A Critical FlyTech, a empresa comum (joint venture) da Airbus (51 %) com a portuguesa Critical Software (49 %), tem hoje 165 trabalhadores — 160, segundo o corpo da notícia do ECO — e vai inaugurar um novo espaço em Lisboa em Outubro. Tem 100 pessoas em Coimbra e 65 na capital.
A empresa, que começou a operar em Janeiro, desenvolve software embebido e serviços aeroespaciais para a Airbus e as suas subsidiárias, e já alargou a actividade às três áreas de negócio do grupo: aviação comercial, espaço e helicópteros. Na aviação comercial, iniciou com dez projectos e prevê 20 até Dezembro.
Não é uma aplicação: é código que tem de ser certificado
A aviónica — a electrónica e os computadores que controlam e monitorizam funções de voo — é software embebido dentro de equipamento certificado. A Critical FlyTech diz trabalhar em aviónica, sistemas de cabine, carga e conectividade, e ainda em métodos de simulação e ferramentas de engenharia.
O padrão do sector é a DO-178C — «Considerações sobre software para sistemas e equipamento embarcados» —, publicada em Dezembro de 2011 e reconhecida pela EASA, a autoridade europeia da aviação. A EASA avisa que não é obrigatória: é um meio aceitável de demonstrar conformidade, e não o único.
Quem segue a norma cumpre os objectivos do nível que o processo de segurança do sistema lhe atribui, conforme a gravidade da falha. Na aviónica, a empresa afirma ir até ao nível A; em cabine, até ao B, com desenvolvimento baseado em modelos (DO-331). O nível A é o mais exigente da escala.
É isto que «software crítico» quer dizer neste caso: código cuja falha tem consequências de segurança e cujas alterações deixam rasto documental para a certificação. Numa sala de aviónica de um avião comercial, o software corre em computadores substituíveis encaixados em racks, entre cablagem e rótulos.
Quinze anos de fornecedor antes de accionista
A Critical Software, fundada em Coimbra em 1998, já era fornecedora da Airbus há cerca de 15 anos. A cronologia que a empresa publica começa em Junho de 2010, com o programa de software de aviónica do A350, e termina em Junho de 2025, quando as duas assinaram um memorando de entendimento.
O acordo para constituir a empresa foi assinado a 24 de Novembro de 2025 e ficou sujeito a autorizações regulatórias; o escritório Cuatrecasas, que assessorou a Airbus, datou de 7 de Janeiro de 2026 a conclusão da operação. A empresa arrancou com 120 pessoas, 100 delas transferidas da Critical Software.
O capital ficou em 51 % para a Airbus e 49 % para a Critical Software. No comunicado da Airbus, a casa-mãe portuguesa descreve-se com mais de 1 400 trabalhadores em quatro países, nível 5 na escala CMMI e estatuto de «benefit corporation».
Esta joint venture permite aproveitar plenamente a agilidade e a experiência da Critical Software para fortalecer a nossa base de software embebido num contexto de crescente digitalização aeroespacial.
— Marc Fischer, vice-presidente sénior de engenharia — cabine e carga da Airbus (comunicado de 24 de Novembro de 2025)
A Airbus não está a desfazer-se de fornecedores: está a garantir acesso à capacidade onde ela existe. «À medida que o software embebido se torna central nos nossos produtos, assegurar o acesso às capacidades certas é fundamental», disse em Junho de 2025 Sabine Klauke, directora técnica do grupo.
Sala de aviónica de um Airbus A319: é aqui, em computadores substituíveis encaixados em racks, que corre o tipo de software que a Critical FlyTech desenvolve. A fotografia é ilustrativa do sector e não mostra equipamento, instalações ou pessoal da empresa.
Crédito: Fotografia: Dreznicek009 — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O modelo já tinha sido ensaiado pela Critical Software com a BMW, na Critical Techworks. Em Junho de 2025, Ricardo Armas, agora director executivo, falava em «cerca de 100 pessoas» no arranque e num «mínimo de 300 pessoas» em três anos; a ambição declarada de «chegar aos milhares» é ambição, não plano.
