Radiografia de dois joelhos com osteoartrose: o espaço entre o fémur e a tíbia está estreitado e há osteófitos nas margens ósseas

NP2025 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Recorte e conversão para escala de cinzentos: Portugal Binário.

🔬 Ciência

Cantanhede: 13 milhões para testar em pessoas uma terapia da artrose

Treze milhões de euros do programa europeu Horizonte Europa vão pagar cinco anos de trabalho para levar aos primeiros ensaios em pessoas uma terapia contra a osteoartrose, a doença que desgasta as articulações. O consórcio ExoCordOA, coordenado pela empresa Exogenus Therapeutics, começou a 1 de setembro e tem até 31 de agosto de 2031. O primeiro doente deverá ser tratado no início de 2028, segundo a empresa.

Os números estão no registo oficial de projetos de investigação da Comissão Europeia: o custo total e a contribuição europeia coincidem em 13 milhões de euros, repartidos por dez organizações de Portugal, Países Baixos e Reino Unido. O contrato foi assinado a 30 de setembro. O anúncio do consórcio é de 29 de outubro; a história chegou esta sexta-feira às notícias nacionais pela agência Lusa. A Exogenus, nascida em 2015 de investigação da Universidade de Coimbra, está instalada no Biocant Park, em Cantanhede, e coordena o consórcio.

O que é o EXO-101

O candidato a medicamento chama-se EXO-101 e não é feito de células vivas. É um secretoma: o conjunto de moléculas que as células libertam para comunicar entre si, neste caso células do sangue do cordão umbilical. Desse material, a empresa isola vesículas extracelulares — pequenas bolsas rodeadas por uma membrana, com proteínas, microRNAs e lípidos no interior. A ideia é usar as bolsas como mensageiros, sem transplantar células.

A administração prevista é uma injeção intra-articular, ou seja, diretamente no joelho, disse à agência Lusa a diretora executiva e cofundadora Joana Correia. O alvo são doentes já diagnosticados, numa fase média da doença, antes de a cartilagem estar destruída.

Aqui é preciso travar a expectativa. O que existe são resultados em modelos animais: o consórcio descreve efeitos anti-inflamatórios, imunomoduladores e regenerativos em modelos pré-clínicos de osteoartrose. Não há doentes tratados com o EXO-101 nem dados de segurança em pessoas. O projeto financia exatamente o que falta: a produção segundo as boas práticas de fabrico (GMP, na sigla inglesa), os estudos de segurança exigidos antes de qualquer ensaio e as fases 1 e 2 dos ensaios clínicos. A fase 1 testa a segurança em poucas pessoas; a fase 2 procura a dose certa e os primeiros sinais de eficácia num grupo maior.

Financiamento13 M€ do Horizonte Europa
Contrato assinado30 de setembro de 2026
Duraçãosetembro de 2026 a agosto de 2031
CoordenaçãoExogenus Therapeutics, Cantanhede
Consórcio10 organizações em 3 países
Ensaios previstosfase 1 e fase 2
Primeiro doenteinício de 2028 (previsão)

Porque é que a doença resiste

A osteoartrose é a doença articular mais comum. A Organização Mundial da Saúde contava 528 milhões de pessoas com o diagnóstico em 2019, mais 113% do que em 1990; cerca de 60% são mulheres e o joelho é a articulação mais afetada. A cartilagem que protege as extremidades dos ossos desgasta-se, o osso fica exposto e o resultado é dor, inflamação e perda de mobilidade.

O tratamento disponível alivia sintomas — analgésicos, anti-inflamatórios, fisioterapia, injeções de corticoides — e, nos casos graves, acaba numa prótese. Não há nenhum medicamento aprovado que trave a evolução da doença, como recorda uma revisão publicada em 2025 na Archives of Pharmacal Research. Tem havido tentativas: a mesma revisão explica porque é que fármacos promissores falharam em ensaios, apontando modelos animais pouco representativos, doentes com doenças diferentes entre si e falta de medidas fiáveis de resultado.

