Durante séculos, textos chineses descreveram a produção de latão, mas faltavam vestígios físicos suficientemente claros para mostrar como a liga era realmente fabricada. Um estudo publicado na revista Antiquity identifica agora, em Guangzhou, os cadinhos e o forno que dão a evidência direta mais antiga conhecida de produção de latão no Leste Asiático.
Os vestígios pertencem a uma oficina metalúrgica associada ao antigo Palácio Real do Reino de Nanyue. No local foram encontrados quase 80 cadinhos completos ou fragmentos, acumulados ao longo de diferentes períodos. Três exemplares dos séculos IX–X conservaram resíduos que não correspondem apenas à fusão de cobre ou bronze: continham gotas microscópicas de latão e restos químicos compatíveis com o processo de fabrico.
A figura reúne o contexto da descoberta: a localização de Guangzhou, os cadinhos encontrados in situ, um brinco de latão e o forno da oficina metalúrgica. Crédito: Xiao et al., Antiquity (2026), CC BY.
Uma liga feita dentro do cadinho
O latão é uma liga de cobre e zinco. Em Guangzhou, os investigadores encontraram sinais de um método conhecido como cementação: o cobre — ou, nalguns casos, o bronze — era aquecido juntamente com um minério rico em zinco. Sob temperaturas elevadas, o zinco formava vapor e reagia com o metal-base, deixando no interior dos cadinhos gotas de latão solidificado.
O modelo dos investigadores: cobre ou bronze era combinado com calamina, um minério de zinco, para produzir latão Cu-Zn ou uma liga Cu-Zn-Sn. A parte inferior mostra a reconstrução do forno e a disposição dos cadinhos. Crédito: Xiao et al., Antiquity (2026), CC BY.
A análise microscópica encontrou óxido de zinco, silicatos de zinco e pequenas gotas da liga. Nos exemplares estudados, essas gotas tinham geralmente entre 11% e 17% de zinco. A combinação entre matéria-prima, resíduos do processo e produto final é o que permite aos autores distinguir uma oficina de produção de latão de uma simples instalação para derreter cobre ou bronze.
O estudo também encontrou sinais de uma cadeia de produção integrada: cadinhos, um forno e objetos de metal no mesmo complexo. Os autores estimam que o forno poderia receber cerca de 19 cadinhos por ciclo, mas esta é uma reconstrução baseada nas dimensões dos vestígios — não uma medição de produção documentada.
As micrografias mostram a assinatura química do processo: cobre, gotas de latão Cu-Zn e resíduos de óxido de zinco e willemite. Não é uma fotografia macroscópica dos cadinhos, mas uma análise microscópica dos materiais retidos no seu interior. Crédito: Xiao et al., Antiquity (2026), CC BY.
A técnica pode ter chegado por mar
A forma dos cadinhos, as temperaturas elevadas e a composição do latão apresentam semelhanças com práticas metalúrgicas conhecidas no mundo islâmico medieval. Guangzhou era um grande porto comercial e mantinha contactos documentados com mercadores árabes.
É aqui que termina o facto demonstrado e começa a interpretação. Os investigadores consideram plausível que rotas marítimas, comerciantes ou artesãos tenham ajudado a transportar o conhecimento para o sul da China, mas não encontraram uma prova direta de que um metalurgista islâmico tenha operado naquela oficina. A descoberta mostra a produção local; não identifica, por si só, quem transmitiu a técnica.
O resultado é importante porque transforma uma referência escrita numa cadeia física de produção: matéria-prima, reação química, cadinho, forno e metal acabado. A história do latão deixa de ser apenas a história de uma liga e passa a ser também a história de como um conhecimento técnico atravessou fronteiras, chegou a uma cidade portuária e foi incorporado numa oficina medieval chinesa.
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