Ilustração médica em 3D com a silhueta de uma cabeça humana em perfil, parte do encéfalo destacada a vermelho, e ao lado um corte anatómico do mesencéfalo com estruturas legendadas em inglês

Ilustração: scientificanimations.com — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Ilustração anatómica do mesencéfalo; não é uma imagem do estudo nem de um doente.

🔬 Ciência

O cérebro nasce de duas linhagens embrionárias, não de uma só

O cérebro não tem uma só origem. Um estudo liderado pela Stanford Medicine, publicado a 18 de setembro na revista Nature Neuroscience, descreve duas populações de células progenitoras que trabalham em paralelo desde as primeiras fases do desenvolvimento: uma constrói a parte da frente do encéfalo, outra constrói o tronco cerebral. Nunca se misturam.

Durante décadas, o modelo dominante dizia o contrário: uma única célula-mãe inicial daria origem a todo o cérebro. O trabalho agora publicado desafia esse modelo. «O cérebro é um órgão», diz o co-autor Kyle Loh, biólogo do desenvolvimento em Stanford. «Mas é construído em duas partes diferentes, que se ligam e funcionam em conjunto.»

Duas populações que nunca se cruzam

Para encontrar as duas linhagens, a equipa de Loh observou embriões de ratinho com sete dias e meio de gestação — a fase em que o corpo começa a tomar forma — e usou coloração de tecidos e sequenciação de RNA. Encontrou dois grupos distintos de células progenitoras, que nunca ocupam o mesmo espaço.

Depois marcou um desses grupos com fluorescência vermelha e seguiu-o até ao cérebro já formado. «A metade de trás do cérebro estava vermelha, mas a da frente não», descreve o investigador. As células que formam o prosencéfalo e o mesencéfalo não produzem células do rombencéfalo.

A diferença não é de posição, é de destino. As duas populações têm a cromatina — a forma como o ADN está empacotado e acessível — organizada de maneira diferente, e isso fixa cada uma ao seu percurso. Progenitoras da parte da frente não se transformam em células do tronco cerebral.

Se as duas linhagens nunca se cruzam, décadas de tentativas para transformar células da parte da frente em neurónios do tronco cerebral estavam condenadas desde o início.

O mesmo padrão em 550 milhões de anos

A equipa procurou as duas populações noutras espécies e encontrou-as sempre: em galinhas, peixe-zebra, macacos e no Saccoglossus kowalevskii, um verme marinho. O último antepassado comum entre os humanos e esse invertebrado viveu «há mais de 500 milhões de anos, antes da Pangeia», nota Loh. «E o seu embrião em desenvolvimento era igual ao do ratinho.»

Fotografia em plano aproximado de um verme marinho pálido e cilíndrico, com uma faixa mais escura junto a uma das extremidades, sobre areia molhada e escura

O Saccoglossus kowalevskii, um verme marinho também chamado verme bolota, é a espécie mais distante onde a equipa encontrou as duas populações de progenitoras do cérebro. A fotografia mostra o animal adulto, não o embrião.

Crédito: Fotografia: Zihao Wang — Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

O que os autores propõem, com estes dados, é que o cérebro seja um órgão composto: duas redes nervosas antigas que a evolução juntou no mesmo crânio. É uma hipótese sobre a origem embrionária das células, sublinham, e não uma medição do cérebro adulto a funcionar.

Neurónios do tronco cerebral numa placa de Petri

Na segunda parte do trabalho, com células estaminais pluripotentes humanas, os investigadores forçaram as células a escolher um dos dois caminhos. Depois deram-lhes sinais químicos para testar se ainda conseguiam mudar de destino. As da parte da frente responderam; as do tronco cerebral recusaram avançar.

Com essa informação, a equipa conseguiu o que faltava: fez crescer neurónios motores do rombencéfalo, do tipo que controla os músculos da face e da deglutição. Disparam os impulsos eléctricos típicos dos neurónios e produzem as proteínas que identificam esses segmentos do sistema nervoso.

É aqui que o trabalho interessa a doentes. Na esclerose lateral amiotrófica (ELA) e na atrofia muscular espinhal (AME), estes neurónios deixam de funcionar. A pessoa perde a capacidade de engolir, o que pode causar pneumonias, e mais tarde a de respirar.

Como não é possível recolher tecido do tronco cerebral de pessoas vivas, o estudo destas doenças dependia de modelos animais. A nota da universidade acrescenta uma ligação inesperada: os circuitos que regulam a fome estão no rombencéfalo, a mesma região onde actuam fármacos para a obesidade como a semaglutida.

Em Portugal, a AME está incluída no rastreio neonatal do teste do pezinho: o painel tem 29 patologias, segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. Em 2025, dos 147 casos diagnosticados, dez eram de atrofia muscular espinhal.

«Dois órgãos» é o título, não é o que o artigo diz

O título da universidade — «o cérebro humano são dois órgãos separados» — é mais forte do que o texto científico. No artigo, os autores escrevem que «postulam» que o cérebro é um órgão composto. A própria Nature, ao noticiar o estudo, regista que não é consensual a conclusão de que as duas populações de células não se misturam.

O cérebro é um órgão. Mas é construído em duas partes diferentes, que se ligam e funcionam em conjunto.

— Kyle Loh, co-autor do estudo, à revista Nature (tradução)

Os limites também contam. A prova mais directa do traçado de linhagem vem de embriões de ratinho; nas células humanas, a evidência é de um modelo em laboratório, não de embriões humanos observados. E o estudo mede origens embrionárias, não o comportamento do cérebro já formado.

O que falta saber

Os autores querem agora perceber como se forma a medula espinal e de que modo a ELA e a AME comprometem estes neurónios. O trabalho foi financiado pelos National Institutes of Health e pela National Science Foundation, com colaboração do Caltech e da Universidade da Califórnia em São Francisco.

Por agora, o que existe é isto: um modelo antigo substituído por outro, uma explicação para décadas de fracasso em laboratório e neurónios humanos do tronco cerebral que, finalmente, crescem fora do corpo.

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