Múmia andina preservada naturalmente, em posição fetal, com restos dos têxteis funerários (fotografia de arquivo)
🔬 Ciência

Varíola em múmias incas de 500 anos: a primeira prova molecular de que a doença chegou com os colonizadores

A equipa não estava à procura de uma doença. Investigadores do Trinity College Dublin e da Universidade do Chile tinham recolhido amostras de osso de 13 pessoas enterradas no cemitério Camarones 9, no norte do Chile, para estudar a ascendência e a história populacional da região. O ADN humano estava demasiado degradado. O ADN viral, não: em duas das amostras, os fragmentos pertenciam ao vírus da varíola.

Os dois indivíduos eram uma mulher de 30 a 35 anos e um homem de 18 a 20 anos, habitantes de uma comunidade inca na costa do Pacífico, mumificados naturalmente e enterrados embrulhados em mantas de lã de camelídeo, com objetos votivos — uma prática de enterramento em fardos que precede o império inca. Viveram entre 1492 e 1631, no período inicial da colonização espanhola. Não há qualquer registo histórico de varíola naquela comunidade: a prova estava "literalmente escrita" no ADN, como resumiu a antropóloga Constanza de la Fuente Castro, da Universidade do Chile.

Uma linhagem extinta entre dois mundos

Os genomas virais recuperados das duas múmias são quase idênticos — mais de 99,9% —, o que sugere que ambas as pessoas foram infetadas no mesmo surto ou pela mesma estirpe em circulação. Ao colocarem os genomas na árvore evolutiva da varíola, os investigadores deram-lhe um lugar inesperado: a linhagem, batizada CAM9 em homenagem ao sítio arqueológico, divergiu das estirpes europeias por volta de 1296 e fica evolutivamente a meio caminho entre as estirpes da Europa medieval e as que circularam em séculos posteriores. Está extinta — desapareceu antes do século XX.

A análise revelou também 49 genes inativados ou em falta no genoma do vírus — sinais de uma adaptação longa ao único hospedeiro possível: o ser humano. Ao longo da evolução, a varíola desligou os genes que lhe permitiam infetar outros animais, tornando-se cada vez mais especializada em pessoas. O estudo, publicado a 30 de julho na revista Science, fornece a primeira evidência molecular direta de que a varíola chegou às Américas com os colonizadores europeus — confirmando geneticamente o que os relatos escritos, produzidos pelos próprios colonizadores, apenas sugeriam.

Microscopia eletrónica de transmissão do vírus da varíola (virions em forma de tijolo)

O vírus da varíola (variola virus) ao microscópio eletrónico de transmissão: os virions em forma de tijolo são caraterísticos do grupo Orthopoxvirus, a que também pertence o mpox. Crédito: CDC / Wikimedia Commons

Fornecemos a primeira evidência molecular da introdução da varíola nas Américas através da colonização.

— Shigeki Nakagome, geneticista do Trinity College Dublin e coautor do estudo

Milhões de mortos sem imunidade

Quando os europeus chegaram em 1492, os povos das Américas nunca tinham estado expostos à varíola e não tinham imunidade natural. O surto documentado mais antigo ocorreu em 1518 na ilha de Hispaniola — hoje dividida entre o Haiti e a República Dominicana — e a doença espalhou-se rapidamente por todo o continente; no Chile, as primeiras epidemias conhecidas datam de 1554-1556, com confirmação em 1561. As estimativas apontam para três a quatro milhões de indígenas mortos pela varíola nas Américas, e o conjunto de doenças introduzidas, violência e escravatura terá eliminado cerca de 90% da população original do continente até 1600.

Paisagem do deserto do Atacama, no norte do Chile, com lagoa salgada e montanhas dos Andes

O deserto do Atacama, no norte do Chile: o cemitério de Camarones 9 fica na costa do Pacífico desta região árida, onde a secura ajudou a preservar os corpos naturalmente. Crédito: Wikimedia Commons / Luca Galuzzi

A descoberta ajuda ainda a reinterpretar o registo arqueológico: várias pessoas enterradas em Camarones 9 tinham lesões de pele que tinham sido atribuídas a exposição crónica a arsénio — uma realidade da região — mas que podem ter sido, afinal, marcas da varíola. E há uma lição evolutiva: o ritmo de mutação do vírus abrandou fortemente durante as grandes epidemias coloniais, quando a doença ardia em populações sem imunidade e não precisava de se adaptar; e acelerou de novo a partir de 1796, quando começou a vacinação em massa. Estudar patogénios antigos como este ajuda a prever o comportamento de vírus atuais do mesmo grupo, como o mpox.

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