A sonda Ramses, da Agência Espacial Europeia (ESA) e da agência japonesa JAXA, foi ligada pela primeira vez a 23 de Setembro, na sala limpa da OHB Italia, em Milão. A energia chegou ao computador de bordo e aos subsistemas já integrados no corpo da sonda.
O prazo é que manda. A Ramses tem de partir na primavera de 2028 — a ESA aponta Abril — para chegar ao Apophis em Fevereiro de 2029, dois meses antes de o asteroide passar a 32 000 km da superfície da Terra, a 13 de Abril de 2029.
O dinheiro veio antes da aprovação
Em Outubro de 2024, a ESA pagou 63 milhões de euros à OHB Italia só para começar os trabalhos preparatórios — antes de a missão estar aprovada. A decisão de comprometer a Ramses por inteiro só chegou no Conselho Ministerial da ESA de Novembro de 2025.
O contrato de construção veio a 10 de Fevereiro de 2026: 81,2 milhões de euros, assinados no centro tecnológico da ESA em ESTEC, nos Países Baixos. Somados aos 63 milhões anteriores, o valor da sonda fica em cerca de 150 milhões de euros.
| Objecto | asteroide (99942) Apophis |
|---|---|
| Diâmetro | cerca de 375 m, segundo a ESA (a JAXA indica 340 m) |
| Visível a olho nu por | cerca de 2 mil milhões de pessoas |
| Frequência do fenómeno | uma vez a cada 5 000 a 10 000 anos |
| União do Core Module com o módulo de propulsão | primavera de 2027 |
O que a JAXA põe
A Ramses não é só europeia. A JAXA fornece três peças: as asas solares leves, a câmara infravermelha TIRI e o lugar num foguetão H-3. O lançamento é duplo, com a DESTINY+, uma sonda japonesa que segue para outro asteroide.
O memorando entre as duas agências foi assinado a 7 de Maio de 2026 por Josef Aschbacher, director-geral da ESA, e Hiroshi Yamakawa, presidente da JAXA, na embaixada de Itália em Berlim.
Dois módulos e dois CubeSats
A Ramses segue a Hera, a primeira missão de defesa planetária da ESA, e aproveita o desenho dela. O Core Module, onde está a electrónica, é montado separado do módulo de propulsão.
A sala limpa da OHB Italia, em Milão, onde a estrutura da Ramses está a ser montada. Foi aqui que a sonda foi ligada pela primeira vez, a 23 de Setembro. Fotografia: OHB Italia — ESA Standard Licence.
A bordo vão dois CubeSats. Um é o Farinella, da italiana Tyvak International, com um contrato de 8,2 milhões de euros assinado em Fevereiro. O outro é liderado pela espanhola Emxys, escolhida em Maio de 2025.
O que a sonda vai observar
O Apophis passa dentro da órbita dos satélites geoestacionários, a menos de um décimo da distância da Lua. Não há risco de colisão: os astrónomos já o excluíram.
O que a Ramses vai medir é outra coisa — como a gravidade da Terra deforma o asteroide, com deslizamentos possíveis na superfície e material novo a ficar exposto.
«Ainda há muito por aprender sobre os asteroides, mas até agora tínhamos de viajar para o fundo do Sistema Solar para os estudar e fazer nós próprios as experiências que interagem com a sua superfície. Pela primeira vez, é a natureza que nos traz um e faz a experiência por si. Só temos de observar o Apophis a ser esticado e comprimido por forças de maré fortes, que podem provocar deslizamentos e revelar material novo debaixo da superfície.»
— Patrick Michel, director de investigação do CNRS no Observatório da Côte d'Azur, em Nice
Os instrumentos fazem um levantamento antes e depois: forma, superfície, órbita, rotação e orientação. É daí que sai o que se vier a saber sobre composição, estrutura interna, coesão, massa, densidade e porosidade.
Para já, o que fica é isto: a sonda liga-se, o relógio continua e a margem é curta. Se a Ramses não partir em 2028, o Apophis passa na mesma — sem ninguém a bordo para o ver de perto.
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