Socorristas da Brigada Internacional de Resgate Topos Azteca operam o robot-cobra da Carnegie Mellon entre os escombros de La Guaira, Venezuela, em julho de 2026. Cabo verde visível liga o robot ao operador.
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Robot-cobras da Carnegie Mellon enviados em 24 horas para a Venezuela depois de uma venezuelana descobrir a tecnologia no Grok

Foi o chatbot a fazer a primeira chamada. Na manhã de 25 de junho, Beatriz Gonzalez — natural de Caracas, residente em Atlanta há mais de duas décadas — abriu o Grok e perguntou, em inglês, "como é que posso ajudar nas buscas após o terramoto na Venezuela?" A resposta do modelo apontou-lhe para um artigo antigo da Carnegie Mellon University sobre uma operação semelhante no México em 2017.

Doze horas depois, Gonzalez já estava em contacto direto com Howie Choset, o investigador que dirige o Biorobotics Lab da CMU há quase duas décadas e que em 2017 tinha usado os snakebots no rescaldo do terramoto da Cidade do México. Trinta horas depois, a equipa da universidade norte-americana — Choset, Kimberly Elenberg, Nico Zevallos-Roberts e Darwin Mick, com apoio técnico de Yizhu Gu, Lu Li e Ralph Boirum — estava a carregar três robots-cobra modulares para um avião em direção a Miami.

O momento que consolidou a decisão não foi técnico, nem humanitário. Foi logístico — e aconteceu no palco de um concerto.

Robot-cobra da CMU pronto a entrar nos escombros, com operador mexicano Topos a segurar o comando

Robot-cobra da Carnegie Mellon em posição de entrada nos escombros, com cabo verde ligado a um socorrista da brigada Topos Azteca. Foto: Carnegie Mellon University / Howie Choset via Ars Technica.

Entre Third Eye Blind e Nelly, ao vivo em Point State Park

A 27 de junho, em Pittsburgh, três dias depois do terramoto de magnitude 6,3 que atingiu a região de Caracas e La Guaira, Choset e a equipa preparavam-se para demonstrar os robots ao público num concerto da digressão America250 — celebração dos 250 anos da independência dos Estados Unidos, com Third Eye Blind e Nelly como cabeças de cartaz. Foi nesse palco, com o ribeiro do Ohio a passar atrás, que Gonzalez confirmou, por mensagem, que tinha conseguido desbloquear a parte mais difícil: um avião privado que aceitasse aterrar na Venezuela apesar das restrições do governo de Nicolás Maduro.

Tínhamos acabado de subir ao palco quando ela nos disse que o avião estava confirmado. Estávamos entre Third Eye Blind e o Nelly. Foi um momento surreal.

— Howie Choset, em entrevista à Ars Technica

Vinte e quatro horas, três robots e uma escala em Miami

A 28 de junho, a equipa fez escala em Miami — onde as coisas quase correram mal. Vários operadores de jatos privados tinham recusado aterrarr em território venezuelano. Gonzalez usou os seus contactos pessoais para garantir uma derradeira alternativa. No dia 30, o grupo aterrou em Caracas, foi recebido por elementos dos Marines dos Estados Unidos, entregue à Cruz Vermelha Venezuelana e seguiu por estrada até La Guaira — a cidade costeira que, com Caraballeda, tinha sido o epicentro dos piores colapsos.

Trabalharam três dias, até 3 de julho. A maioria do trabalho foi feita em conjunto com a Brigada Internacional de Resgate Topos Azteca — o grupo mexicano lendário criado em 1985 após o terramoto da Cidade do México. O seu líder, Héctor Méndez, conhecido por "El Chino", com 80 anos, já estava em La Guaira desde o final de junho. O México enviou também uma equipa militar oficial para o terreno.

Edifício colapsado na sequência do terramoto de 24 de junho de 2026 em La Guaira, Venezuela

Edifício colapsado em La Guaira após o terramoto de magnitude 6,3 de 24 de junho de 2026. Foto: Howie Choset via Ars Technica.

Os robots: 1,2 metros, 16 módulos, cabo verde

O robot-cobra da CMU é uma máquina discreta. Tem cerca de 1,2 metros de comprimento (4 pés) e 5 centímetros de largura, divididos em 16 módulos articulados que podem ser trocados em campo. Um cabo verde — visível nas fotografias da operação — liga-o ao operador, que o comanda com um comando de consola e um portátil tethered, com software que coordena autonomamente os segmentos do corpo. A máquina não é, em 2017 nem em 2026, um salva-vidas direto: a literatura da CMU e a cobertura da Gadget Review confirmam que nenhum snakebot é creditado, até hoje, com ter salvo diretamente uma pessoa soterrada.

Na Venezuela, o trabalho foi diferente. Numa das muitas missões a 1 de julho, a equipa combinou-se com um grupo jordano que trabalhava com cães e tinha concluído que um edifício já não tinha sobreviventes. Uma equipa colombiana, com câmaras de infravermelhos, sugeria o contrário. Um pai venezuelano esperava a alguns metros, à espera de notícias do filho.

O robot-cobra entrou cerca de 4,5 a 6 metros nos escombros — 15 a 20 pés, o máximo permitido pelo cabo sem que se partisse — sem encontrar ninguém. A equipa teve de regressar aos Estados Unidos sem salvar diretamente uma vida.

Mas a operação venezuelana no seu conjunto resgatou quase 6.500 pessoas em poucos dias, segundo as contas da própria CMU e de fontes internacionais. Entre os sobreviventes mais famosos está um segurança de 43 anos, soterrado durante oito dias no rés-do-chão de um centro comercial em Caraballeda, retirado com vida em 2 de julho por equipas combinadas que o The Guardian noticiou na altura.

Portugal enviou uma força de 64 operacionais para La Guaira

O terramoto da Venezuela não foi apenas uma operação norte-americana. Portugal destacou, em 26 de junho, uma força operacional conjunta de 64 elementos — através da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), do Regimento de Sapadores Bombeiros de Lisboa, do INEM e da GNR — com seis cães de busca, através do Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. A equipa foi recebida pelo então Presidente da Câmara de Lisboa, António José Seguro, antes da partida. A equipa portuguesa resgatou com vida um homem de 44 anos que estava preso há cinco dias sob os escombros, segundo o Portugal Resident. O número total de equipas de resgate internacionais na Venezuela ultrapassou 520 operacionais, vindos de França, Chéquia, Espanha, Itália, Luxemburgo, Alemanha, Portugal e Países Baixos.

O total de mortos no terramoto de 24 de junho passou os 5.000 a 21 de julho, com 16.740 feridos contabilizados à mesma data — números confirmados pelo World Vision e em linha com o que a Ars Technica reportou a 24 de julho.

O detalhe "Grok" importa, mas não é marketing

A história começa com o Grok, da xAI — o modelo de linguagem de Elon Musk que, em 25 de junho, devolveu a Beatriz Gonzalez a ligação para um artigo da CMU publicado em 2017. É um detalhe factual, confirmado pela Ars Technica, e não é marketing: a tecnologia subjacente ao robot-cobra existe desde 2017, o artigo da CMU está há nove anos nos motores de busca, e qualquer LLM com pesquisa web o teria encontrado. O Grok foi, neste caso, o intermediário que fez a pergunta de uma cidadã comum chegar à pessoa certa na universidade certa — nem mais, nem menos.

Feito por humanos — Portugal Binário

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