Primeira página do aviso oficial COMPETE2030-2026-3, com a indicação de que é um convite ao IAPMEI e a designação «Ações Coletivas — Digitalização — Transformação Digital da Empresas».

COMPETE 2030 — aviso-convite COMPETE2030-2026-3 (documento oficial, render próprio)

🧠 Inteligência Artificial

Governo promete IA a 100 mil trabalhadores — o aviso vale 2 M€

O Governo vai arrancar em outubro, na região de Leiria, com um projeto-piloto de formação em inteligência artificial para empresas, e quer chegar a 100 mil trabalhadores em todo o país. O anúncio foi feito no Parlamento, a 16 de setembro, pelo ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida.

Primeira página do aviso oficial COMPETE2030-2026-3, com a indicação de que é um convite ao IAPMEI e a designação «Ações Coletivas — Digitalização — Transformação Digital da Empresas».

O instrumento que existe: aviso-convite COMPETE2030-2026-3, com 2 milhões de euros de dotação FEDER e o IAPMEI como entidade convidada. (COMPETE 2030, documento oficial)

Segundo o ministro, a sessão-piloto de outubro junta cerca de 100 trabalhadores de várias empresas da região. Na Marinha Grande haverá uma ação separada para o setor dos moldes, com «cinco ou seis empresas». A ideia, disse, é ir «do Minho ao Algarve» repetindo o formato.

A meta dos 100 mil trabalhadores existe; o instrumento que a financia não. O que está em vigor é o PME Digital+, programa que o IAPMEI apresenta a 22 de setembro em Leiria, enquadrado num aviso-convite de 2 milhões de euros do COMPETE 2030. É esse o dinheiro afecto, e não uma verba para formar 100 mil pessoas.

O que existe, em concreto

O aviso COMPETE2030-2026-3 não é um concurso aberto: é um convite ao IAPMEI para desenvolver e executar o Plano Nacional para a Transformação Digital Empresarial, no âmbito da ação 14 da Estratégia Digital Nacional. A dotação indicativa é de 2 milhões de euros de fundos FEDER, com taxa máxima de 85%.

O programa tem nome — PME Digital+ — e apresentação marcada para 22 de setembro, no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, com o ministro e o secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira. O anúncio do IAPMEI fala em transformação digital e IA, mas não menciona metas de formação.

Se tivermos 100 mil trabalhadores de micro, pequenas e médias empresas familiarizados com a IA e aptos a usar e introduzir IA nas suas organizações, isso será um avanço importante no percurso da produtividade.

— Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial

Onde está o dinheiro

O ministro referiu um outro instrumento, o IFIC — Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade, do PRR, executado pelo Banco Português de Fomento. A sua linha «IA nas PME» apoia as empresas com financiamento não reembolsável a 75%, até ao limite de 300 mil euros por empresa.

As dotações publicadas dessa linha são de 100 milhões de euros no aviso de 2025 e de 80 milhões no de 2026 — 180 milhões no total. No balanço de novembro de 2025, a linha tinha 4.771 candidaturas, correspondentes a 1.010,8 milhões de euros de investimento mobilizado.

O ministro disse que foram «aplicados nisso mais de 400 milhões de euros» em apoio à introdução de IA nas empresas. Não encontrei nenhum documento oficial que sustente esse valor: as dotações da linha de IA somam 180 milhões e o aviso do programa são 2 milhões. Fica a dúvida sobre a que verba se referia.

Porque é que 100 mil é difícil

O próprio ministro deu o argumento: o tecido empresarial português é feito de empresas muito pequenas. Os dados do INE para 2024 apontam para 3,2 pessoas por empresa. Formar 100 mil trabalhadores significa, a esta dimensão, chegar a dezenas de milhares de empresas em todo o país.

O enquadramento estratégico já existia. A Agenda Nacional de Inteligência Artificial, publicada este ano, tem 32 iniciativas e um eixo dedicado a talento e competências, com forte componente de formação. Nesse documento não encontrei uma meta numérica de 100 mil trabalhadores.

A procura das empresas, essa, está provada: as 4.771 candidaturas à linha de IA do PRR mostram que o interesse excede a oferta. É um dado que reforça a leitura de que o limite está nos instrumentos financeiros disponíveis, e não na vontade de adoptar a tecnologia.

O que fica por saber

Ficam três perguntas sem resposta: quem executa e paga as sessões de outubro — o aviso identifica o IAPMEI, mas não a formação; se os 100 mil trabalhadores têm verba ou calendário próprios; e se o piloto da Marinha Grande fica dentro do mesmo programa. Nada disto consta dos documentos publicados.

A próxima data a olhar é 22 de setembro, no lançamento em Leiria, onde o programa deve ganhar conteúdo verificável. Até lá, a distância entre a meta anunciada e o dinheiro afecto continua a ser a parte mais informativa desta história.

Feito por humanos — Portugal Binário

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