Área hidrotermal com uma fumarola de vapor, solo esbranquiçado e alterado, pequenas poças de água e vegetação verde, com pinheiros ao fundo

Fotografia: Frank Schulenburg — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

🔬 Ciência

Ameba do fogo divide-se a 63 °C e sobe o limite da vida complexa

Uma ameba de uma só célula consegue dividir-se a 63 °C — o valor mais alto já confirmado num organismo com células complexas. O achado, apoiado pela NASA e publicado a 22 de Setembro na revista Cell, foi feito nas águas geotérmicas do Parque Nacional Vulcânico de Lassen, na Califórnia, e o organismo recebeu o nome de Incendiamoeba cascadensis, «ameba do fogo vinda das cascatas».

A descoberta não é de hoje: os resultados já tinham circulado numa pré-publicação no bioRxiv, a 24 de Novembro de 2025. O que muda nesta terça-feira é a passagem pela revisão por pares e o anúncio da agência espacial norte-americana, que trata o resultado como referência para o estudo dos limites da vida.

Gráfico de barras horizontais com sete temperaturas: 45 °C, 60 °C, 62 °C, 63 °C, 64 °C, 70 °C e 80 °C, cada uma com a descrição do que acontece à ameba

O que cada temperatura significa para a I. cascadensis, do limiar que define um organismo termófilo (45 °C) ao valor em que a exposição é letal. A barra a vermelho é o novo recorde dos eucariotas; o tracejado marca o limite teórico que vigorava até agora — a hipótese de que as membranas das células com núcleo não resistiriam acima dos 62 °C.

Crédito: Gráfico: Portugal Binário — dados do comunicado da NASA e do artigo na Cell (22 Set 2026)

Um recorde de três graus

Até agora, o limite conhecido para os eucariotas — os organismos cujas células têm núcleo, de amebas a seres humanos — estava nos 60 °C, fixado por algumas espécies de fungos e algas vermelhas. Havia mesmo uma hipótese de trabalho segundo a qual as membranas dos organelos das células complexas não aguentariam acima dos 62 °C. A I. cascadensis refuta-a: divide-se a 63 °C (145 °F); acima disso deixa de se dividir mas continua activa, a deslocar-se à procura de alimento, até aos 64 °C (147 °F); e recupera depois de cinco minutos a 70 °C (158 °F). Uma exposição a 80 °C revelou-se fatal — a NASA escreve «80 graus Fahrenheit (176 graus Celsius)» na legenda do vídeo que acompanha o comunicado, trocando as unidades entre si; como o ensaio é feito em cultura líquida, onde 176 °C não é possível à pressão normal, o valor coerente é 80 °C (176 °F).

EspécieIncendiamoeba cascadensis («ameba do fogo vinda das cascatas»)
Tipo de organismoeucariota unicelular
Localáguas geotérmicas do Parque Nacional Vulcânico de Lassen, Califórnia
Reproduçãoaté 63 °C (145 °F)
Mobilidadeaté 64 °C (147 °F)
Recuperaçãocinco minutos a 70 °C (158 °F)
Exposição letal80 °C (176 °F)
Recorde anterior dos eucariotas60 °C, fixado por fungos e algas vermelhas
Autora principalBeryl Rappaport, doutoranda na Universidade de Syracuse
Publicaçãorevista Cell, 22 de Setembro de 2026
Apoioprograma de Exobiologia da NASA

Genes que seguram o ADN

A equipa sequenciou o genoma da ameba e comparou a expressão dos seus genes a várias temperaturas. Encontrou muitos genes que ajudam a estabilizar o ADN e a evitar que ele se quebre, outros que permitem detectar o ambiente exterior, e ainda um conjunto que aumenta de actividade com o calor, ligado à manutenção do enrolamento correcto das proteínas. Algumas proteínas da I. cascadensis têm uma carga positiva à superfície que as ajuda a manter-se estáveis — um mecanismo semelhante ao que se encontra em bactérias e arqueias termófilas, os organismos de célula simples que dominavam a investigação sobre vida em condições extremas.

Em parte, os estudos sobre eucariotas podem ter sido limitados por pressupostos sobre a estabilidade das membranas. Esperamos que a descoberta da I. cascadensis encoraje outros a continuar a procurar eucariotas de alta temperatura.

— Beryl Rappaport

Autora principal do estudo, doutoranda na Universidade de Syracuse — citação do comunicado da NASA, traduzida do inglês

O limite não estava nas células complexas: estava na amostragem. A hipótese dos 62 °C excluía uma gama de ambientes que agora volta à lista.
Poça de água azul-turquesa rodeada de rochas brancas e acinzentadas, com vapor a sair do solo em volta

Uma poça de Bumpass Hell, outra área hidrotermal do Parque Nacional Vulcânico de Lassen — o mesmo parque onde a equipa recolheu a I. cascadensis. A fotografia não mostra o local exacto da recolha nem a ameba, que só é visível ao microscópio.

Crédito: Fotografia: Frank Schulenburg — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Há uma segunda pista no estudo. Ao comparar o material genético da ameba com dados de outros trabalhos, a equipa encontrou fragmentos de ADN semelhantes em amostras geotérmicas da Nova Zelândia e do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. A leitura possível é a de que existam outras amebas termófilas aparentadas por descobrir — e que o que faltava não era o habitat, mas a procura.

O que isto muda na procura de vida fora da Terra

A astrobiologia usa os extremófilos terrestres como guia para decidir onde vale a pena procurar vida noutros mundos. Durante décadas, a ideia de que as células complexas são frágeis serviu para excluir ambientes quentes da lista de candidatos. Este resultado não prova que exista vida nos oceanos sob a crosta gelada de Europa ou de Encélado, mas retira parte do argumento a quem os exclui por temperatura — e mostra que os limites da vida com núcleo são mais largos do que a teoria assumia. Fora da astrobiologia, as proteínas de organismos que resistem ao calor têm aplicação em processos industriais e na medicina.

Estudar extremófilos ajuda-nos a compreender melhor as limitações bioquímicas e fisiológicas da vida como a conhecemos na Terra. Esta informação, por sua vez, ajuda a orientar a procura de vida pela NASA, porque alarga o conjunto de condições em que acreditamos que ela pode existir.

— Alison Olcott

Cientista do programa de Exobiologia da NASA, sede em Washington — citação do comunicado da NASA, traduzida do inglês

O que ainda não se sabe

Os próprios autores fazem questão de não transformar o resultado numa regra geral: a sobrevivência depende de muitos factores que só existem num ecossistema maior. «É certamente possível que vida complexa como a I. cascadensis sobreviva noutro planeta, mas a Terra é o único planeta que conhecemos que tem tudo o que a I. cascadensis precisa para ser feliz», disse Rappaport. Fica também por perceber o alcance do que foi medido: uma espécie, em laboratório, com um limite de crescimento três graus acima do anterior — e um mecanismo molecular que ainda está a ser mapeado.

O essencial, porém, já está dito: o organismo existe, divide-se a 63 °C e está numa amostra recolhida num parque nacional da Califórnia. O que o estudo corrige não é o limite da vida — é o limite do que julgávamos saber sobre ele.

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