Na madrugada de 11 de agosto, às 4h23 (hora local), o foguetão H3 da agência espacial japonesa JAXA descolou do Centro Espacial de Tanegashima com o satélite Michibiki No. 7 a bordo. Vinte e nove minutos depois, a separação foi confirmada e o satélite ficou na órbita prevista. Não foi um lançamento qualquer: é o sétimo e último satélite da constelação QZSS — e com ele, o Japão deixa de ser um país que "pede emprestado" o GPS aos Estados Unidos.
O Quasi-Zenith Satellite System (QZSS), conhecido como Michibiki ("guiar", em japonês), nasceu em 2010 como um sistema de reforço do GPS: satélites japoneses que melhoravam a precisão dos sinais americanos nas cidades densas e nas montanhas do arquipélago. Com sete satélites, o sistema muda de estatuto. Passa a haver sempre pelo menos quatro satélites Michibiki visíveis sobre o território japonês — o mínimo necessário para calcular uma posição tridimensional —, o que torna o Japão o sexto país ou bloco do mundo com capacidade de navegação por satélite verdadeiramente independente, a par dos EUA (GPS), da Rússia (GLONASS), da China (BeiDou), da União Europeia (Galileo) e da Índia (NavIC).
Uma órbita pensada para cidades e montanhas
O segredo está na órbita. Em vez de órbitas circulares como as do GPS, os Michibiki usam uma órbita geossíncrona inclinada em forma de "oito" que os mantém quase a pique sobre o Japão durante muitas horas. Nas zonas urbanas mais densas de Tóquio, o GPS sozinho só consegue fixar posição em 40% a 70% das tentativas; com o QZSS, a taxa sobe para 90% a 100%. O novo satélite, construído pela Mitsubishi Electric com payload de navegação da NEC, pesa cerca de 4.900 kg, tem 15 anos de vida útil e é o primeiro da constelação a ocupar uma órbita quase-geostacionária.
Representação do satélite Michibiki em órbita (imagem CG da JAXA, CC BY 4.0)
A viagem até aqui não foi linear. O programa sofreu um revés em dezembro de 2025, quando o H3 falhou e destruiu o Michibiki 5 — a causa: um problema com a cola usada no motor. O foguetão regressou aos voos em junho de 2026 e completou agora a constelação, no seu nono lançamento.
O foguetão H3 a descolar de Tanegashima (imagem de arquivo, fevereiro de 2025 — o mesmo veículo que lançou o Michibiki 7)
Alertas de catástrofe e proteção contra falsificação
O sistema traz ainda duas capacidades raras. A primeira é de segurança pública: o sinal L1S emite alertas de catástrofe diretamente para smartphones, sem precisar de rede móvel — útil num país com terramotos e tsunamis. A segunda é de defesa: autenticação de sinal contra falsificação de GPS (spoofing), uma ameaça que já afetou dezenas de milhares de voos na Europa. O Michibiki 7 transporta também um instrumento da Força Espacial dos EUA (SACHI, do MIT Lincoln Laboratory), o segundo a voar num satélite japonês.
O posicionamento totalmente independente do GPS só arranca no início de 2027, depois de o satélite subir para a órbita operacional (cerca de 36.000 km) e ser calibrado. Até 2029, a precisão para consumidores deve baixar para cerca de 1,6 metros, e o plano é expandir a constelação para 11 satélites em 2031. Para quem usa o telemóvel na Europa, a história é familiar: o Galileo europeu seguiu o mesmo caminho de independência — e o Japão acaba de fechar o seu.
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