Treze milhões de euros do programa europeu Horizonte Europa vão pagar cinco anos de trabalho para levar aos primeiros ensaios em pessoas uma terapia contra a osteoartrose, a doença que desgasta as articulações. O consórcio ExoCordOA, coordenado pela empresa Exogenus Therapeutics, começou a 1 de setembro e tem até 31 de agosto de 2031. O primeiro doente deverá ser tratado no início de 2028, segundo a empresa.
Os números estão no registo oficial de projetos de investigação da Comissão Europeia: o custo total e a contribuição europeia coincidem em 13 milhões de euros, repartidos por dez organizações de Portugal, Países Baixos e Reino Unido. O contrato foi assinado a 30 de setembro. O anúncio do consórcio é de 29 de outubro; a história chegou esta sexta-feira às notícias nacionais pela agência Lusa. A Exogenus, nascida em 2015 de investigação da Universidade de Coimbra, está instalada no Biocant Park, em Cantanhede, e coordena o consórcio.
O que é o EXO-101
O candidato a medicamento chama-se EXO-101 e não é feito de células vivas. É um secretoma: o conjunto de moléculas que as células libertam para comunicar entre si, neste caso células do sangue do cordão umbilical. Desse material, a empresa isola vesículas extracelulares — pequenas bolsas rodeadas por uma membrana, com proteínas, microRNAs e lípidos no interior. A ideia é usar as bolsas como mensageiros, sem transplantar células.
A administração prevista é uma injeção intra-articular, ou seja, diretamente no joelho, disse à agência Lusa a diretora executiva e cofundadora Joana Correia. O alvo são doentes já diagnosticados, numa fase média da doença, antes de a cartilagem estar destruída.
Aqui é preciso travar a expectativa. O que existe são resultados em modelos animais: o consórcio descreve efeitos anti-inflamatórios, imunomoduladores e regenerativos em modelos pré-clínicos de osteoartrose. Não há doentes tratados com o EXO-101 nem dados de segurança em pessoas. O projeto financia exatamente o que falta: a produção segundo as boas práticas de fabrico (GMP, na sigla inglesa), os estudos de segurança exigidos antes de qualquer ensaio e as fases 1 e 2 dos ensaios clínicos. A fase 1 testa a segurança em poucas pessoas; a fase 2 procura a dose certa e os primeiros sinais de eficácia num grupo maior.
| Financiamento | 13 M€ do Horizonte Europa |
|---|---|
| Contrato assinado | 30 de setembro de 2026 |
| Duração | setembro de 2026 a agosto de 2031 |
| Coordenação | Exogenus Therapeutics, Cantanhede |
| Consórcio | 10 organizações em 3 países |
| Ensaios previstos | fase 1 e fase 2 |
| Primeiro doente | início de 2028 (previsão) |
Porque é que a doença resiste
A osteoartrose é a doença articular mais comum. A Organização Mundial da Saúde contava 528 milhões de pessoas com o diagnóstico em 2019, mais 113% do que em 1990; cerca de 60% são mulheres e o joelho é a articulação mais afetada. A cartilagem que protege as extremidades dos ossos desgasta-se, o osso fica exposto e o resultado é dor, inflamação e perda de mobilidade.
O tratamento disponível alivia sintomas — analgésicos, anti-inflamatórios, fisioterapia, injeções de corticoides — e, nos casos graves, acaba numa prótese. Não há nenhum medicamento aprovado que trave a evolução da doença, como recorda uma revisão publicada em 2025 na Archives of Pharmacal Research. Tem havido tentativas: a mesma revisão explica porque é que fármacos promissores falharam em ensaios, apontando modelos animais pouco representativos, doentes com doenças diferentes entre si e falta de medidas fiáveis de resultado.
É por isso que «modificador da doença» é a expressão mais ambiciosa desta área: significa travar a degradação, e não apenas anestesiar a dor. É a promessa que a Exogenus faz para o EXO-101. O projeto não se limita ao medicamento: financia também a normalização do fabrico e formas de medir a potência biológica de cada lote, dois problemas que atrasam toda a classe das terapias de secretoma.
O percurso previsto do EXO-101 e os marcos que o concurso europeu impõe ao consórcio. As datas de 2027 e 2028 para fabrico e dossier vêm do programa de trabalho da Comissão Europeia; o primeiro doente é a previsão da empresa.
Crédito: Desenho: Portugal Binário. Fontes: CORDIS 101288259; programa de trabalho HORIZON-HLTH-2025-01-TOOL-02; Exogenus Therapeutics.
Quem faz o quê
O dinheiro está repartido por tarefas. O maior orçamento é o da Lonza Netherlands, empresa de fabrico por contrato, com 3,89 milhões de euros. Os centros neerlandeses entram no desenho e na execução dos ensaios: UMC Utrecht (2,42 milhões), Maastricht UMC+ (1,91 milhões) e Universidade de Utrecht (639 mil). A Image Analysis Limited, em Londres, trata da imagiologia, porque medir a cartilagem com precisão faz parte do problema. O consórcio inclui ainda a Anthony Nolan, banco de sangue do cordão umbilical, e a ReumaNederland, associação de doentes reumáticos.
Portugal recebe cerca de 2,8 milhões de euros, 22% do total: 2,53 milhões para a Exogenus e 285 mil para a iLoF, empresa de Matosinhos que contribui com impressão digital óptica e aprendizagem automática para o controlo de qualidade.
Porque é que Bruxelas paga
O concurso chama-se «Advancing cell secretome-based therapies» e tinha 40 milhões de euros para financiar projetos entre 9 e 13 milhões, segundo o programa de trabalho do Horizonte Europa. O objetivo declarado é tratar os secretomas como produtos prontos a usar, com menos riscos do que as terapias com células vivas — e a Europa quer ficar com a norma. O mesmo documento reconhece que não existe nenhuma terapia de secretoma aprovada por um regulador.
As condições são exigentes: o consórcio tinha de entregar a documentação de fabrico até ao mês 12 e o dossier necessário para autorizar o ensaio até ao mês 24, e realizar um ensaio aleatorizado — com os participantes distribuídos ao acaso pelos grupos — de fase 1 e 2 dentro do período do projeto. Ou seja, os 13 milhões pagam ensaios, não um anúncio.
O calendário e o que ainda não se sabe
Se o plano correr, o primeiro doente é tratado no início de 2028 e as fases 1 e 2 ficam concluídas até agosto de 2031. O registo europeu descreve a fase 3 como trabalho posterior ao projeto — e nenhuma aprovação regulamentar está garantida ou calendarizada. Entre hoje e esse ponto há três riscos conhecidos: a segurança em pessoas, que é o objetivo da fase 1; a eficácia, onde muitos candidatos falham; e a consistência do fabrico de um produto biológico complexo.
O EXO-101 está a ser explorado para outros alvos. Um segundo projeto europeu, o EXO-OTOProtect, visa a perda de audição provocada por quimioterapia com platina e continua em prova de conceito pré-clínica; a empresa refere também estudos iniciais em fibrose pulmonar. Nada disto é uma garantia para a artrose — são pistas diferentes do mesmo produto.
Vale a pena ler com atenção o título que a Lusa divulgou hoje, «cria primeiro medicamento para impedir progressão da osteoartrose». Descreve a ambição do projeto, não um resultado: em novembro de 2026 não há medicamento, não há doentes tratados e não há prova de que o EXO-101 trave a doença em pessoas. O que há é um consórcio financiado, um calendário de cinco anos e um problema clínico que resiste há décadas.
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