O que existe e o que está anunciado
Em Lisboa, a empresa já está: são 65 dos 165 trabalhadores, instalados em espaços da Critical Software desde o arranque. O que abre em Outubro é um espaço novo, sem endereço nem contrato indicados nas fontes. Já em Dezembro se falava de um espaço próprio, «pelo menos em Coimbra», com local «ainda a ser definido».
Em Coimbra, a Câmara aprovou a 23 de Fevereiro a subconcessão de 5 000 metros quadrados da Estação Nova. A informação do processo apontava a Critical FlyTech como «parceiro estratégico estruturante» de uma ala de 400 metros quadrados, para uma «Fly Academy» de formação em aeronáutica. A referência às empresas foi retirada antes da votação.
Quem procuram
A empresa abriu 100 vagas em Coimbra e Lisboa em Março, para engenheiros de sistemas, de software e de software embebido, e continua a recrutar. A directora de recursos humanos, Beatriz Bacelar, falava então de um modelo híbrido para ligar as equipas das duas cidades.
Desde o início do ano entraram mais de 60 profissionais, cerca de 20 deles recém-licenciados ou recém-mestres. A equipa reúne cinco nacionalidades e cerca de 10 % dos trabalhadores vêm do estrangeiro, incluindo portugueses que regressaram.
Num primeiro ano de actividade, conseguimos expandir a nossa actividade para as três áreas de negócio da Airbus e desenvolver uma equipa altamente qualificada, capaz de responder aos desafios tecnológicos mais exigentes destes sectores.
— Ricardo Armas, director executivo da Critical FlyTech (comunicado citado pelo ECO, 21 de Setembro de 2026)
| Sede | Coimbra, com escritório em Lisboa |
|---|---|
| Trabalhadores | 165 em Setembro de 2026 segundo o comunicado, 160 segundo o corpo da notícia do ECO |
| Coimbra | 100 pessoas |
| Lisboa | 65 pessoas |
| Arranque, em Janeiro de 2026 | 120 pessoas, 100 transferidas da Critical Software |
| Projectos de aviação comercial | 10 no início de 2026, 20 previstos até ao fim do ano |
| Meta declarada | 300 trabalhadores até ao fim de 2028 |
| Vagas abertas em Março de 2026 | 100, em Coimbra e Lisboa |
| Candidaturas até ao fim de 2025 | mais de 600 |
Fora desta empresa, a Airbus tem em Santo Tirso uma unidade que produz secções de fuselagem para os A320 e A350, e um centro de serviços partilhados em Lisboa e Coimbra. No país, o consórcio tem mais de mil trabalhadores. Em Maio, a responsável da Airbus Portugal, Nathalie Hellard-Lambic, dizia: «Procurámos e encontrámos aqui uma cultura de competência».
Os números contam-se: dos 110 de Janeiro aos 165 de Setembro são cerca de seis entradas por mês, ritmo compatível com a meta de 300 até ao fim de 2028.
Fica uma divergência por resolver: no mesmo dia, o ECO escreve 160 trabalhadores no corpo da peça e 110 no início do ano, o comunicado indica 165 e a soma das duas cidades dá 165; em Dezembro, o mesmo ECO noticiava 120 pessoas no arranque. Vale o número que a empresa comunica e que a aritmética sustenta — 165.
Não está esclarecido se há financiamento público na operação. Procurámos a empresa e as casas-mãe nas bases do Portugal 2030, do PRR, do IAPMEI e da AICEP sem encontrar apoio à actividade aeroespacial. No portal Mais Transparência, a Critical Software S.A. surge apenas como fornecedora de dois projectos do PRR.
Portugal já não é só o local onde a Airbus produz secções de fuselagem: é o país onde a Airbus controla, com 51 %, uma empresa que lhe escreve software certificável. É isso que os 165 trabalhadores e o novo espaço de Lisboa medem. Falta saber em que aeronaves esse código já está a ser usado.
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