Dois aviões Airbus A350 em fase de montagem final num hangar amplo, com plataformas azuis de trabalho, gruas amarelas suspensas no tecto, uma asa apoiada num cavalete e o logótipo AIRBUS na parede ao fundo

Fotografia: Bernd K — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Airbus A350-941 destinado à Finnair na linha de montagem final de Toulouse, em Dezembro de 2014; imagem ilustrativa do sector, não é a Critical FlyTech nem o novo espaço de Lisboa.

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Critical FlyTech tem 165 trabalhadores e vai abrir hub em Lisboa

A Critical FlyTech, a empresa comum (joint venture) da Airbus (51 %) com a portuguesa Critical Software (49 %), tem hoje 165 trabalhadores — 160, segundo o corpo da notícia do ECO — e vai inaugurar um novo espaço em Lisboa em Outubro. Tem 100 pessoas em Coimbra e 65 na capital.

A empresa, que começou a operar em Janeiro, desenvolve software embebido e serviços aeroespaciais para a Airbus e as suas subsidiárias, e já alargou a actividade às três áreas de negócio do grupo: aviação comercial, espaço e helicópteros. Na aviação comercial, iniciou com dez projectos e prevê 20 até Dezembro.

O que está em causa não é mais um escritório: é a Airbus a comprar maioria numa empresa portuguesa para lhe escrever o software que vai a bordo, ao nível de exigência mais alto da aviação.

Não é uma aplicação: é código que tem de ser certificado

A aviónica — a electrónica e os computadores que controlam e monitorizam funções de voo — é software embebido dentro de equipamento certificado. A Critical FlyTech diz trabalhar em aviónica, sistemas de cabine, carga e conectividade, e ainda em métodos de simulação e ferramentas de engenharia.

O padrão do sector é a DO-178C — «Considerações sobre software para sistemas e equipamento embarcados» —, publicada em Dezembro de 2011 e reconhecida pela EASA, a autoridade europeia da aviação. A EASA avisa que não é obrigatória: é um meio aceitável de demonstrar conformidade, e não o único.

Quem segue a norma cumpre os objectivos do nível que o processo de segurança do sistema lhe atribui, conforme a gravidade da falha. Na aviónica, a empresa afirma ir até ao nível A; em cabine, até ao B, com desenvolvimento baseado em modelos (DO-331). O nível A é o mais exigente da escala.

É isto que «software crítico» quer dizer neste caso: código cuja falha tem consequências de segurança e cujas alterações deixam rasto documental para a certificação. Numa sala de aviónica de um avião comercial, o software corre em computadores substituíveis encaixados em racks, entre cablagem e rótulos.

Quinze anos de fornecedor antes de accionista

A Critical Software, fundada em Coimbra em 1998, já era fornecedora da Airbus há cerca de 15 anos. A cronologia que a empresa publica começa em Junho de 2010, com o programa de software de aviónica do A350, e termina em Junho de 2025, quando as duas assinaram um memorando de entendimento.

O acordo para constituir a empresa foi assinado a 24 de Novembro de 2025 e ficou sujeito a autorizações regulatórias; o escritório Cuatrecasas, que assessorou a Airbus, datou de 7 de Janeiro de 2026 a conclusão da operação. A empresa arrancou com 120 pessoas, 100 delas transferidas da Critical Software.

O capital ficou em 51 % para a Airbus e 49 % para a Critical Software. No comunicado da Airbus, a casa-mãe portuguesa descreve-se com mais de 1 400 trabalhadores em quatro países, nível 5 na escala CMMI e estatuto de «benefit corporation».

Esta joint venture permite aproveitar plenamente a agilidade e a experiência da Critical Software para fortalecer a nossa base de software embebido num contexto de crescente digitalização aeroespacial.

— Marc Fischer, vice-presidente sénior de engenharia — cabine e carga da Airbus (comunicado de 24 de Novembro de 2025)

A Airbus não está a desfazer-se de fornecedores: está a garantir acesso à capacidade onde ela existe. «À medida que o software embebido se torna central nos nossos produtos, assegurar o acesso às capacidades certas é fundamental», disse em Junho de 2025 Sabine Klauke, directora técnica do grupo.

Sala de aviónica de um Airbus A319 vista de perto: várias filas de computadores de bordo cinzentos e pretos encaixados em suportes com pegas e rótulos, cablagem em feixes, uma caixa azul identificada com a sigla GPWS e equipamento rotulado vibro-meter

Sala de aviónica de um Airbus A319: é aqui, em computadores substituíveis encaixados em racks, que corre o tipo de software que a Critical FlyTech desenvolve. A fotografia é ilustrativa do sector e não mostra equipamento, instalações ou pessoal da empresa.

