Durante anos, houve uma peça da indústria dos semicondutores que parecia intocável: as máquinas de litografia, os gigantes que imprimem os circuitos nos chips. E durante anos houve uma empresa que as fabricava como ninguém: a holandesa ASML, a empresa mais valiosa da Europa, dona de um monopólio quase total na tecnologia de ponta. A 28 de julho, essa certeza sofreu o maior abalo em anos — e veio de uma empresa estatal chinesa de que quase ninguém tinha ouvido falar.
A Shanghai Aishengna Electronic Technology Group começou a produzir em série as primeiras máquinas de litografia DUV por imersão desenvolvidas na China, segundo a Reuters, que confirmou a informação avançada um dia antes pelo The Information. A notícia fez as ações da ASML caírem 8% num único dia — o maior susto bolsista da empresa em anos.
A máquina que o Ocidente não queria vender
A litografia é o processo que grava os circuitos nas bolachas de silício — wafers — usando luz. Quanto mais fina a luz, mais pequenos os transístores e mais potentes os chips. A China está proibida de comprar as máquinas EUV (ultravioleta extremo), as mais avançadas da ASML, usadas nos chips de 5 e 3 nanómetros. As máquinas DUV por imersão, que usam uma camada de água entre a lente e o wafer para imprimir circuitos mais pequenos, eram a tecnologia mais avançada que Pequim podia comprar legalmente — e mesmo essas passaram a estar sob restrições crescentes dos Países Baixos e dos Estados Unidos.
Um wafer de silício com os dies (chips) já gravados — o produto final de máquinas como as que a China começou a fabricar. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Foi aí que entrou a Aishengna. Fundada em agosto de 2023 com um capital registado de cerca de 7 mil milhões de yuan e dois acionistas estatais de Xangai, a empresa incorporou as equipas das principais startups chinesas de litografia — a Yuliangsheng, afiliada da SiCarrier (apoiada pela Huawei), e a SMEE, a veterana fabricante estatal de equipamento de litografia. Os registos corporativos mostram que a Aishengna e a Yuliangsheng partilham a mesma morada em Xangai. A estratégia foi juntar todo o talento chinês do setor num único esforço de produção.
O desenvolvimento representa uma vitória para a iniciativa nacional de autossuficiência em semicondutores de Pequim, uma das principais prioridades do presidente Xi Jinping, embora não represente uma ameaça comercial imediata para a ASML.
— Fonte com conhecimento do assunto, citada pela Reuters (28 Jul 2026)
Cinco máquinas em 2026, vinte em 2027
A escala, por enquanto, é simbólica: estão previstas cinco máquinas ainda em 2026 e cerca de 20 em 2027, para a SMIC, a Hua Hong Semiconductor e a fabricante de memórias CXMT. Para contexto: só a ASML planeia despachar cerca de 130 sistemas DUV de imersão em 2026 — a produção chinesa representa menos de 4% dessa capacidade. Os analistas do JP Morgan escreveram que fabricar um punhado de máquinas não é o mesmo que produzir equipamento apto para fabrico em larga escala, onde pesam rendimento, alinhamento entre camadas e fiabilidade ao longo de milhares de ciclos.
As limitações técnicas também são reais: a máquina da Aishengna precisa de mais testes, visa a produção de chips de cerca de 28 nanómetros e ainda depende de peças importadas — incluindo espelhos de laser de 193 nm, lentes da Zeiss e fontes de luz ArF, segundo o Asia Times. A China ainda está, na prática, quatro gerações atrás do que a ASML já vende. Mas o feito é histórico pela mesma razão que assustou os investidores: a litografia era considerada o gargalo mais difícil de toda a cadeia — a peça que muitos julgavam que a China levaria 15 a 20 anos a replicar, como o próprio CEO da ASML, Christophe Fouquet, afirmou em 2025.
A sede da ASML em Veldhoven, Países Baixos — a empresa que domina a litografia mundial e que viu as ações caírem 8% com a notícia. Crédito: Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Porque é que a Europa deve olhar para isto
A ASML é a empresa mais valiosa da Europa e um dos pilares da soberania tecnológica ocidental: a China continua a ser um mercado importante, com cerca de 16% das vendas líquidas da empresa no primeiro semestre de 2026 — mas os controlos de exportação apertaram, e Washington avança com o MATCH Act, legislação bipartidária que quer bloquear a compra e até a manutenção de máquinas DUV pela China. É exatamente aí que mora o risco estratégico para o Ocidente: se a China fabricar as suas próprias máquinas, parte do efeito das sanções esvazia-se — e a pressão sobre o monopólio europeu cresce a cada wafer impresso.
Para o leitor português, a história importa em duas frentes: na geopolítica — a dependência de chips é hoje a dependência energética do século XXI, e a Europa percebeu-o tarde — e na indústria — semicondutores são uma prioridade estratégica europeia, com Portugal a tentar entrar na cadeia (Amkor em Vila do Conde, projetos de microeletrónica). O que a Aishengna fez não é, ainda, uma ameaça à ASML. Mas é a primeira vez que alguém demonstra que o monopólio da litografia pode ter alternativa.
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