incat para mudar a especificação: o navio passou a ser 100% elétrico, uma decisão que obrigou a alterações estruturais no casco. O custo final foi de 200 milhões de dólares, num financiamento considerado a primeira 'operação azul' do mundo aplicada a transporte marítimo elétrico, com o apoio do Banco Mundial e do Santander Uruguai.

O caminho até ao mar também teve peripécias. O navio transportador original ficou preso no Golfo Pérsico por causa do conflito entre os EUA e o Irão, e a Incat chegou a equacionar instalar geradores a diesel a bordo para o ferry atravessar o Pacífico pelos próprios meios — uma solução abandonada para preservar a integridade do navio elétrico. Só em junho foi garantido o Black Marlin, que chegou a Hobart a 28 de julho.

É um momento extraordinário, não só para a empresa, mas para o futuro do transporte marítimo sustentável. Demonstra que o futuro dos ferries de alta velocidade e grande capacidade já está aqui — e que em breve estará a operar numa das rotas mais movimentadas do mundo.

— Robert Clifford, fundador e presidente da Incat
O navio semi-submersível Black Marlin, da Boskalis, com carga de rebocadores empilhados no convés

O Black Marlin é um dos maiores semi-submersíveis do mundo: submerge o convés para embarcar navios inteiros — foi ele que levou o China Zorrilla da Tasmânia para a América do Sul. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY)

O que muda para o transporte marítimo

Para a indústria, o China Zorrilla é a prova de que a eletrificação saiu dos ferries pequenos. A bateria da Corvus é 40 vezes maior do que a do primeiro ferry elétrico que a empresa equipou, há menos de 15 anos. O navio usa tecnologia desenvolvida ao abrigo do programa Blue Whale, da Corvus, que redesenhou a química e a mecânica das células para conseguir mais potência com menos peso — e abriu caminho a travessias maiores, incluindo o Canal da Mancha, segundo a própria Corvus.

O próximo capítulo escreve-se na América do Sul. À chegada, prevista para meados de setembro, o ferry passa por comissionamento final e, segundo a Incat, entra ao serviço poucas semanas depois. A rota Buenos Aires–Colónia, uma das mais movimentadas do mundo em tráfego de passageiros, terá então o seu primeiro navio 100% elétrico — em silêncio, e sem um único litro de gasóleo.

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