Porta-aviões HMS Queen Elizabeth visto de lado, com o convés e a torre de comando, fundeado junto à costa escocesa sob céu nublado.

O HMS Queen Elizabeth à saída de Rosyth, em 2017, imagem de arquivo. Foto: Royal Navy, Open Government Licence v1.0, via Wikimedia Commons.

🛡️ Defesa

O drone português que aterrou duas vezes num porta-aviões britânico

O AR5, da portuguesa Tekever, descolou do centro de operações da empresa em Atouguia da Baleia, voou cerca de 90 minutos até ao HMS Queen Elizabeth e fez duas aterragens e duas descolagens no convés do porta-aviões britânico. Depois regressou à base, num voo de aproximadamente duas horas. O ensaio aconteceu a 17 de outubro, no exercício Heavy Lift Challenge 3, e os resultados só foram divulgados a 5 de novembro.

É a primeira vez que um AR5 opera a partir de um porta-aviões. Não é a primeira vez que um drone de asa fixa aterra num navio britânico: em 2023, um drone de logística já tinha aterrado no HMS Prince of Wales. A diferença está no tamanho e no papel. O AR5 tem cerca de sete metros de envergadura, transporta até 80 quilos e foi desenhado para missões de vigilância marítima, busca e salvamento e patrulha de fronteiras.

O que o ensaio mostrou

A operação foi feita com a Marinha Real, o Exército Britânico, a Força Aérea e empresas do sector, e serviu para testar a integração do AR5 com os outros sistemas de um grupo de porta-aviões. A Tekever diz que a aeronave descola e aterra de forma autónoma, mesmo em pistas curtas ou não preparadas — a condição para poder usar um convés que se move.

«Um passo importante na integração de capacidades comprovadas nas operações navais», disse Tiago Nunes, director de plataformas da Tekever, citado pela imprensa portuguesa. Do lado da Marinha Real, o capitão-tenente David Burton, responsável pelos ensaios na área de Capacidades Navais, destacou a informação obtida sobre o apoio de sistemas não tripulados à logística e à manutenção no mar.

Porque é que um drone de carga interessa a um porta-aviões

Um grupo de porta-aviões consome material a um ritmo que os navios de reabastecimento nem sempre conseguem acompanhar: peças, medicamentos, correio, sensores. Um drone que aterra e descola do convés pode levar e trazer carga sem gastar horas de helicóptero nem expor tripulações — e, no mesmo voo, fazer vigilância. É essa dupla função, logística e ISTAR (informação, vigilância, detecção de alvos e reconhecimento), que a Tekever está a vender.

No mesmo exercício, a Marinha Real lançou pela primeira vez de um porta-aviões o Nyan, um drone de ataque de um só uso da Callen-Lenz, subsidiária da BAE Systems, com 2,9 metros de envergadura e motor de microturbina. Os Nyan foram lançados por carril e caíram deliberadamente numa zona de alvo no mar. Para o The Aviationist, o AR5 é o desenvolvimento mais interessante dos dois: um drone lançado por carril não precisa de um convés grande, mas um aparelho que aterra e volta a descolar precisa.

A expansão britânica da Tekever

O ensaio acontece num momento de expansão no Reino Unido. A empresa assinou em Setembro um contrato-quadro com o Exército britânico, o CORVUS, de até 400 milhões de libras, para fornecer vigilância de campo de batalha, e a Artilharia Real está a receber os seus AR5. Tem também um contrato com a Força Aérea Portuguesa para o AR5, anunciado em Agosto, captou 580 milhões de dólares numa ronda que avaliou a empresa em 6,4 mil milhões e comprou em Setembro a britânica Flowcopter, que desenvolve drones com propulsão por rotor.

O que ainda não se sabe

O ensaio prova compatibilidade, não uma encomenda. Não foi anunciada qualquer encomenda da Marinha Real nem um programa de drones logísticos de convés; o projecto VANQUISH, que prevê um demonstrador de aeronave de combate colaborativa a descolar de um porta-aviões britânico dentro de um a dois anos, é outra coisa. E o AR5 continua a ser um aparelho de 80 quilos de carga: leva encomendas e sensores, não substitui helicópteros nem aviões tripulados.

Aterrar duas vezes no convés de um porta-aviões é uma capacidade demonstrada; transformá-la numa encomenda da Marinha Real é outra, e essa ainda não foi anunciada.

A Tekever já tinha mostrado, no início de Novembro, o uso do AR5 para detectar alvos submarinos em conjunto com a General Dynamics Mission Systems–Canada, no exercício REPMUS. O passo seguinte — operar a partir de navios em serviço, com pessoal e manutenção embarcados — é o que separa uma demonstração de uma capacidade operacional.

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