O navio de colocação de cabos submarinos SUBARU, da NTT WE Marine, atracado num porto
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As Filipinas querem um cabo submarino que sente terramotos: 500 milhões de dólares dos três rivais do setor

Uma teia de fibra ótica no fundo do mar que, em vez de apenas transportar internet, ouve a terra a mexer-se. É esta a ideia por trás da proposta que três rivais do setor das telecomunicações filipino — PLDT, Globe e Converge — entregaram ao governo no início de agosto: um cabo submarino nacional de 500 milhões de dólares que ligaria todo o arquipélago e serviria ao mesmo tempo de rede de alerta para terramotos e tsunamis.

O projeto, ainda em avaliação no Departamento de Tecnologias de Informação e Comunicação (DICT), desenha um anel de cabos que parte de Batanes, no extremo norte, cruza para Palawan, a ocidente, e desce até às Visayas e Mindanao, fechando o circuito pelo oceano Pacífico — uma volta completa que garante redundância: se um troço falhar, o tráfego segue pelo outro lado. As estações de amarração ligar-se-iam a 14 cabos internacionais já existentes, reforçando as ligações do país ao resto do mundo.

A fibra que ouve os sismos

A novidade está dentro do próprio cabo. As operadoras propõem incorporar um sistema acústico digital (DAS) na fibra, tecnologia que transforma o próprio vidro num sensor: qualquer vibração ao longo de milhares de quilómetros — um abalo sísmico no leito do oceano, uma onda de tsunami a aproximar-se, até o casco de um navio a passar por cima — perturba a luz que percorre a fibra, e essa perturbação é lida em tempo real na estação em terra.

É como uma teia de aranha: quando a teia se move, sabemos que algo entrou. O cabo passará a sentir o movimento sísmico de terramotos e tsunamis, permitindo a recolha de dados em tempo real.

— Henry Aguda, secretário do DICT das Filipinas

Os dados seriam partilhados com o instituto de vulcanologia e sismologia do país (PHIVOLCS) para alertas precoces de terramotos e tsunamis, e com o Ministério da Defesa, que poderia usar o mesmo sistema para seguir a movimentação de navios em águas filipinas. O arquipélago fica no chamado Anel de Fogo do Pacífico, uma das zonas sísmicas mais ativas do planeta, e os sismógrafos em terra cegam para o que acontece no fundo do mar — exatamente onde os cabos passam.

Mapa administrativo das Filipinas com as regiões de Luzon, Visayas e Mindanao e as ilhas Batanes e Palawan assinaladas

O anel de cabos proposto ligaria Batanes, no norte, a Palawan, no oeste, e desceria até às Visayas e Mindanao — as regiões com pior acesso à internet. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY-SA)

Setenta milhões de pessoas sem ligação

O objetivo de fundo é menos glamoroso e mais urgente: só 48,8% dos filipinos têm internet em casa, segundo dados de 2024 do instituto nacional de estatística. Na península de Zamboanga, a penetração é de 21,2%; na região autónoma de Bangsamoro, 27,7%. O arquipélago tem mais de 7.600 ilhas, e levar fibra por terra a todas é logisticamente quase impossível — por mar, é o caminho natural. O governo estima que o projeto beneficiaria cerca de 70 milhões de pessoas e complementaria o National Fiber Backbone, o programa estatal de fibra terrestre que está a acelerar as fases 4 e 5 ainda este ano.

Outro pormenor raro: as operadoras propõem pagar a fatura. O custo de pelo menos 500 milhões de dólares seria suportado pelas próprias PLDT, Globe e Converge — que já investem em cabos internacionais (a PLDT no sistema Apricot, a Globe no Candle, a Converge no Bifrost e SEA-H2X) — poupando ao Estado filipino o investimento.

Estação de amarração de cabos submarinos da ACE em Duynefontein, com carretéis de cabo protegidos ao lado do edifício

As estações de amarração são o ponto onde os cabos saem do mar e entram na rede terrestre — e onde se lêem os sensores sísmicos embutidos na fibra. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY-SA)

Ainda é uma proposta — mas a meta é 2028

O projeto está, para já, sobre a mesa do DICT, que se reuniu com as operadoras pelo menos duas vezes. Se for aprovado, a construção levaria cerca de dois anos — o que obrigaria a começar ainda este ano para cumprir a meta otimista: 2028, antes do fim do mandato do presidente Ferdinand Marcos Jr. O secretário Aguda prometeu acelerar o processo, e o plano exige coordenação entre sete ministérios e agências, do ambiente à defesa, passando pela sismologia.

A tecnologia em si não é ficção científica: o mesmo princípio do DAS já é estudado em cabos submarinos existentes por institutos como o National Physical Laboratory do Reino Unido, que propõe usar a rede global de fibra como uma gigantesca constelação de sismógrafos no fundo do oceano. Se as Filipinas avançarem, serão o primeiro país a construir um cabo de raiz com esse sensor embutido — internet e alerta de tsunami no mesmo fio.

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