Há décadas que a vigilância de alvos aéreos em movimento se faz a partir de aviões como o AWACS ou de radares terrestres — plataformas caras, visíveis e limitadas a onde podem voar. A 4 de agosto, a U.S. Space Force deu um passo decidido para mudar essa realidade: atribuiu contratos no valor total de 615 milhões de dólares para satélites capazes de detetar e seguir aviões e mísseis diretamente a partir do espaço, em tempo real, sem depender de aviões de vigilância tripulados.
O programa chama-se SB-AMTI — Space-Based Airborne Moving Target Indicator — e é liderado pelo gabinete de aquisições para deteção e apontamento espaciais (SBST) da Força Espacial. O objetivo é dar às forças armadas consciência persistente do campo de batalha: saber, a cada momento, onde estão os aviões e os mísseis inimigos, mesmo em zonas onde os aviões de vigilância não podem operar com segurança.
Rocket Lab fica com 397 milhões e os 'Flatellites'
A fatia maior do bolo — 397 milhões de dólares — foi para a Rocket Lab, que vai desenvolver, lançar e operar vários satélites de um novo desenho a que chama Flatellites: satélites planos, otimizados para grandes constelações, com sensores espaciais e ligações de comunicação de baixa latência e alta largura de banda. Os satélites serão colocados em órbita pelo Neutron, o foguetão de nova geração da própria empresa, e operados a partir de instalações seguras, fornecendo dados e informações de seguimento diretamente à Força Espacial.
A Rocket Lab está honrada por desempenhar um papel-chave no programa SB-AMTI, que é crítico para expandir a arquitetura de seguimento em camadas e resiliente da Força Espacial. As nossas capacidades integradas de satélites de classe constelação, operações de missão e serviços de lançamento posicionam-nos de forma única para entregar soluções inovadoras que respondem às necessidades urgentes da Força Espacial.
— Sir Peter Beck, fundador e CEO da Rocket Lab
O valor de 615 milhões não foi todo para a Rocket Lab: o pacote foi dividido por três contratantes. Além da Rocket Lab, há a STR (Systems Technology Research) e um terceiro fornecedor cuja identidade não foi revelada por razões de segurança operacional — um sinal claro de que este é um programa militar sensível. O contrato da Rocket Lab inclui ainda uma opção para satélites Flatellite adicionais dentro do valor total.
Porque é que isto importa
Hoje, seguir um avião ou um míssil em movimento exige plataformas caras e vulneráveis. Um AWACS voa a cerca de 9.000 metros e é um alvo óbvio; os radares terrestres têm um horizonte limitado pela curvatura da Terra. Uma constelação de satélites com sensores dedicados resolve os dois problemas: cobre o planeta inteiro, incluindo o oceano e território inimigo, e não está em risco de ser abatida. O custo de um sistema destes, espalhado por centenas de satélites, é uma fração do de uma frota de aviões de vigilância.
Os Flatellites são satélites planos otimizados para grandes constelações, com sensores e comunicações de alta largura de banda. Crédito: Rocket Lab (imagem de divulgação)
O programa nasce num contexto de pressão crescente: os EUA querem diversificar a sua base de fornecedores e testar abordagens técnicas diferentes para a mesma missão — daí os três contratantes com desenhos distintos. Para a Rocket Lab, que nasceu em 2006 na Nova Zelândia e hoje é uma das maiores empresas espaciais privadas do mundo, é mais um passo na sua estratégia de integração vertical: constrói os satélites, lança-os com os seus próprios foguetões e opera-os a partir do solo.
Uma constelação de satélites em órbita baixa pode cobrir o planeta inteiro — é isso que o programa SB-AMTI procura para a vigilância de alvos aéreos. Crédito: NOIRLab/NSF/AURA (CC BY 4.0)
O que falta acontecer
Os contratos estão assinados e o financiamento garantido, mas nenhum Flatellite voou ainda. O foguetão Neutron — o veículo que os vai lançar — também ainda não fez o voo de estreia, previsto para o final de 2026. O número exato de satélites do contrato não foi divulgado. Estamos perante um programa em construção: o dinheiro está em cima da mesa, as equipas a trabalhar, mas a constelação só deverá começar a dar dados reais dentro de um ou dois anos.
Para a Europa, o sinal é claro: a defesa orbital está a tornar-se uma peça central da estratégia militar ocidental, e a NATO observa este caminho de perto enquanto desenvolve os seus próprios programas de consciência situacional espacial. O SB-AMTI é o primeiro grande contrato deste tipo a vir a público — e dificilmente será o último.
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