Letreiro de grandes dimensões com a palavra Google numa parede de tijolo de um edifício, visto de baixo, com céu nublado

Fotografia: OutreachPete — Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

🌐 Internet

DPC irlandesa multa Google em 403 M€ por dados de localização

A Comissão de Protecção de Dados da Irlanda (DPC) multou a Google Ireland em 403 milhões de euros por tratamento ilícito de dados de localização e deu-lhe seis meses para se conformar. O Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD) aplica-se desde 25 de Maio de 2018 e a decisão cobre o período até 4 de Fevereiro de 2020.

O comunicado da DPC aponta quatro falhas: licitude e lealdade no tratamento em «Web & App Activity» e «Histórico de localização»; responsabilização («accountability») por não conseguir demonstrar conformidade na «Precisão da localização»; transparência nas três funcionalidades; e conservação de dados nas duas primeiras.

Três funcionalidades, três regras diferentes

O «Web & App Activity» é uma definição de conta Google: só existe para quem tem conta. Quando está ligada, alimenta o tratamento com actividade nos serviços, sites e aplicações da empresa — histórico de navegação, histórico de pesquisas e dados de localização incluídos.

O «Histórico de localização» funciona por outra regra: exige adesão expressa e infere visitas a lugares, actividades e trajectos, mostrados num mapa privado no Google Maps. A DPC nota que ele guarda esse mapa mesmo quando a pessoa não está a usar um serviço da Google.

A «Precisão da localização» é uma funcionalidade do sistema Android que permite determinar a posição com mais exactidão do que o GPS do aparelho. Está disponível a utilizadores de Android mesmo sem conta Google — e é aqui que a DPC fala em responsabilização: a Google não demonstrou que cumpria a licitude, a lealdade e a transparência.

O que a ordem obriga a mudar

A ordem, tal como o comunicado a descreve, é curta: a Google tem de pôr o tratamento em conformidade no prazo de seis meses. As medidas concretas não são públicas, porque a DPC escreve que emitirá a decisão completa «em devido tempo» — e é esse documento que dirá o que muda e a partir de quando.

Os dados de localização podem trazer benefícios e prejuízos às pessoas. Podem melhorar muito a utilidade dos serviços online, mas também revelar muita informação sobre cada um, incluindo informação que é intrinsecamente privada. Em resultado das falhas da Google, as pessoas podem não ter percebido que a sua localização estava a ser usada, por exemplo, para as influenciar com publicidade ou para inferir os seus interesses, e podem ter perdido o controlo sobre os seus dados pessoais. A conservação dos dados de localização dos utilizadores por mais tempo do que o necessário agravou essa perda de controlo.

— Graham Doyle, comissário-adjunto da DPC

Excerto do comunicado de 21 de Setembro de 2026, traduzido para português.

A multa não é por recolher localização: é por o fazer sem base legal demonstrada, sem o explicar de forma clara e por conservar os dados mais tempo do que o necessário — em três funcionalidades que obedecem a regras distintas e das quais uma funciona mesmo sem conta Google.

Quanto é 403 milhões para a Alphabet

A Google Ireland pertence à Alphabet, que registou 402,8 mil milhões de dólares de receitas totais em 2025, segundo o relatório anual apresentado à autoridade de mercados dos Estados Unidos. Nessa escala, 403 milhões de euros ficam perto de 0,1% das receitas anuais do grupo.

Estrutura curva de vidro e aço entre edifícios de escritórios altos, vista de baixo para cima, junto de uma fachada de vidro

Passagem superior sobre a Barrow Street, em Dublin, que liga os edifícios Gordon House e Grand Mill Quay, escritórios da Google. A fotografia não mostra qualquer letreiro da empresa nem a sede da DPC — a Google Ireland Limited, com endereço em Gordon House, na mesma rua, é que foi multada.

Crédito: Fotografia: Grendelkhan — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O RGPD tem dois escalões de coimas: até 10 milhões de euros ou 2% do volume de negócios mundial anual do exercício anterior, e até 20 milhões de euros ou 4%, aplicando-se sempre o valor mais alto. O escalão máximo cobre os princípios básicos do tratamento, como a licitude e a lealdade, e as obrigações de transparência.

