A Open Cosmos, empresa britânica de satélites que produz satélites em Portugal, fechou uma ronda de 300 milhões de euros e confirmou que Portugal é uma das quatro «localizações centrais» da companhia. O investimento em Portugal vai chegar aos 50 milhões de euros e duplicar a equipa local, de 50 para 100 pessoas.
Oficial: arte da Open Cosmos para o anúncio da ronda de financiamento de 300 milhões de euros (14 de setembro de 2026). A empresa tem unidades em Reino Unido, Espanha, Portugal e Grécia.
Para Portugal, o essencial desta ronda não é o valor total: é a empresa dizer que o país é uma das quatro localizações core do seu plano — 50 milhões de euros de investimento previsto e a equipa local a dobrar, de 50 para 100 pessoas.
Uma ronda de 300 milhões para fabricar mais satélites
Anunciada a 14 de setembro, a ronda de 300 milhões de euros foi liderada por investidores europeus, com a participação da Lightrock, da ETF Partners, do Institut Català de Finances (ICF) e da Entrepreneurs First, segundo o comunicado da Open Cosmos. Inclui ainda a Convex Group, o National Security Strategic Investment Fund (NSSIF, do Reino Unido), a Phoenix Court e a Claret Capital Partners, entre outras. A empresa britânica não detalhou o valor que cada participante aportou.
Segundo a empresa, o dinheiro vai expandir a fabricação em massa de satélites e acelerar as infraestruturas de inteligência e conectividade acima da cabeça — as constelações OpenConstellation, ConnectedCosmos e DataCosmos. A ronda entra num momento de crescimento: a Open Cosmos diz ter mais de 370 milhões de dólares em contratos assinados e cinco anos consecutivos de crescimento rentável, e atender governos e agências espaciais europeus, empresas de energia e de infraestrutura.
A infraestrutura espacial está a tornar-se tão crítica como a energia, as redes digitais e os transportes. A infraestrutura por si só não basta; o valor verdadeiro vem da capacidade de responder, em tempo quase real, a eventos na Terra.
— Rafel Jorda Siquier, CEO e fundador da Open Cosmos
Portugal, uma das quatro localizações centrais
Para Portugal, o anúncio confirma um papel mais central. «Portugal é uma das quatro localizações core da Open Cosmos. Tal como anunciámos anteriormente, a equipa em Portugal é constituída por 50 pessoas, e planeamos dobrar a equipa e investir 50 milhões no país», disse uma fonte oficial da empresa ao ECO/eRadar, acrescentando que «este financiamento vai apenas acelerar este investimento». A unidade portuguesa — a Open Cosmos Atlantic, sediada no Porto — faz já parte do ecossistema espacial nacional desde 2024.
A empresa diz poder fabricar um satélite por dia nas suas quatro fábricas na Europa — Reino Unido, Espanha, Portugal e Grécia —, onde tem 400 trabalhadores. Tem vindo a lançar uma nova geração de satélites da OpenConstellation, uma constelação partilhada que pretende reduzir o tempo de entrega de dados de observação da Terra de 48 horas para 30 minutos, com processamento de IA a bordo e ligação entre satélites.
Uma cadeia espacial europeia e soberana
O negócio da Open Cosmos já não é só construir satélites. Para lá da fabricação, corre uma constelação de dados (OpenConstellation), um serviço de conectividade (ConnectedCosmos) e uma camada de inteligência em observação da Terra (DataCosmos). O argumento é entregar informação útil em minutos, e não em dias, com IA a bordo e comunicações directas entre satélites.
A empresa enquadra o investimento numa procura crescente, de governos e empresas, por sistemas espaciais «soberanos» — para reduzir a dependência de infraestrutura estrangeira. O sector está a captar dinheiro a passos largos: a Open Cosmos cita investimento global de capital de risco no espaço em 11,3 mil milhões de dólares no primeiro semestre de 2026, contra 10,1 mil milhões em todo o ano de 2025.
O elo português já existia
A presença portuguesa não surge do nada. Em outubro de 2024, a Open Cosmos anunciou a expansão em Portugal e a incorporação de três satélites portugueses na OpenConstellation, a cargo da observação da Terra de alta resolução «no âmbito da Agenda Espacial Portuguesa», apoiada pelo PRR. A subsidiária Open Cosmos Atlantic ficou sediada no Porto (UPETEC), com uma nova unidade em Coimbra a abrir no início de 2025.
Esse trabalho enquadra-se na Portugal Open Constellation (PTOC), uma iniciativa apoiada pela União Europeia (via NextGenerationEU) e pelo PRR, que tem como objetivo dar a Portugal, pela primeira vez, a capacidade de projetar, fabricar e operar satélites completos. Convém separar duas coisas: a PTOC é uma via de financiamento público, europeu e português; os 50 milhões agora referidos são investimento da própria empresa, que diz que a ronda «vai apenas acelerar» esse plano.
Por que importa para Portugal
Para Portugal, o valor pode vir mais do que dos satélites em si: de empregos qualificados e de posição numa cadeia de abastecemento que a empresa quer servir a África, a América Latina e a Europa. A Open Cosmos não é isolada no ecossistema nacional — integra-se num conjunto que inclui também satélites de vigilância da Força Aérea e projectos de investigação universitária.
Alguns pontos permanecem por esclarecer. A empresa não indicou quanto aportou cada investidor nem se parte dos 50 milhões para Portugal virá de instrumentos públicos nacionais, e não deu prazos concretos para o crescimento da equipa nem para o próximo lançamento de satélites portugueses.
O que se vê nesta semana é o crescimento de uma empresa que faz da fabricação rápida e da inteligência em órbita o seu produto. Para Portugal, o risco e a oportunidade são os mesmos: depender de uma cadeia que se decide longe, mas estar já dentro dela.
Feito por humanos — Portugal Binário
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