Satélite Galileo em configuração de voo numa sala de ensaios de paredes verdes, com painéis e coberturas de protecção, e um técnico de bata azul identificada com a sigla ESA a trabalhar junto de equipamento de teste e cabos

Fotografia: European Space Agency — Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 IGO). Satélite Galileo em ensaios no ESTEC; não é uma imagem do ensaio de 16 de setembro de 2026.

🚀 Espaço

Galileo autentica pela primeira vez uma posição sob spoofing

Durante duas horas, a 16 de setembro, cinco satélites Galileo encriptaram um dos seus componentes de sinal sobre a Europa. Em Andøya, na Noruega, e no ESTEC, nos Países Baixos, receptores fixaram a sua posição com um sinal cuja origem podia ser verificada: é a primeira determinação de posição civil autenticada em condições de spoofing, segundo a ESA.

A agência espacial europeia enquadra o ensaio num problema que descreve como quotidiano: as interferências nos sistemas de navegação por satélite, por jamming ou spoofing, são «reportadas diariamente» em muitas regiões, «incluindo na Europa», sobretudo perto de zonas de conflito. O Galileo evolui também por causa disso.

O objectivo não é tornar o sinal impossível de atacar: é dar ao receptor forma de perceber que o sinal é falso e de o recusar.

Jamming e spoofing não são o mesmo problema

O jamming enche a banda de ruído e costuma ser combatido com técnicas de potência de sinal. O spoofing é «significativamente mais complexo»: alguém emite sinais falsos que imitam os verdadeiros e o receptor não tem como distinguir uns dos outros. Para o equipamento de grande consumo, a resposta passa por dois serviços: o OSNMA e o SAS.

Ao combinar a autenticação do sinal com a autenticação da mensagem de navegação, os utilizadores saberão que podem confiar na posição que o seu dispositivo mostra.

— Joerg Hahn, responsável de engenharia do programa Galileo na ESA (tradução do inglês)

O que o receptor passa a poder verificar

Para calcular uma posição, um receptor trabalha com duas informações: a mensagem de navegação enviada pelos satélites e o tempo que o sinal leva a chegar até ele, a chamada medição de distância. O OSNMA, operacional desde 2025, autentica a mensagem. O SAS vai autenticar a medição. Juntos, permitem detectar e rejeitar um conjunto alargado de ataques de spoofing.

A EUSPA, prestadora do serviço, explica o mecanismo: o SAS usa o sinal E6-C, que já existe, encriptado, num conceito de autenticação «semi-assistida». Porções desse sinal são re-encriptadas com chaves do OSNMA e publicadas com regularidade no site do Centro de Serviço GNSS europeu.

O receptor descarrega essas porções, desencripta-as com as chaves difundidas e correlaciona-as com amostras do sinal que guardou. Não há chaves privadas nas mãos do utilizador. O OSNMA e o SAS são gratuitos e ficam disponíveis em todo o mundo; quem usa o serviço de alta precisão beneficia das mesmas verificações.

Duas horas sobre a Europa, num campo de provas

O ensaio aconteceu no Jammertest, o encontro anual em Andøya onde as autoridades norueguesas emitem de propósito cenários de jamming e spoofing e onde centenas de intervenientes da cadeia de valor do GNSS — arquitectos de sistema, fabricantes de receptores, criadores de aplicações — põem o seu equipamento à prova.

A ESA e o Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia aproveitaram para testar o SAS em condições realistas. Durante duas horas, os satélites E06, E21, E23, E34 e E36 encriptaram o sinal E6-C, a 1278,75 MHz, que é normalmente transmitido sem encriptação. Os receptores de Andøya e do ESTEC fixaram a sua posição.

Grande antena parabólica branca de banda L montada sobre uma base de betão, com outras antenas e um edifício técnico em segundo plano, num planalto verde sob céu azul

A antena de banda L da ESA em Redu, na Bélgica, usada no acompanhamento e nos testes em órbita dos satélites Galileo. A estrutura serve de estação de terra a este tipo de sinais; não é o local do ensaio de 16 de setembro de 2026, que decorreu em Andøya e no ESTEC.

Crédito: Fotografia: European Space Agency — Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 IGO)

Serviço apontado a 2027

A EUSPA diz que a fase de testes interna arrancou em 2025 e que o serviço operacional inicial está apontado a 2027. O SAS introduz uma latência de alguns décimos de segundo entre a recepção do sinal e a autenticação e, segundo a agência, será o primeiro serviço de autenticação de sinal oferecido de forma global e aberta.

O que falta é o resto: no próximo ano, a EUSPA, a Comissão Europeia, a ESA e a indústria fazem a validação e a acreditação antes de o serviço ser declarado operacional. Só depois disso a autenticação deixa de ser uma demonstração e passa a ser um serviço com compromissos públicos.

Nenhuma das páginas consultadas esclarece que receptores de grande consumo suportam já estas verificações, nem se os fabricantes as vão activar por omissão. Para quem usa o telemóvel no bolso, é aí que a notícia se decide.

Quem decide e quem executa

O Galileo é propriedade da União Europeia e é gerido e financiado pela Comissão Europeia, no âmbito do Programa Espacial da UE. A Comissão definiu o conceito do SAS; a ESA desenhou-o e qualificou-o; a EUSPA presta o serviço, responde pela acreditação de segurança e promove a adopção nos vários mercados.

O Galileo entrou em serviço aberto em 2016 e a ESA apresenta-o como o sistema de navegação por satélite mais preciso do mundo. Todos os smartphones vendidos no Mercado Único europeu são «Galileo-enabled» — logo, também os vendidos em Portugal. Ferroviário, marítimo, agricultura, sincronização financeira e salvamento contam com ele.

Porque isto chegou agora

A Europa não está a resolver um problema abstracto. Em Junho noticiámos o estudo que atribuiu a interferência GNSS sobre a Europa a satélites russos em órbitas Molniya; em Julho escrevemos sobre o spoofing que já afectava o Báltico e sobre voos desviados. A nota da ESA fala agora de interferência «reportada diariamente» em muitas regiões, «incluindo na Europa».

Este conjunto de serviços torna o Galileo um sistema único, com funcionalidades de protecção avançadas para o utilizador de grande massa, além do já disponível Serviço Público Regulado, que dá capacidades de protecção contra jamming e spoofing ainda mais robustas a utilizadores governamentais.

— Miguel Manteiga Bautista, gestor do programa Galileo na ESA (tradução do inglês)

Para o utilizador, a diferença chega por etapas: primeiro o satélite, depois o serviço, por fim o receptor que autentica. Com a validação marcada para o próximo ano, o passo que falta é o último — e é o único que não depende da ESA.

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