Rio largo visto de uma margem rochosa, com bancos de areia expostos, água pouco profunda onde se vêem as pedras do leito e vegetação verde nas duas margens

Fotografia: GualdimG — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

⚡ Energia

Abrantes: proTEJO exige limites de água e energia aos centros de dados

O movimento proTEJO exigiu que a autorização dos dois centros de dados previstos em Abrantes seja precedida de um Estudo de Impacte Ambiental (EIA) cumulativo e que o Estado fixe limites máximos vinculativos de eficiência hídrica e energética. Em comunicado divulgado a 22 de Setembro, o Movimento pelo Tejo — com sede em Vila Nova da Barquinha — avisa que «o Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia» e defende que quem se instalar na bacia «tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água».

O movimento estima que os dois projectos possam consumir, em plena capacidade, entre 3,6 e 22,2 milhões de litros de água por dia, consoante a tecnologia de arrefecimento adoptada — um intervalo que, segundo o proTEJO, continua por divulgar pelos promotores. Portugal tem desde 2024 legislação que obriga os centros de dados com procura de potência instalada igual ou superior a 500 quilowatts a publicar informação sobre desempenho energético, incluindo consumos de energia e de água, mas o diploma não fixa limites máximos. Em Abril, o Governo aprovou o Plano Nacional de Centros de Dados.

Gráfico de barras verticais com três valores: 148,8 GWh para o consumo do concelho de Abrantes em 2024, 1 314 GWh para dois centros de dados a 30 % de utilização e 4 380 GWh à potência máxima

O consumo anual de electricidade do concelho de Abrantes e as duas estimativas que circulam para os dois centros de dados anunciados. Os cenários não medem a mesma coisa: um pressupõe 30 % de utilização média da potência, o outro o funcionamento contínuo à potência máxima. Nenhum deles é um número dos promotores.

Crédito: Gráfico: Portugal Binário — dados da Quercus (26 Ago 2026) e do proTEJO (22 Set 2026)

Os dois projectos

Em Abrantes estão anunciados dois projectos de grande dimensão. A EDC One prevê investir 7 mil milhões de euros junto à Central do Pego, com uma primeira fase de 300 MW e entrada em funcionamento apontada para 2028. A Hyperion II Renewables Services obteve em Maio parecer municipal favorável a um Pedido de Informação Prévia para uma área próxima de Alvega e do Pego, com 200 MVA de potência de ligação à rede e operação prevista para 2029. Os promotores pediram entretanto mais capacidade de ligação à rede eléctrica e os pedidos estão em análise, segundo a ministra do Ambiente e Energia.

ProjectoEDC One
Localizaçãojunto à Central do Pego, concelho de Abrantes
Investimento anunciado7 mil milhões de euros
Primeira fase300 MW
Entrada em funcionamento prevista2028
ProjectoHyperion II Renewables Services
Localizaçãoárea próxima de Alvega e do Pego
Ligação à rede200 MVA
Operação prevista2029
Potência de referência usada pelo proTEJO500 MW

Os dois projectos instalam-se à volta de infraestrutura eléctrica pesada. A Central Termoeléctrica do Pego, que produziu electricidade a partir do carvão, é a referência geográfica usada nos dois casos, e a REN tem em curso o projecto de um novo Posto de Corte de Abrantes para reforçar a Rede Nacional de Transporte naquela zona — um processo em fase de estudos ambientais, iniciado em Dezembro de 2024 e com fim previsto para Dezembro de 2026.

O Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia. Quem quiser instalar-se na sua bacia tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água.

— Movimento pelo Tejo — proTEJO

Tomada de posição divulgada a 22 de Setembro de 2026 e citada pela agência Lusa

Quanto é muito

O proTEJO estima um consumo conjunto máximo de 4 380 GWh por ano, tomando como referência 500 MW de potência — quase 29 vezes o consumo anual de electricidade do concelho de Abrantes, que a Quercus situa em 148,8 GWh em 2024. Como os dois projectos anunciados somam 300 MW na primeira fase da EDC One e 200 MVA de ligação à rede pedidos pela Hyperion, a referência de 500 MW junta duas unidades que não são directamente comparáveis — mais uma razão para os números variarem conforme quem faz a conta.

