Um edifício público de 500 metros quadrados, impresso em betão camada a camada, concluído em 9 dias por uma equipa de 4 pessoas — e dentro do orçamento. Em Portugal, onde as obras públicas raramente escapam a derrapagens, este número soa a ficção. É real, chama-se Ecocentro de Perafita e foi entregue pela construtora portuguesa Havelar no concelho de Matosinhos.
O edifício de escritórios e apoio ao centro de reciclagem da Ecocentro de Perafita, na Área Metropolitana do Porto, foi construído com uma impressora COBOD BOD2 — uma máquina de pórtico com capacidade para imprimir até três pisos. A estrutura, de 500 m², saiu do modelo digital para a obra em pouco mais de uma semana, com uma equipão reduzida a quatro operários.
Um terço do tempo, um terço dos materiais, um terço das pessoas
José Maria Ferreira, fundador e CEO da Havelar, não podia ser mais direto: «A principal vantagem é o tempo. Em termos de construção, é um terço: um terço do tempo, um terço dos materiais e um terço das pessoas.» A equipa de quatro pessoas que operou a impressora COBOD contrasta com as dezenas de trabalhadores que uma obra convencional desta dimensão exigiria.
A impressora COBOD BOD2 em ação no Ecocentro de Perafita: a máquina de pórtico imprime até três pisos e produz as paredes curvas diretamente do modelo digital, sem custo adicional de cofragem. Fonte: COBOD / Havelar
Bárbara Rangel, investigadora da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, explica outra vantagem: «Com a impressão 3D na construção, os ofícios podem trabalhar em paralelo; não é preciso esperar que as paredes ou lajes sequem para o eletricista, o ladrilhador ou o carpinteiro entrarem.» As paredes curvas do edifício não são um capricho estético: «têm também uma função estrutural, e através da sombra que geram, conseguimos melhorar os ganhos solares pela interação entre sombra e exposição solar». Numa construção convencional, essas curvas exigiriam cofragens caras e semanas extra de trabalho. Na impressão 3D, saem diretamente do modelo digital.
O material usado na construção foi uma mistura de cimento com grânulos de cortiça para melhorar o isolamento térmico — uma solução que aproveita um dos recursos naturais mais abundantes em Portugal.
Orçamento cumprido — o verdadeiro milagre
Se a rapidez impressiona, o cumprimento do orçamento é ainda mais notável num país onde as obras públicas têm uma longa tradição de derrapagens. O projeto foi concluído exatamente dentro do valor previsto, um resultado que os próprios parceiros descreveram como raro para obras públicas em Portugal. Philip Lund-Nielsen, co-fundador e CCO da COBOD International, não poupa elogios: «A Havelar entregou um edifício público dentro do orçamento com uma equipa de quatro pessoas e bateu o prazo da construção convencional. A impressão 3D na construção já não é um método alternativo. Para projetos como este, é claramente a opção superior.»
Das obras públicas às habitações: 32 casas já impressas
O Ecocentro de Perafita não é um caso isolado. Desde que concluiu este edifício, a Havelar já imprimiu 32 unidades habitacionais no Porto e tem mais 53 casas programadas para 2026 em diferentes regiões do país. A empresa está a transitar claramente da fase de prova de conceito para a escala operacional.
Em 2024, a Havelar já tinha feito história ao completar a primeira casa impressa em 3D de Portugal — uma moradia de dois quartos com 80 m² cujas paredes foram impressas em apenas 18 horas. O custo por metro quadrado ficou em €1.500/m², muito abaixo da média do Porto (€3.104/m², segundo o INE).
O Ecocentro de Perafita concluído: o edifício de 500 m² serve de apoio ao centro de reciclagem municipal de Matosinhos. As paredes curvas visíveis à esquerda têm função estrutural e de sombreamento. Fonte: COBOD / Havelar
Europa a imprimir em 3D
O movimento não é exclusivo português. Em França, o projeto ViliaSprint² — uma colaboração entre a PERI 3D Construction, a COBOD, a Holcim e a Plurial Novilia — entregou 12 apartamentos em três pisos (800 m²), com a fase de impressão concluída em 34 dias contra os 50 estimados. O edifício integra painéis fotovoltaicos (500 m²), isolamento em perlite e um sistema de aquecimento híbrido, atingindo cerca de 60% de autossuficiência energética.
Na Dinamarca, o empreendimento Skovsporet em Holstebro entregou 36 apartamentos para estudantes em seis edifícios, com uma área total impressa de 1.654 m², usando a impressora COBOD BOD3 — desenhada para construção de baixa altura e alto volume, com trilhos extensíveis no solo que permitem produzir vários edifícios em sequência sem reposicionar a máquina.
A impressão 3D na construção já não é um método alternativo. Para projetos como este, é claramente a opção superior.
— Philip Lund-Nielsen, Co-fundador e CCO da COBOD International
O que estes projetos mostram é que a tecnologia está a amadurecer. Os custos baixam, os prazos encurtam, a qualidade sobe e os reguladores aprovam. A Havelar, com a fábrica de imprimir casas em Sever do Vouga e uma das frotas de impressoras COBOD mais ativas da Europa, está a provar que construir em 3D não é o futuro — é o presente. E fê-lo em Matosinhos, com quatro pessoas, nove dias e o orçamento cumprido.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!