A Indra — o grupo espanhol de defesa com quase 30 anos de presença em Portugal — comprou mais de 50.000 metros quadrados em As Pontes, na Corunha, para erguer a segunda fábrica de veículos militares do seu "corredor norte". O investimento é de cerca de 18 milhões de euros e a unidade vai integrar veículos anfíbios de combate, lançadores de pontes e sistemas de artilharia sobre rodas destinados às Forças Armadas espanholas.
O anúncio foi feito pela própria empresa a 30 de julho. O terreno fica no polígono de Penapurreira, tem uma superfície construída de quase 15.000 metros quadrados e vai criar entre 70 e 120 postos de trabalho diretos de alta qualificação, além dos indiretos na cadeia de fornecimento. A fábrica terá capacidade para integrar, testar, validar e colocar em serviço os sistemas, e contará com uma pista de ensaios própria.
A central térmica de carvão de As Pontes está em desmantelamento: as quatro torres de refrigeração foram derrubadas a 30 de julho, no próprio dia do anúncio da Indra. Crédito: Wikimedia Commons
O "corredor norte" da Indra
A nova unidade junta-se à planta de Gijón — o "El Tallerón", adquirido à Duro Felguera no ano passado por 3,6 milhões de euros — e eleva para 40.000 metros quadrados a superfície industrial da divisão Indra Land Vehicles. A empresa admite chegar aos 55.000 metros quadrados com uma terceira fábrica, ainda em negociação com a Duro Felguera em Barros (Langreo).
Só no corredor norte, a Indra estima uma capacidade de integração e produção de cerca de 500 veículos por ano, o que, segundo a empresa, transforma a região num dos maiores polos industriais especializados em plataformas terrestres da Europa. No conjunto dos projetos em desenvolvimento, a superfície produtiva salta de 36.000 para mais de 154.000 metros quadrados, com um investimento superior a 200 milhões de euros, mais de mil empregos industriais diretos e cerca de 1.400 postos em engenharia e funções altamente qualificadas.
Porque é que a Indra precisa de fábricas novas
O movimento enquadra-se na Estratégia Industrial de Defesa espanhola, que definiu três corredores industriais no país, e responde a uma lição aprendida com o programa dos blindados 8x8 Dragón: depois das demoras na entrega, a empresa quer uma base industrial própria capaz de garantir prazos. Os programas que vão alimentar as novas linhas já existem — a artilharia sobre rodas foi adjudicada a uma união temporária da Indra com a Escribano, os blindados anfíbios para a Armada contam com um acordo com a Iveco Defence Vehicles (do grupo Leonardo) avaliado em 374 milhões de euros, e a Indra negocia com a Rheinmetall e a MAN uma aliança para plataformas de camiões em programas avaliados, no total, em cerca de 3.000 milhões.
O que estamos a construir no corredor norte é muito mais do que uma expansão da nossa capacidade produtiva. Estamos a desenvolver uma nova geração de fábricas concebidas de raiz para integrar digitalização avançada, automação e inteligência artificial, com o objetivo de as posicionar entre as mais eficientes e competitivas da Europa.
— Josep María Recasens, CEO da Indra Group
O que isto interessa a Portugal
A Indra não é uma desconhecida em Portugal: além de quase 30 anos de operação no país, lidera o consórcio IberianQCI, a infraestrutura de comunicações quânticas que vai ligar Vigo a Valença com a Infraestruturas de Portugal e a IP Telecom na componente terrestre. A fábrica de As Pontes fica a pouco mais de duas horas do Minho, na mesma comarca de Ferrolterra onde opera a Navantia — e o presidente da Câmara de As Pontes classificou o anúncio como "uma autêntica revolução" para o município.
O estaleiro da Navantia em Ferrol, na comarca de Ferrolterra onde a Indra quer construir o polo de plataformas terrestres. Crédito: Wikimedia Commons
A notícia, em suma, é um retrato do rearmamento europeu a ser construído ao lado de Portugal: terreno comprado, investimento decidido e fábrica por erguer. Quando a unidade estiver de pé, o noroeste ibérico passa a integrar alguns dos veículos mais complexos do continente — e a Indra garante que o corredor norte é só o começo.
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