A sonda BepiColombo deu o primeiro passo para entrar em órbita de Mercúrio. A 3 de setembro, cerca das 14:00 de Lisboa, o módulo de transferência separou-se do resto da nave. A confirmação só chegou quase duas horas mais tarde, às 15:49, quando o sinal alcançou a sala de controlo do centro de operações da ESA, em Darmstadt.
Ilustração do conjunto BepiColombo a aproximar-se de Mercúrio, com os propulsores eléctricos já desligados no início da sequência de chegada.
A distinção parece formal, mas muda o que se pode dizer sobre a missão. Até dezembro, a BepiColombo continua a ser uma nave em aproximação. O que aconteceu a 3 de setembro foi a libertação do Mercury Transfer Module, o módulo que durante oito anos forneceu a propulsão eléctrica e transportou a carga.
Oito anos e nove sobrevoos
Lançada a 20 de outubro de 2018 num foguetão Ariane 5, a partir do porto espacial europeu em Kourou, na Guiana Francesa, a BepiColombo percorreu 9,9 mil milhões de quilómetros. No caminho, completou nove sobrevoos planetários: um à Terra, dois a Vénus e seis a Mercúrio.
Cada sobrevoo serviu para ajustar a trajectória e travar a velocidade. Segundo a ESA, Mercúrio é mais difícil de alcançar por um orbitador do que Saturno, por uma razão de mecânica orbital: o planeta está tão fundo no poço gravitacional do Sol que uma nave vinda da Terra chega demasiado depressa para poder ser capturada.
O último desses sobrevoos aconteceu a 8 de janeiro de 2025, a 295 quilómetros da superfície. A partir daí, a sonda ficou na aproximação final. A ESA descreve a fase de chegada a Mercúrio como uma das sequências de chegada planetária mais complexas que já tentou.
O que ainda falta até dezembro
O Mercury Transfer Module já cumpriu a função e foi descartado. A bordo ficam dois orbitadores científicos: o Mercury Planetary Orbiter, da ESA, e o Mio, da agência japonesa JAXA. É o Mercury Planetary Orbiter que vai alimentar e controlar o conjunto até dezembro.
A 9 e 10 de dezembro, o Mio separa-se por sua vez. Só depois disso a dupla entra em órbita de Mercúrio, ainda em dezembro de 2026, segundo a ESA. Será a primeira vez que dois veículos espaciais orbitam Mercúrio ao mesmo tempo.
Depois começa a parte científica. O Mercury Planetary Orbiter vai estudar a superfície, o interior e a exosfera do planeta. O Mio vai medir a magnetosfera, a região mais afastada onde o campo magnético de Mercúrio interage com o vento solar.
Engenharia portuguesa a bordo
Entre os instrumentos que vão começar a trabalhar está o MSASI, um espectrómetro dedicado a medir uma linha de emissão do sódio na ténue atmosfera de Mercúrio. A parte mecânica e o isolamento térmico do instrumento, que segue a bordo do Mio, foram concebidos pela Active Space Technologies, empresa fundada em 2004 e instalada em Taveiro, no distrito de Coimbra.
O isolamento térmico não é um detalhe secundário em Mercúrio: a proximidade ao Sol sujeita os instrumentos a variações de temperatura extremas. O MSASI mede uma linha muito estreita do sódio e combina um etalon de Fabry-Perot de alta resolução com um filtro de banda ultra-estreita, óptica que tem de funcionar num dos ambientes térmicos mais agressivos do Sistema Solar.
A portuguesa Efacec participou no BERM, o monitor de radiação ambiente da missão, que mede a exposição da nave a partículas energéticas ao longo da viagem e em órbita. O instrumento é descrito num artigo científico assinado, entre outras instituições, pela Efacec e pela Universidade de Lisboa.
Na equipa científica há também uma portuguesa. Joana S. Oliveira, astrofísica, estuda os campos magnéticos internos de corpos planetários — Mercúrio, a Lua e Marte. O seu trabalho incide sobre o campo crustal e do núcleo de Mercúrio, uma área em que a missão norte-americana MESSENGER deixou medições que a BepiColombo deverá refinar.
Porque é que isto interessa
Mercúrio foi visitado por apenas duas naves antes desta. A Mariner-10 passou por lá três vezes em 1974 e 1975, sem entrar em órbita. A MESSENGER fez três sobrevoos em 2008 e 2009 e depois orbitou o planeta entre março de 2011 e abril de 2015, quando se despenhou deliberadamente na superfície.
A MESSENGER foi, por isso, o único orbitador que Mercúrio teve até hoje. A BepiColombo acrescenta-lhe uma segunda nave em órbita simultânea, o que permite medir o mesmo fenómeno a duas altitudes diferentes ao mesmo tempo — algo que uma só nave não consegue fazer.
O que se espera responder são questões antigas: porque é que Mercúrio mantém um campo magnético quando o seu núcleo deveria ter solidificado há muito tempo e o que compõe a superfície invulgarmente escura. Nas crateras polares à sombra permanente, a MESSENGER encontrou evidência de gelo de água; a BepiColombo deverá medir a composição desses depósitos com mais detalhe.
O que ainda não se sabe
A data exacta da inserção orbital dentro de dezembro não está fixada em nenhum documento público consultado. A ESA indica apenas o mês, e algumas páginas mais antigas da própria agência ainda mantêm datas anteriores ao adiamento da missão, o que é preciso ter em conta.
Também não foi possível confirmar, em fontes de 2026, se os contratos e as equipas portuguesas envolvidas na construção dos instrumentos continuam ligados ao programa, oito anos depois. As participações descritas acima referem-se à fase de desenvolvimento e lançamento da missão, e o hardware construído nessa altura é o que segue agora a bordo.
O que está confirmado é o essencial: a 3 de setembro a nave libertou o módulo de transferência, o sinal foi recebido em Darmstadt às 15:49, e a partir daí começou a contagem para a entrada em órbita de Mercúrio.
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