Fotografia de longa exposição: o rasto luminoso do lançamento do foguetão Vega-C desenha um arco no céu nocturno sobre as instalações do porto espacial de Kourou.

ESA–S. Corvaja (ESA Standard Licence)

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Dois satélites europeus vão voar em par para medir a fotossíntese

O voo VV30 do foguetão Vega-C descolou do porto espacial europeu de Kourou, na Guiana Francesa, a 15 de setembro às 03:21 na hora da Europa central — 02:21 em Portugal continental e 22:21 do dia 14 na hora local. Levava dois satélites europeus que vão trabalhar em conjunto: o FLEX, da ESA, e o Copernicus Sentinel-3C.

Os dois separaram-se do foguetão com cerca de uma hora de diferença — o Sentinel-3C primeiro, o FLEX depois — e ambos deram sinal às equipas do centro de operações da ESA em Darmstadt, na Alemanha. Segue-se a fase de lançamento e órbita inicial e, depois, um comissionamento de três meses.

A boleia partilhada explica-se pelo desenho da missão. O FLEX tem de voar em tandem, entre 40 e 100 quilómetros à frente de um satélite Sentinel-3 e seis a quinze segundos mais cedo, para que o brilho das plantas seja comparado com observações quase simultâneas da atmosfera e da superfície.

O que o FLEX vai medir

O único instrumento a bordo chama-se FLORIS e foi construído pela italiana Leonardo. Observa entre 500 e 780 nanómetros, com dois canais de alta resolução centrados nas bandas de absorção do oxigénio e um canal de menor resolução.

Cobre uma faixa de 150 quilómetros com células de cerca de 300 por 300 metros, e o objetivo são mapas globais mensais. A ESA descreve o FLEX como o primeiro satélite desenhado de raiz para medir a atividade fotossintética do espaço, selecionado como oitavo Earth Explorer em novembro de 2015.

As medições servem para avaliar a saúde das plantas, a produtividade dos ecossistemas e o efeito do stress ambiental — seca, calor e outras pressões — nos ciclos do carbono e da água.

Ilustração do satélite FLEX em órbita da Terra, com painéis solares abertos e um feixe cor-de-rosa que desce até à vegetação.

Ilustração da ESA: o FLEX mede a fluorescência que a vegetação emite quando capta luz durante a fotossíntese. É um desenho do satélite, não uma fotografia em órbita. Crédito: ESA (CC BY-SA 3.0 IGO).

Pesa 400 quilos e tem órbita sincronizada com o Sol a cerca de 814 quilómetros, com repetição de 27 dias e cobertura entre os 56 graus sul e os 75 graus norte. A ESA prevê 3,5 anos de operação além do comissionamento e mantém a responsabilidade pelos produtos até ao nível 2.

O sinal que o FLEX procura é ténue: a fluorescência que a planta emite ao captar luz é invisível ao olho humano, e é por isso que o satélite precisa de voar colado a um Sentinel-3 para separar o sinal da planta do ruído da atmosfera.

O terceiro Sentinel-3

O Sentinel-3C é o terceiro da série: o 3A partiu de Plesetsk a 16 de fevereiro de 2016 e o 3B seguiu-se a 25 de abril de 2018. Leva quatro instrumentos e tem sete anos de vida prevista.

Mede temperatura da superfície do mar e da terra, cor do oceano, vegetação, gelo e nível das águas interiores, e fornece dados em tempo quase real para a previsão do tempo e do oceano.

Faz parte do Copernicus, a componente de observação da Terra do programa espacial da União Europeia, com o desenvolvimento a cargo da ESA. Depois do comissionamento, a Eumetsat passa a operar o satélite e a ESA mantém os produtos de terra, criosfera e águas interiores.

A ligação portuguesa

Nas fontes públicas consultadas, o FLEX não tem fornecedores portugueses identificados; a ligação ibérica mais visível é científica, com o espanhol José Moreno, da Universidade de Valência, no grupo consultivo da missão. No programa Sentinel-3, a equipa industrial descrita pela ESA em 2012 incluía a Deimos, a Skysoft, a Critical Software, a LusoSpace e a Altior.

O que muda em Portugal é sobretudo o acesso: a generalidade dos dados do Copernicus é disponibilizada de forma «livre, completa e aberta» a qualquer cidadão ou organização. A Agência Espacial Portuguesa tem dinamizado o seu uso — em 2022, por exemplo, num seminário para o sector da energia organizado com o Laboratório Nacional de Energia e Geologia.

A ESA espera que as medições de fluorescência sirvam para avaliar o stress provocado pela seca e pelo calor nas plantas, com aplicações apontadas à agricultura e ao acompanhamento do ciclo do carbono.

O que falta

Falta o essencial: os dois satélites estão em comissionamento e não há ainda produtos científicos. Depois de os instrumentos serem verificados, o FLEX começa o tandem com o Sentinel-3A e só mais tarde a ESA desloca o Sentinel-3C para essa formação. A validação depende da campanha de calibração, que compara o sinal do satélite com medições no solo.

Por agora há um lançamento concluído, dois satélites a serem verificados e uma medição inédita à espera de prova.

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