O comunicado da DPC não cita artigos do regulamento e a decisão completa ainda não foi publicada. Sem esse texto, não é possível saber em que escalão a autoridade se apoiou nem como chegou ao valor de 403 milhões de euros.

AutoridadeDPC (autoridade de supervisão principal da Google na UE)
Coima403 000 000 €
Período em análise25 Mai 2018 – 4 Fev 2020
FuncionalidadesWeb & App Activity, Histórico de localização, Precisão da localização
Prazo de conformidade6 meses
Receitas da Alphabet em 2025402,8 mil milhões de dólares
Total de coimas da DPC (lista de 10 Ago 2026)4 038 832 000 €

Há uma nota de cobrança que muda a leitura do número: a própria DPC explica que as coimas só se tornam pagáveis depois de confirmadas em tribunal. De mais de 4 mil milhões de euros aplicados em inquéritos da DPC, cerca de 20 milhões foram efectivamente cobrados. Se houver recurso, a coima não pode ser cobrada enquanto o processo correr.

O que a Google diz

«Este caso diz respeito a políticas históricas, que entretanto foram actualizadas», respondeu um porta-voz da Google. «A partir de 2019, evoluímos significativamente as nossas práticas e lançámos ferramentas robustas que tornam a gestão dos dados de localização simples».

A empresa acrescenta que criou controlos de eliminação automática e que o mapa do «Timeline» do Google Maps passou a ficar no próprio aparelho, apagando registos com mais de três meses. Diz ainda que já não guarda localização precisa no «Web & App Activity», mas uma área aproximada. São afirmações da empresa, não conclusões da DPC.

A RTÉ, o serviço público de comunicação irlandês, noticiou que se entende que a Google vai recorrer, alegando que o caso levanta questões jurídicas que precisam de esclarecimento para além dele. Até ao fim do dia do anúncio, a Google não tinha anunciado oficialmente qualquer recurso.

Porque é que a decisão chega a Portugal

A DPC agiu como autoridade de supervisão principal da Google e abriu o inquérito em Fevereiro de 2020, ao abrigo da secção 110 da lei irlandesa de protecção de dados e do mecanismo de cooperação do artigo 60.º do RGPD. O ponto de partida foram queixas de organizações de consumidores de vários países europeus.

É esse enquadramento — uma autoridade principal a decidir para o mercado único digital — que faz a decisão valer para os utilizadores do Espaço Económico Europeu, Portugal incluído. A DPC agradece no comunicado a colaboração das autoridades congéneres no processo.

Em Portugal, quem fiscaliza o cumprimento do RGPD é a Comissão Nacional de Protecção de Dados (CNPD), a Autoridade de Controlo Nacional que funciona junto da Assembleia da República. No comunicado, a DPC agradece a colaboração das autoridades congéneres sem as nomear.

A BEUC coordenou as queixas e sublinhou o tempo que a decisão levou. A primeira foi apresentada em Novembro de 2018 por oito organizações da Noruega, Países Baixos, Grécia, Chéquia, Eslovénia, Polónia, Suécia e Dinamarca; a segunda, em 2022, sobre o desenho das opções. «A aplicação tardia pode ser tão prejudicial como a ausência de aplicação», disse Agustín Reyna.

Fica o contexto da série: em Setembro de 2025, a CNIL francesa multou a Google em 325 milhões de euros no dossiê dos cookies. Na lista da própria DPC, as maiores coimas são as da Meta, de 1,2 mil milhões de euros em 2023, e da TikTok, de 530 milhões em 2025 — ambas ainda pendentes de recurso.

Ficam três coisas por saber: o que a decisão completa obriga em concreto, se a Google recorre e se o prazo de seis meses corre durante o eventual recurso. Até lá, 403 milhões de euros é um valor anunciado, não um valor cobrado.

💬 Comentários

Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!