Reconstrução digital moderna do cerco de Stirling Castle em 1304, com um grande trebuchet diante das muralhas e soldados no acampamento
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Esqueleto com 167 fraturas pode ser o primeiro caso arqueológico de trauma causado por um trebuchet

Há mais de 700 anos, um homem na casa dos 20 anos morreu no Castelo de Stirling, na Escócia, com o corpo destruído por um impacto de força extraordinária. O esqueleto, conhecido pelos arqueólogos como Skeleton 150, apresenta 167 fraturas. Uma nova análise considera que o padrão das lesões é compatível com trauma provocado por um trebuchet — uma máquina de cerco concebida para lançar projéteis contra fortificações.

Os restos foram descobertos em 1997, durante escavações sob a capela medieval do castelo. O crânio tinha 61 fraturas separadas e as costelas apresentavam dezenas de quebras irregulares, além de lesões na coluna, no ombro e numa perna. As fraturas ocorreram quando os ossos ainda estavam frescos, perto do momento da morte, e concentram-se sobretudo na parte superior do corpo.

O que é que o trebuchet fazia?

Um trebuchet não era uma catapulta pequena disparada por uma pessoa. Era uma máquina de cerco de grandes dimensões. Num modelo de contrapeso, um braço comprido girava num eixo; num extremo ficava um peso pesado e no outro uma funda com a carga. Quando o braço era libertado, a queda do contrapeso transferia energia para a rotação. No fim do movimento, a funda soltava o projétil e lançava-o numa trajetória alta, por cima ou contra as muralhas.

Esquema histórico do movimento de um trebuchet, com o braço a rodar e a carga a seguir uma trajetória curva

Esquema histórico do movimento de um trebuchet: a rotação do braço acelera a funda e liberta a carga numa trajetória curva. A imagem é uma explicação técnica posterior, não um desenho feito durante o cerco de Stirling. Crédito: Wikimedia Commons, domínio público.

A função principal era atacar estruturas: partir muralhas, atingir torres, lançar projéteis incendiários e obrigar a guarnição a render-se. Não era, em regra, uma arma de precisão para escolher um soldado individual. Se a interpretação estiver correta, o Skeleton 150 foi atingido por uma consequência brutal do bombardeamento de uma fortaleza — não por um operador que tivesse apontado deliberadamente para ele.

Miniatura bizantina medieval que representa uma máquina de cerco junto de uma cidadela, com homens a operar o mecanismo

Uma miniatura do Chronicle of John Skylitzes representa uma máquina de cerco junto de uma cidadela. Não retrata Stirling: mostra como a guerra de cerco era figurada num manuscrito bizantino, com homens a operar uma máquina de tração. Crédito: Wikimedia Commons, domínio público.

Também não é possível saber se a carga era uma única pedra. Uma descrição antiga de uma máquina de arremesso fala em “a pedra ou pedras”, com o número e o peso dependentes da robustez do braço. Se, naquele momento, não estivesse disponível um projétil grande, uma carga improvisada de muitas dezenas de pedras menores não pode ser excluída à partida. Mas esta é uma possibilidade, não uma conclusão sobre o cerco de Stirling: as fraturas não permitem contar os projéteis nem distinguir uma pedra grande de um conjunto de pedras menores.

Grande bola de pedra junto às ruínas de Tannenberg, apresentada como projétil associado a um cerco medieval

Uma bola de pedra com cerca de 60 centímetros de diâmetro e aproximadamente 280 quilogramas, associada ao cerco de Tannenberg de 1399. Não é a pedra que atingiu o Skeleton 150; serve para dar escala ao tipo de projétil usado contra fortificações. Crédito: Anaconda74 / Wikimedia Commons, CC0.

A pista está no formato das fraturas

A equipa comparou o esqueleto com casos forenses de impactos de alta velocidade. O padrão em ziguezague das costelas e a destruição concentrada no tronco não encaixavam bem numa queda das muralhas, num atropelamento por cavalos ou em danos produzidos depois do enterramento. A leitura mais provável é a de um impacto vindo de trás, que derrubou o homem e o prensou contra o chão quase no mesmo instante.

O contexto militar encaixa na hipótese. Em 1304, Eduardo I de Inglaterra cercou Stirling Castle durante cerca de três meses. Segundo a Historic Environment Scotland, as forças inglesas reuniram 13 catapultas e trebuchets, que lançaram projéteis contra o castelo dia e noite. A máquina mais famosa era o War Wolf, um trebuchet gigantesco montado durante o cerco.

Miniatura persa do Jami al-Tawarikh mostrando um exército a atacar uma fortaleza com uma máquina de cerco

Uma miniatura persa do Jami al-Tawarikh, produzido cerca de 1307, mostra Mahmud ibn Sebuktegin a atacar a fortaleza de Zarang com uma máquina de cerco. Não é uma imagem de Stirling: evidencia a presença destas máquinas no imaginário militar do mundo islâmico medieval. Crédito: Wikimedia Commons, domínio público.

O War Wolf não está identificado como a arma do impacto

O nome tornou a história irresistível, mas a identificação não está provada. A análise apresentada por Jo Buckberry, da Universidade de Bradford, permite dizer que um impacto de máquina de cerco é a explicação mais provável; não permite saber qual dos engenhos disparou a carga.

Há até uma razão para desconfiar de uma atribuição direta ao War Wolf: a reconstrução histórica citada pela Ars Technica indica que o enorme engenho só ficou pronto no final do cerco e terá lançado um disparo no último dia. Um defensor morto semanas antes poderia ter sido atingido por qualquer um dos outros engenhos que bombardearam a fortaleza.

O Skeleton 150 não revela o nome do homem nem conserva a pedra que o matou. Revela outra coisa: a assinatura física de uma arma criada para destruir paredes pode sobreviver no corpo de uma pessoa, mesmo quando os relatos do cerco não registaram a vítima.

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