Crédito: Fotografia: Dreznicek009 — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O modelo já tinha sido ensaiado pela Critical Software com a BMW, na Critical Techworks. Em Junho de 2025, Ricardo Armas, agora director executivo, falava em «cerca de 100 pessoas» no arranque e num «mínimo de 300 pessoas» em três anos; a ambição declarada de «chegar aos milhares» é ambição, não plano.

O que existe e o que está anunciado

Em Lisboa, a empresa já está: são 65 dos 165 trabalhadores, instalados em espaços da Critical Software desde o arranque. O que abre em Outubro é um espaço novo, sem endereço nem contrato indicados nas fontes. Já em Dezembro se falava de um espaço próprio, «pelo menos em Coimbra», com local «ainda a ser definido».

Em Coimbra, a Câmara aprovou a 23 de Fevereiro a subconcessão de 5 000 metros quadrados da Estação Nova. A informação do processo apontava a Critical FlyTech como «parceiro estratégico estruturante» de uma ala de 400 metros quadrados, para uma «Fly Academy» de formação em aeronáutica. A referência às empresas foi retirada antes da votação.

Quem procuram

A empresa abriu 100 vagas em Coimbra e Lisboa em Março, para engenheiros de sistemas, de software e de software embebido, e continua a recrutar. A directora de recursos humanos, Beatriz Bacelar, falava então de um modelo híbrido para ligar as equipas das duas cidades.

Desde o início do ano entraram mais de 60 profissionais, cerca de 20 deles recém-licenciados ou recém-mestres. A equipa reúne cinco nacionalidades e cerca de 10 % dos trabalhadores vêm do estrangeiro, incluindo portugueses que regressaram.

Num primeiro ano de actividade, conseguimos expandir a nossa actividade para as três áreas de negócio da Airbus e desenvolver uma equipa altamente qualificada, capaz de responder aos desafios tecnológicos mais exigentes destes sectores.

— Ricardo Armas, director executivo da Critical FlyTech (comunicado citado pelo ECO, 21 de Setembro de 2026)
SedeCoimbra, com escritório em Lisboa
Trabalhadores165 em Setembro de 2026 segundo o comunicado, 160 segundo o corpo da notícia do ECO
Coimbra100 pessoas
Lisboa65 pessoas
Arranque, em Janeiro de 2026120 pessoas, 100 transferidas da Critical Software
Projectos de aviação comercial10 no início de 2026, 20 previstos até ao fim do ano
Meta declarada300 trabalhadores até ao fim de 2028
Vagas abertas em Março de 2026100, em Coimbra e Lisboa
Candidaturas até ao fim de 2025mais de 600

Fora desta empresa, a Airbus tem em Santo Tirso uma unidade que produz secções de fuselagem para os A320 e A350, e um centro de serviços partilhados em Lisboa e Coimbra. No país, o consórcio tem mais de mil trabalhadores. Em Maio, a responsável da Airbus Portugal, Nathalie Hellard-Lambic, dizia: «Procurámos e encontrámos aqui uma cultura de competência».

Os números contam-se: dos 110 de Janeiro aos 165 de Setembro são cerca de seis entradas por mês, ritmo compatível com a meta de 300 até ao fim de 2028.

Fica uma divergência por resolver: no mesmo dia, o ECO escreve 160 trabalhadores no corpo da peça e 110 no início do ano, o comunicado indica 165 e a soma das duas cidades dá 165; em Dezembro, o mesmo ECO noticiava 120 pessoas no arranque. Vale o número que a empresa comunica e que a aritmética sustenta — 165.

Não está esclarecido se há financiamento público na operação. Procurámos a empresa e as casas-mãe nas bases do Portugal 2030, do PRR, do IAPMEI e da AICEP sem encontrar apoio à actividade aeroespacial. No portal Mais Transparência, a Critical Software S.A. surge apenas como fornecedora de dois projectos do PRR.

Portugal já não é só o local onde a Airbus produz secções de fuselagem: é o país onde a Airbus controla, com 51 %, uma empresa que lhe escreve software certificável. É isso que os 165 trabalhadores e o novo espaço de Lisboa medem. Falta saber em que aeronaves esse código já está a ser usado.

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