A aeronave Saab 340B modificada (N399CL) com o sistema híbrido-elétrico da GE Aerospace, numa demonstração de voo que marcou um feito inédito na história da aviação comercial — Foto: GE Aerospace/Reuters
Pela primeira vez na história, um avião com propulsão híbrida-elétrica voou acima dos 30.000 pés (9 km) de altitude — a mesma altitude a que voam os aviões comerciais de passageiros — e completou a travessia do Oceano Atlântico. O marco foi alcançado pela GE Aerospace, em parceria com a NASA, a Boeing e a Beta Technologies, e apresentado ao público no Farnborough International Airshow, no Reino Unido, a 20 de julho.
O demonstrador tecnológico, um Saab 340B profundamente modificado, realizou um voo de mais de duas horas de duração a 30.000 pés e percorreu o trajeto entre os Estados Unidos e o Reino Unido com várias escalas, operando o sistema híbrido-elétrico em todas as etapas. O voo de apresentação em Farnborough foi o culminar de uma campanha de testes que decorria desde maio de 2026.
O sistema híbrido-elétrico da GE Aerospace é de classe megawatt — o que significa que pode fornecer entre 1 a 5 megawatts de potência elétrica. Este nível de potência é suficiente para aeronaves comerciais de corredor único, como o Boeing 737, o Airbus A320 e o Embraer 195, abrindo caminho para uma nova geração de aviões mais eficientes e com menor consumo de combustível.
Como funciona o avião híbrido
O Saab 340B de matrícula N399CL, modificado para receber o motor híbrido-elétrico numa das naceles — o sistema ocupa praticamente o mesmo espaço de um turbohélice convencional — Foto: GE Aerospace/Reuters
O princípio de funcionamento é semelhante ao de um automóvel híbrido. Além do motor a combustão tradicional (neste caso, um motor CT7 da GE), o avião recebeu um conjunto de máquina elétrica, inversores de potência e baterias. O motor elétrico é usado para dar potência adicional durante as fases críticas do voo — descolagem e subida — permitindo à aeronave atingir a altitude de cruzeiro com menor consumo de combustível.
Quando o avião está em velocidade de cruzeiro ou em fase de descida, o motor elétrico opera no sentido contrário, funcionando como um gerador para recarregar as baterias. Exatamente como num carro híbrido. Segundo a GE, o sistema melhorou significativamente o desempenho em grandes altitudes e a capacidade de subida.
Uma década e meia de investigação
O projeto insere-se no programa Electrified Powertrain Flight Demonstration (EPFD) da NASA, que representa mais de 15 anos de investigação em sistemas de propulsão eletrificada para grandes aeronaves. Ao longo deste período, centenas de investigadores trabalharam em vários centros da NASA, em parceria com a GE Aerospace e dezenas de empresas do setor.
O sistema híbrido integra componentes de várias empresas: as baterias foram fornecidas pela BAE Systems, a nacele completa foi desenvolvida pela Aurora Flight Sciences (subsidiária da Boeing), as caixas de engrenagens são da Avio Aero, as hélices da Dowty e os trocadores de calor da Unison. A integração e os testes de voo estiveram a cargo da BETA Technologies.
A tecnologia híbrido-elétrica insere-se ainda no programa CFM RISE, lançado em 2021 pela CFM International (joint-venture da GE com a francesa Safran). O programa RISE já realizou cerca de 500 campanhas de testes e mais de 3.000 ciclos de resistência, combinando motores Open Fan, núcleos compactos e sistemas híbrido-elétricos.
O primeiro voo híbrido-elétrico em alta altitude da história da aviação é um feito digno dos livros. A GE Aerospace é grata à NASA, à BETA Technologies e à Boeing pela colaboração para acelerar a tecnologia híbrido-elétrica e atender às necessidades dos clientes por maior eficiência, durabilidade e alcance.
— H. Lawrence Culp Jr., presidente e CEO da GE Aerospace
O futuro da aviação comercial
A NASA colaborou no projeto através do programa Electrified Powertrain Flight Demonstration (EPFD), que resultou de mais de 15 anos de investigação em propulsão elétrica para aviação — Foto: LaserLens/iStock
Apesar do marco histórico, a tecnologia ainda tem um longo caminho até chegar ao mercado comercial. O próprio CEO da GE, Larry Culp, afirmou que "nada é iminente em termos de lançamento de produto", classificando o voo como uma "forte prova de conceito" de que a propulsão híbrida fará parte da próxima geração de aeronaves comerciais.
A GE Aerospace estima que a tecnologia híbrido-elétrica poderá ser aplicada em futuras arquiteturas de motores, incluindo projetos compatíveis com diferentes tipos de combustíveis e com o conceito Open Fan. A demonstração em altitude real de cruzeiro é um passo essencial para validar os sistemas de gerenciamento térmico e de pressão atmosférica, dois dos maiores desafios técnicos ainda por resolver.
As rivais Pratt & Whitney e Rolls-Royce também preparam atualizações sobre as suas próprias investigações em motores híbridos, sinalizando que a corrida tecnológica para a próxima geração de propulsão comercial está a aquecer — e que o primeiro avião comercial híbrido do mundo poderá estar mais perto do que parece.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!