O movimento proTEJO exigiu que a autorização dos dois centros de dados previstos em Abrantes seja precedida de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) cumulativo e que o Estado fixe limites máximos vinculativos de eficiência hídrica e energética. Em comunicado divulgado a 22 de Setembro, o Movimento pelo Tejo — com sede em Vila Nova da Barquinha — avisa que «o Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia» e defende que quem se instalar na bacia «tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água».
O movimento estima que os dois projectos possam consumir, em plena capacidade, entre 3,6 e 22,2 milhões de litros de água por dia, consoante a tecnologia de arrefecimento adoptada — um intervalo que, segundo o proTEJO, continua por divulgar pelos promotores. Portugal tem desde 2024 legislação que obriga os centros de dados com procura de potência instalada igual ou superior a 500 quilowatts a publicar informação sobre desempenho energético, incluindo consumos de energia e de água, mas o diploma não fixa limites máximos. Em Abril, o Governo aprovou o Plano Nacional de Centros de Dados.
O consumo anual de electricidade do concelho de Abrantes e as duas estimativas que circulam para os dois centros de dados anunciados. Os cenários não medem a mesma coisa: um pressupõe 30 % de utilização média da potência, o outro o funcionamento contínuo à potência máxima. Nenhum deles é um número dos promotores.
Crédito: Gráfico: Portugal Binário — dados da Quercus (26 Ago 2026) e do proTEJO (22 Set 2026)
Os dois projectos
Em Abrantes estão anunciados dois projectos de grande dimensão. A EDC One prevê investir 7 mil milhões de euros junto à Central do Pego, com uma primeira fase de 300 MW e entrada em funcionamento apontada para 2028. A Hyperion II Renewables Services obteve em Maio parecer municipal favorável a um Pedido de Informação Prévia para uma área próxima de Alvega e do Pego, com 200 MVA de potência de ligação à rede e operação prevista para 2029. Os promotores pediram entretanto mais capacidade de ligação à rede eléctrica e os pedidos estão em análise, segundo a ministra do Ambiente e Energia.
| Projecto | EDC One |
|---|---|
| Localização | junto à Central do Pego, concelho de Abrantes |
| Investimento anunciado | 7 mil milhões de euros |
| Primeira fase | 300 MW |
| Entrada em funcionamento prevista | 2028 |
| Projecto | Hyperion II Renewables Services |
| Localização | área próxima de Alvega e do Pego |
| Ligação à rede | 200 MVA |
| Operação prevista | 2029 |
| Potência de referência usada pelo proTEJO | 500 MW |
Os dois projectos instalam-se à volta de infraestrutura eléctrica pesada. A Central Termoeléctrica do Pego, que produziu electricidade a partir do carvão, é a referência geográfica usada nos dois casos, e a REN tem em curso o projecto de um novo Posto de Corte de Abrantes para reforçar a Rede Nacional de Transporte naquela zona — um processo em fase de estudos ambientais, iniciado em Dezembro de 2024 e com fim previsto para Dezembro de 2026.
O Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia. Quem quiser instalar-se na sua bacia tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água.
— Movimento pelo Tejo — proTEJOTomada de posição divulgada a 22 de Setembro de 2026 e citada pela agência Lusa
Quanto é muito
O proTEJO estima um consumo conjunto máximo de 4 380 GWh por ano, tomando como referência 500 MW de potência — quase 29 vezes o consumo anual de electricidade do concelho de Abrantes, que a Quercus situa em 148,8 GWh em 2024. Como os dois projectos anunciados somam 300 MW na primeira fase da EDC One e 200 MVA de ligação à rede pedidos pela Hyperion, a referência de 500 MW junta duas unidades que não são directamente comparáveis — mais uma razão para os números variarem conforme quem faz a conta.
| Cenário | Consumo anual estimado | Face ao consumo do concelho |
|---|---|---|
| 30 % de utilização da potência (Quercus) | 1 314 GWh | 8,8 vezes |
| Funcionamento contínuo à potência máxima (proTEJO) | 4 380 GWh | 29 vezes |
As estimativas que circulam não divergem por descuido: medem coisas diferentes. A Quercus admite 30 % de utilização média — mais próximo do funcionamento real de um centro de dados — e daí resultam 1 314 GWh por ano; à potência máxima aponta 4,4 TWh, que face aos 148,8 GWh do concelho dá 29,6 vezes, embora no mesmo texto o título fale de «quase 30 vezes» e o corpo de «quase 20 vezes». O proTEJO usa o cenário de potência máxima. Nenhum dos dois números será o consumo que se verificará: isso depende da tecnologia de arrefecimento, do factor de utilização e de quais das fases anunciadas avançam.
Água, o outro limite
É na água que o movimento concentra o aviso. Os 3,6 a 22,2 milhões de litros por dia são uma estimativa sua, dependente da tecnologia escolhida — as torres de arrefecimento evaporativas consomem muito mais água do que circuitos fechados. O proTEJO lembra que a Agência Portuguesa do Ambiente prevê um agravamento da escassez na bacia do Tejo entre 2028 e 2033, o período que coincide com o arranque dos projectos, e que parte significativa das massas de água superficiais e subterrâneas está abaixo do «Bom Estado».
O que o movimento pede é curto e concreto: que os promotores revelem a tecnologia de arrefecimento e o consumo de água previsto; que a autorização dos dois projectos seja precedida de um EIA cumulativo; e que sejam fixados limites máximos vinculativos de eficiência hídrica e energética, com publicação dos dados de desempenho de cada centro de dados.
O Tejo, as lezírias de Alferrarede e, ao fundo, a Central Termoeléctrica do Pego, vista do castelo de Abrantes. É junto a esta central que está previsto o centro de dados EDC One; a fotografia não mostra os terrenos dos projectos nem obras em curso.
Crédito: Fotografia: Threeohsix — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)
O que já responderam promotores e Governo
Do lado do Governo, a resposta pública conhecida é processual: os promotores pediram mais capacidade de ligação à rede e os pedidos estão em análise, disse a ministra do Ambiente e Energia à Lusa. Os promotores não divulgaram os consumos que o movimento pede — e é isso, mais do que a discórdia sobre o mérito dos projectos, que mantém o diferendo aberto. A lei de 2024 obriga à publicação de dados de desempenho a partir de 500 quilowatts de procura instalada, o que abrange estes projectos, mas não fixa tectos. O Plano Nacional de Centros de Dados, aprovado em Abril, promete coordenar o investimento e garantir o cumprimento das regras ambientais, sem anunciar limites.
O que fica por responder
Ficam três perguntas com prazo. A primeira é a dos consumos: sem eles, qualquer avaliação — do movimento, da Quercus ou do município — é um exercício sobre hipóteses. A segunda é a do EIA cumulativo, que o proTEJO quer ver exigido antes de qualquer autorização. A terceira é a da rede: os estudos ambientais do novo Posto de Corte de Abrantes têm fim previsto para Dezembro de 2026, e é a capacidade eléctrica disponível naquela zona que determina, na prática, quantos megawatts estes centros de dados conseguem ligar.
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