Tubarão-baleia a alimentar-se por filtragem com a boca amplamente aberta em águas claras do Golfo do México
🔬 Ciência

Câmaras nos tubarões-baleia revelam 36 comportamentos: o maior peixe do mundo é um petiscador de fundo

O tubarão-baleia (Rhincodon typus) é o maior peixe do mundo — pode chegar aos 18 metros — e, até agora, quase tudo o que se sabia do seu comportamento vinha de observações à superfície, de mergulhadores ou de barcos. Era como conhecer uma pessoa apenas pelo que faz na rua, de dia. Uma equipa do Australian Institute of Marine Science (AIMS) e da Murdoch University resolveu mudar isso: montou pequenas câmaras nas barbatanas dorsais dos tubarões de Ningaloo Reef, na Austrália Ocidental, e deixou que os próprios peixes filmassem a sua vida subaquática.

A técnica é engenhosa e não invasiva: a câmara-tag é presa à barbatana dorsal com uma pinça, enquanto um mergulhador nada ao lado do animal. Após um período pré-programado de 24 horas, a pinça solta-se sozinha e a câmara flutua à superfície para ser recuperada — sem deixar nada no animal. O resultado foi o primeiro vídeo "na primeira pessoa" de um tubarão-baleia a caçar no seu mundo.

O catálogo mais completo de sempre

Com as gravações e uma revisão de mais de 100 publicações científicas sobre a espécie, a equipa construiu o maior catálogo de comportamentos alguma vez feito para o tubarão-baleia: 36 comportamentos distintos, dos quais 12 são de alimentação e 6 são novos para a ciência. Entre os recém-descobertos estão o "gliding slow feeding" — o tubarão afunda-se praticamente imóvel, de boca aberta, a filtrar o que encontra — e o "dive feeding", em que nada ativamente em direção ao fundo a engolir tudo o que apanha pelo caminho.

Tubarão-baleia a nadar em mar aberto profundo com o padrão característico de manchas brancas

Tubarão-baleia em mar aberto — a espécie passa a maior parte do tempo em modos de alimentação de baixo esforço. Crédito: Wikimedia Commons (Public Domain)

Até 70 metros de profundidade

A descoberta mais importante desafia uma suposição com décadas: os investigadores pensavam que os tubarões-baleia se alimentam predominantemente à superfície. As câmaras mostraram que usam toda a coluna de água até 70 metros de profundidade, misturando estratégias consoante a disponibilidade de presas. Passam a maior parte do tempo em seis modos de alimentação de baixo esforço, a "petiscar" em águas com pouca densidade de presas — e só mudam para caçadas ativas quando encontram um cardume denso de krill, o seu alimento preferido, que perseguem vigorosamente à superfície.

É como petiscar da despensa enquanto se decide o que cozinhar para o jantar. Quando encontram um bom cardume de krill, mudam de comportamento e atacam a sério.

— Christine Barry, investigadora do AIMS e da Murdoch University (autora principal do estudo)

Os dados mostram também que os tubarões-baleia têm uma variedade de estratégias de forrageamento muito maior do que outros filtradores gigantes, como os tubarões-frade e as baleias — o que pode explicar como conseguem prosperar em águas tropicais onde o alimento é escasso e disperso. O estudo foi feito num único ponto de agregação de juvenis em Ningaloo, e foi financiado pela Santos Ltd e pelo AIMS.

Tubarão-baleia subaquático a subir com a boca aberta, rodeado de plâncton e pequenos peixes

A subir de boca aberta entre plâncton e pequenos peixes — um dos comportamentos que as câmaras-tag captaram pela primeira vez. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Porque é que isto importa

Os tubarões-baleia estão classificados como espécie ameaçada e vivem em oceanos tropicais onde o alimento é cada vez mais escasso e disperso à medida que as águas aquecem. Perceber como se alimentam — onde, a que profundidade e com que estratégias — é essencial para proteger os habitats de que dependem e para gerir o turismo de observação, que em Ningaloo movimenta cerca de 20 milhões de dólares por ano na economia local. Com mais câmaras noutros pontos de agregação do mundo, os investigadores esperam continuar a preencher as lacunas: o maior peixe do planeta está, finalmente, a mostrar o que faz quando ninguém está a ver.

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