Um incêndio na noite de 23 de setembro atingiu a estação terrestre da Starlink em Wola Krobowska, a sudoeste de Varsóvia. A Procuradoria Nacional polaca abriu inquérito e qualificou o caso como sabotagem ao serviço de um serviço secreto estrangeiro, com «suspeitas justificadas» de que os autores agiram por ordem dos serviços russos.
Há quatro detidos na Alemanha. Na Bulgária, um segundo caso — 11 antenas queimadas num sítio perto de Sófia — só veio a público porque um deputado o contou, e o primeiro-ministro confirmou-o esta quarta-feira, sem atribuir responsabilidades.
O que a Polónia documentou
O despacho divulgado a 13 de outubro descreve «um ato de diversão e um crime de natureza terrorista» praticado através de um incêndio na «estação terrestre de comunicações por satélite da Starlink», com «prejuízo patrimonial de grandes dimensões».
O inquérito segue o artigo 130.º §7.º do código penal polaco, sobre atos ao serviço de um serviço estrangeiro, em concurso com o artigo 163.º §1.º ponto 1, relativo a incêndio. Ninguém foi acusado.
Segundo os procuradores, o objetivo era «perturbar o tráfego e as comunicações de internet do sistema Starlink na Polónia e noutros países da Europa Central e Oriental». O local foi inspecionado a 24 de setembro por procuradores, pela Agência de Segurança Interna e pela polícia central. A atribuição à Rússia é a avaliação da Polónia, não uma decisão judicial.
| Fogo na estação | 23 de setembro de 2026, em Wola Krobowska (Mazóvia) |
|---|---|
| Qualificação da procuradoria | sabotagem ao serviço de um serviço estrangeiro em concurso com incêndio (artigos 130.º §7.º e 163.º §1.º ponto 1) |
| Acusações formais | nenhuma até 14 de outubro |
| Detidos | quatro, na Alemanha — dois cidadãos turcos, uma mulher e um homem |
| Bulgária | 11 de 17 antenas queimadas num sítio perto de Sófia, segundo o deputado Ivailo Mirchev |
| Atribuição | governos e procuradores polacos apontam os serviços russos; a Bulgária não atribui |
Os suspeitos estiveram à frente da polícia — e foram libertados
Na manhã de 24 de setembro, moradores alertaram a polícia para dois homens a cerca de dez quilómetros da estação. Um agente verificou-lhes os documentos às 9h37 e um deles terá dado nome e data de nascimento falsos. Os dois seguiram viagem.
«No momento em que as identidades foram verificadas, não havia informação que indicasse que o incidente era criminal, nem fundamentos para deter estas pessoas», respondeu a Polícia Nacional ao jornal Rzeczpospolita, explicando que se pensava então numa avaria elétrica. Quase três semanas depois, os dois homens foram detidos na Alemanha.
Em 12 de outubro, Donald Tusk anunciou que a polícia alemã detivera dois cidadãos turcos a pedido dos serviços polacos. «Não temos dúvidas de que os serviços russos estão por trás deste ato de sabotagem», disse o ministro dos Serviços Especiais, Tomasz Siemoniak. Os dois serão acusados na Polónia de sabotagem por instruções de um serviço secreto estrangeiro.
A 14 de outubro, a rádio RMF FM noticiou mais duas detenções: uma mulher detida em Berlim, que terá conduzido os autores até Wola Krobowska, e um homem cujo papel está por esclarecer. Ambos ficaram em mãos alemãs. Os cidadãos turcos aguardavam, nesse dia, a decisão sobre a extradição.
Na Bulgária, a notícia saiu por um deputado
A 12 de outubro, o deputado Ivailo Mirchev escreveu no Facebook que dois homens mascarados tinham incendiado 11 de 17 antenas da Starlink num sítio secreto perto de Sófia. Nada tinha sido divulgado oficialmente até esse momento. Mirchev e Bozhidar Bozhanov, do mesmo grupo parlamentar, entregaram perguntas ao Ministério do Interior e à Agência Estatal de Segurança Nacional.
Esta quarta-feira, o primeiro-ministro Rumen Radev confirmou o incêndio no parlamento e recusou apontar responsáveis, pedindo ao diretor da Agência Estatal de Segurança Nacional, Plamen Tonchev, que não revelasse o que já se sabe. Tonchev avisou que «atos de sabotagem semelhantes não estão excluídos» e disse que o sítio estava em obras, com parte da vedação retirada.
A sequência conhecida do caso polaco e o momento em que o caso búlgaro se tornou público. A data do ataque na Bulgária é a que o Faktor.bg atribui a fontes do Ministério Público; nenhuma autoridade a confirmou.
Crédito: Infografia do Portugal Binário, com dados da Prokuratura Krajowa, RMF FM, Rzeczpospolita, BNT, Sofia Globe e Faktor.bg (14 out. 2026)
Dois números que não coincidem
O Faktor.bg, citando fontes do Ministério Público búlgaro, noticiou a detenção de dois jovens de 20 e 21 anos com passaportes alemães que entraram no país pela fronteira de Kulata.
A mesma fonte descreve um sítio com 18 antenas, das quais sete ficaram intactas. Nem as detenções nem esse número foram confirmados por qualquer autoridade, e não coincidem com as 17 antenas e as 11 queimadas de que falou Mirchev.
Porque é que se ataca o chão
Um satélite não entrega internet diretamente a um telefone: passa o tráfego para uma antena fixa em terra, a estação terrestre, e é daí que ele entra na rede. Basta existir uma estação ao alcance dos satélites que servem uma região para os terminais dessa região funcionarem.
É por isso que desligar uma afeta muitos. Um ataque destes não precisa de uma falha por explorar nem de código: precisa de lá chegar.
A estação polaca transmitia tráfego «através da Polónia e também para a Ucrânia», nas palavras do vice-primeiro-ministro Krzysztof Gawkowski. A Polónia diz que a estação se manteve operacional e a imprensa polaca falou de danos no sistema elétrico e no gerador de emergência. Repõe-se com dinheiro e tempo — geradores, antenas e vedações —, não com uma atualização de software.
O que continua por provar
A conclusão de Varsóvia é da polícia e dos procuradores, não de um tribunal: ninguém foi acusado e o Kremlin não comentou. A Bulgária confirma o incêndio e não atribui responsabilidade.
Em paralelo, o serviço de informações dinamarquês publicou uma avaliação de ameaça que prevê mais guerra híbrida russa e fala de um risco «baixo e crescente» de ação militar limitada contra países da NATO — sem qualquer ligação ao incêndio.
O que falta está repartido por três países: a extradição dos dois cidadãos turcos, o papel da mulher detida em Berlim e do quarto detido, e o inquérito búlgaro, que continua sem arguidos. Entretanto, a superfície atingida pelos dois ataques é a mesma: antenas, cabos e geradores à espera de quem lá chegue primeiro.
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