É por isso que «modificador da doença» é a expressão mais ambiciosa desta área: significa travar a degradação, e não apenas anestesiar a dor. É a promessa que a Exogenus faz para o EXO-101. O projeto não se limita ao medicamento: financia também a normalização do fabrico e formas de medir a potência biológica de cada lote, dois problemas que atrasam toda a classe das terapias de secretoma.

Diagrama com três caixas — sangue do cordão umbilical, secretoma com vesículas, injeção intra-articular — e uma linha do tempo de 2026 a 2031 com cinco marcos do projeto

O percurso previsto do EXO-101 e os marcos que o concurso europeu impõe ao consórcio. As datas de 2027 e 2028 para fabrico e dossier vêm do programa de trabalho da Comissão Europeia; o primeiro doente é a previsão da empresa.

Crédito: Desenho: Portugal Binário. Fontes: CORDIS 101288259; programa de trabalho HORIZON-HLTH-2025-01-TOOL-02; Exogenus Therapeutics.

Quem faz o quê

O dinheiro está repartido por tarefas. O maior orçamento é o da Lonza Netherlands, empresa de fabrico por contrato, com 3,89 milhões de euros. Os centros neerlandeses entram no desenho e na execução dos ensaios: UMC Utrecht (2,42 milhões), Maastricht UMC+ (1,91 milhões) e Universidade de Utrecht (639 mil). A Image Analysis Limited, em Londres, trata da imagiologia, porque medir a cartilagem com precisão faz parte do problema. O consórcio inclui ainda a Anthony Nolan, banco de sangue do cordão umbilical, e a ReumaNederland, associação de doentes reumáticos.

Portugal recebe cerca de 2,8 milhões de euros, 22% do total: 2,53 milhões para a Exogenus e 285 mil para a iLoF, empresa de Matosinhos que contribui com impressão digital óptica e aprendizagem automática para o controlo de qualidade.

Porque é que Bruxelas paga

O concurso chama-se «Advancing cell secretome-based therapies» e tinha 40 milhões de euros para financiar projetos entre 9 e 13 milhões, segundo o programa de trabalho do Horizonte Europa. O objetivo declarado é tratar os secretomas como produtos prontos a usar, com menos riscos do que as terapias com células vivas — e a Europa quer ficar com a norma. O mesmo documento reconhece que não existe nenhuma terapia de secretoma aprovada por um regulador.

As condições são exigentes: o consórcio tinha de entregar a documentação de fabrico até ao mês 12 e o dossier necessário para autorizar o ensaio até ao mês 24, e realizar um ensaio aleatorizado — com os participantes distribuídos ao acaso pelos grupos — de fase 1 e 2 dentro do período do projeto. Ou seja, os 13 milhões pagam ensaios, não um anúncio.

O calendário e o que ainda não se sabe

Se o plano correr, o primeiro doente é tratado no início de 2028 e as fases 1 e 2 ficam concluídas até agosto de 2031. O registo europeu descreve a fase 3 como trabalho posterior ao projeto — e nenhuma aprovação regulamentar está garantida ou calendarizada. Entre hoje e esse ponto há três riscos conhecidos: a segurança em pessoas, que é o objetivo da fase 1; a eficácia, onde muitos candidatos falham; e a consistência do fabrico de um produto biológico complexo.

O EXO-101 está a ser explorado para outros alvos. Um segundo projeto europeu, o EXO-OTOProtect, visa a perda de audição provocada por quimioterapia com platina e continua em prova de conceito pré-clínica; a empresa refere também estudos iniciais em fibrose pulmonar. Nada disto é uma garantia para a artrose — são pistas diferentes do mesmo produto.

Treze milhões de euros compram cinco anos de fabrico, segurança e dois ensaios clínicos. Não compram um medicamento — e muito menos uma cura.

Vale a pena ler com atenção o título que a Lusa divulgou hoje, «cria primeiro medicamento para impedir progressão da osteoartrose». Descreve a ambição do projeto, não um resultado: em novembro de 2026 não há medicamento, não há doentes tratados e não há prova de que o EXO-101 trave a doença em pessoas. O que há é um consórcio financiado, um calendário de cinco anos e um problema clínico que resiste há décadas.

💬 Comentários

Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!