O Exército Português vai adquirir até 90 veículos blindados Boxer 8×8, no âmbito do programa europeu Security Action for Europe (SAFE), para substituir os veterenos M113 e os Pandur II atualmente em serviço. O anúncio foi feito a 20 de janeiro de 2026 pelo Major-General Miguel Freire, comandante da Brigada de Intervenção, durante a conferência International Armoured Vehicles em Farnborough, Reino Unido. As entregas estão previstas entre 2026 e 2030, com uma segunda fase até 2040.
90 viaturas para uma nova brigada média
Os Boxer 8×8 vão formar o núcleo de uma nova brigada média mecanizada, operando em conjunto com os carros de combate Leopard 2A6 (que serão atualizados para o standard A7+). A aquisição está estruturada em duas fases: a primeira, entre 2026 e 2030, cobre unidades de infantaria mecanizada, comando de batalhão, secções que operam com os Leopard e baterias de defesa antiaérea. A segunda fase, entre 2030 e 2040, estende o Boxer a funções de apoio ao combate e logísticas, consolidando-o como a viatura primária da brigada média a partir de 2045.
O Boxer foi projetado com arquitetura modular: um módulo de condução comum (motor, suspensão, trem de rolamento) e módulos de missão intercambiáveis para transporte, comando, evacuação sanitária ou engenharia. Fonte: Rheinmetall
O programa SAFE, gerido pela União Europeia, oferece financiamento com taxas de juro reduzidas e prazos de reembolso alargados, destinado a acelerar a modernização das capacidades de defesa dos Estados-membros e a consolidar a base industrial europeia. A aquisição será conduzida através da OCCAR (Organisation for Joint Armament Cooperation), o organismo que já gere o programa Boxer para vários países europeus, integrando Portugal na estrutura multinacional de gestão e suporte logístico.
O fim de uma era: M113 e Pandur II
Os M113, blindados de transporte de lagartas desenvolvidos nos anos 60, estão em serviço no Exército Português há décadas e encontram-se no fim da sua vida útil. Os Pandur II 8×8, embora mais recentes, também serão progressivamente substituídos. O Boxer oferece um salto geracional em proteção (blindagem modular escalável, resistência a minas e IED), mobilidade (103 km/h, autonomia de 1.050 km) e capacidade de carga, com peso máximo de 38,5 toneladas em configurações mais recentes.
O motor MTU 8V199, com 530 a 600 kW conforme a variante, garante uma relação potência-peso que permite ao Boxer negociar desníveis de 0,8 metros, transpor trincheiras de 2 metros e subir rampas até 60%. A velocidade máxima de 103 km/h em estrada e uma autonomia média operacional de 650 km dão-lhe uma mobilidade estratégica que os M113 simplesmente não conseguem igualar.
O Boxer na Europa: produção acelera no Reino Unido
Enquanto Portugal aguarda a aprovação europeia, o programa Boxer já avança a bom ritmo noutros países. O Reino Unido, que assinou em 2019 um contrato para 623 viaturas no valor de 5 mil milhões de libras (cerca de 5,8 mil milhões de euros), recebeu a sua 100ª unidade em junho de 2026 — menos de um ano após a entrega do primeiro veículo fabricado em solo britânico, em agosto de 2025.
Boxer 8×8 do Exército Britânico numa exposição de defesa, com a marca 'Made in Britain' a evidenciar a produção nacional — a Rheinmetall BAE em Telford e a KNDS UK em Stockport fabricam 506 das 623 viaturas encomendadas pelo Reino Unido. Fonte: MoD UK / Zona Militar
A produção no Reino Unido está repartida por duas fábricas: a Rheinmetall BAE Systems Land (RBSL) em Telford e a KNDS UK em Stockport, responsáveis por 506 das 623 viaturas encomendadas. As restantes 117 são produzidas nas instalações alemãs do consórcio ARTEC, a joint-venture entre a Rheinmetall e a KNDS que desenvolveu o Boxer originalmente nos anos 1990.
Além do Reino Unido, o Boxer está ao serviço da Alemanha, Países Baixos, Lituânia e Austrália, com mais de 1.300 unidades encomendadas ou entregues no total. O consórcio ARTEC continua a desenvolver novas configurações, incluindo variantes com torre RCT-30, morteiro pesado, defesa antiaérea e engenharia.
O contexto: defesa europeia a ganhar escala
A compra dos Boxer insere-se num esforço mais amplo de modernização do Exército Português, que inclui a aquisição de 36 obuseiros CAESAr Mk2 155 mm (entregas em 2029-2030), baterias antiaéreas Thales RapidRanger e IRIS-T SLM (no âmbito da European Sky Shield Initiative), três helicópteros UH-60 Black Hawk, e novos sistemas de guerra eletrónica e drones, conforme detalhado na Lei de Programação Militar em vigor.
A aquisição representa também um movimento de integração europeia na defesa: o Boxer é um dos poucos programas blindados verdadeiramente multinacionais da Europa, gerido pela OCCAR e financiado através de instrumentos comunitários como o SAFE. Para a indústria portuguesa, o programa pode abrir oportunidades de participação na cadeia de fornecimento, à semelhança do que já acontece com outros programas europeus.
Os novos Boxer 8×8 constituirão o núcleo de uma futura brigada média, que operará em conjunto com os tanques Leopard 2A6. A introdução está prevista entre 2026 e 2030, com alargamento a funções de apoio até 2040.
— Major-General Miguel Freire, comandante da Brigada de Intervenção do Exército, em Farnborough, janeiro de 2026
A aprovação final do financiamento SAFE a nível europeu ainda está pendente, mas o sinal político de Farnborough é inequívoco: Portugal quer o Boxer e está alinhado com a estratégia europeia de defesa colaborativa. Se o calendário se cumprir, as primeiras viaturas poderão começar a chegar às unidades portuguesas ainda este ano.
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