Saturno tem um hexágono famoso no polo norte. Agora, observações do telescópio espacial Hubble revelaram uma estrutura diferente no sul: uma onda atmosférica gigante com uma geometria aproximada de dez lados. O padrão está embutido numa corrente de jacto, atravessa várias camadas da atmosfera e parece estar a fortalecer-se.
A descoberta foi divulgada pela NASA e pela ESA em 2 de Setembro de 2026, mas não resulta de uma fotografia feita nessa data. Os dados do Hubble confirmam a presença da estrutura desde 2023; a imagem apresentada neste artigo corresponde a uma observação de 29 de Agosto de 2025.
Imagem de filtro único do Hubble com a região do decágono assinalada. A data visível, 29 de Agosto de 2025, corresponde à observação; as marcações e a palavra “decagon” são elementos explicativos da imagem científica. Crédito: NASA, ESA, STScI, A. Sánchez-Lavega, A. Simon, M. Wong e A. Pagan.
Uma descoberta feita ao longo de vários anos
O padrão não apareceu de forma evidente numa única imagem. Agustín Sánchez-Lavega, da Universidade do País Basco, e outros astrónomos encontraram os primeiros indícios em imagens obtidas a partir da Terra em 2024. Registos adicionais de 2025 reforçaram a hipótese, que depois foi comparada com a série de observações do Hubble.
Esta combinação foi importante porque Saturno não esteve sempre igualmente visível a partir da Terra. À medida que as estações do planeta foram trazendo o polo sul de volta ao nosso campo de visão, os investigadores puderam acompanhar uma estrutura que os dados anteriores — incluindo os da missão Cassini — não tinham mostrado como uma formação duradoura.
Não é uma figura desenhada nas nuvens
O decágono não é uma superfície sólida nem uma construção geométrica. É uma onda atmosférica associada a um jacto de grande velocidade, formada por movimentos de gás nas camadas superiores de Saturno. A posição aparente muda ligeiramente conforme o comprimento de onda observado, porque cada filtro permite sondar altitudes diferentes.
A imagem de filtro único torna a estrutura mais fácil de localizar, mas as linhas, o círculo tracejado, o “X” e a palavra “decagon” são anotações científicas. Não devem ser confundidos com partes da atmosfera. A conclusão resulta da análise dos contornos e da evolução do padrão em várias observações, não apenas daquilo que o olho consegue distinguir numa reprodução.
O irmão instável do hexágono do norte
A comparação com o hexágono do polo norte é inevitável, mas as duas formações não são iguais. O hexágono é conhecido há mais de 40 anos e parece manter uma configuração estável. O decágono do sul foi identificado muito mais recentemente e os investigadores ainda não sabem se vai estabilizar, mudar de forma ou desaparecer.
O programa OPAL, que observa regularmente os planetas exteriores, é particularmente útil neste caso. Em vez de oferecer apenas uma imagem isolada, permite acompanhar alterações lentas na atmosfera de Saturno e perceber se a onda se comporta como uma estrutura duradoura ou como uma perturbação passageira.
A causa continua por explicar
O estudo foi publicado na revista Science Advances e confirma que o padrão se estende por várias altitudes. Ainda assim, não resolve a razão pela qual surgiu agora, nem explica por que razão Saturno produz ondas atmosféricas poligonais que não foram observadas desta forma noutros planetas.
A equipa pretende continuar a observar Saturno com o Hubble, o James Webb e modelos computacionais. O objectivo é perceber a origem do decágono e usar esta rara janela para estudar como funcionam as atmosferas dos planetas gigantes.
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