CenárioConsumo anual estimadoFace ao consumo do concelho
30 % de utilização da potência (Quercus)1 314 GWh8,8 vezes
Funcionamento contínuo à potência máxima (proTEJO)4 380 GWh29 vezes

As estimativas que circulam não divergem por descuido: medem coisas diferentes. A Quercus admite 30 % de utilização média — mais próximo do funcionamento real de um centro de dados — e daí resultam 1 314 GWh por ano; à potência máxima aponta 4,4 TWh, que face aos 148,8 GWh do concelho dá 29,6 vezes, embora no mesmo texto o título fale de «quase 30 vezes» e o corpo de «quase 20 vezes». O proTEJO usa o cenário de potência máxima. Nenhum dos dois números será o consumo que se verificará: isso depende da tecnologia de arrefecimento, do factor de utilização e de quais das fases anunciadas avançam.

Não faltam estimativas sobre os centros de dados de Abrantes: falta o número dos promotores. Sem consumos divulgados, o debate público faz-se com aritmética de terceiros.

Água, o outro limite

É na água que o movimento concentra o aviso. Os 3,6 a 22,2 milhões de litros por dia são uma estimativa sua, dependente da tecnologia escolhida — as torres de arrefecimento evaporativas consomem muito mais água do que circuitos fechados. O proTEJO lembra que a Agência Portuguesa do Ambiente prevê um agravamento da escassez na bacia do Tejo entre 2028 e 2033, o período que coincide com o arranque dos projectos, e que parte significativa das massas de água superficiais e subterrâneas está abaixo do «Bom Estado».

O que o movimento pede é curto e concreto: que os promotores revelem a tecnologia de arrefecimento e o consumo de água previsto; que a autorização dos dois projectos seja precedida de um EIA cumulativo; e que sejam fixados limites máximos vinculativos de eficiência hídrica e energética, com publicação dos dados de desempenho de cada centro de dados.

Vista elevada sobre o vale do Tejo, com campos agrícolas, o rio ao centro e, ao fundo, as torres e a chaminé da Central Termoeléctrica do Pego entre colinas arborizadas

O Tejo, as lezírias de Alferrarede e, ao fundo, a Central Termoeléctrica do Pego, vista do castelo de Abrantes. É junto a esta central que está previsto o centro de dados EDC One; a fotografia não mostra os terrenos dos projectos nem obras em curso.

Crédito: Fotografia: Threeohsix — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O que já responderam promotores e Governo

Do lado do Governo, a resposta pública conhecida é processual: os promotores pediram mais capacidade de ligação à rede e os pedidos estão em análise, disse a ministra do Ambiente e Energia à Lusa. Os promotores não divulgaram os consumos que o movimento pede — e é isso, mais do que a discórdia sobre o mérito dos projectos, que mantém o diferendo aberto. A lei de 2024 obriga à publicação de dados de desempenho a partir de 500 quilowatts de procura instalada, o que abrange estes projectos, mas não fixa tectos. O Plano Nacional de Centros de Dados, aprovado em Abril, promete coordenar o investimento e garantir o cumprimento das regras ambientais, sem anunciar limites.

O que fica por responder

Ficam três perguntas com prazo. A primeira é a dos consumos: sem eles, qualquer avaliação — do movimento, da Quercus ou do município — é um exercício sobre hipóteses. A segunda é a do EIA cumulativo, que o proTEJO quer ver exigido antes de qualquer autorização. A terceira é a da rede: os estudos ambientais do novo Posto de Corte de Abrantes têm fim previsto para Dezembro de 2026, e é a capacidade eléctrica disponível naquela zona que determina, na prática, quantos megawatts estes centros de dados conseguem ligar.

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