O consórcio europeu Quantum Internet Alliance (QIA) recebeu 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia para os próximos 42 meses. O objectivo não é melhorar a encriptação que já existe: é juntar hardware, software e rede num protótipo completo de Internet quântica, capaz de correr aplicações, e ligar duas redes quânticas à escala metropolitana por um troço de fibra de longa distância.
O financiamento foi divulgado no final de Setembro de 2026, ao abrigo de um novo acordo específico — o SGA 2 —, e dá continuidade à primeira fase do consórcio, que decorreu entre Outubro de 2022 e Março de 2026.
O que os 42 meses têm de entregar
O marco central é concreto: demonstrar que duas redes quânticas metropolitanas podem ser interligadas por fibra de longa distância, com repetidores quânticos pelo meio. Um repetidor quântico é a peça que falta para esticar o alcance deste tipo de rede — num cabo, um estado quântico não se amplifica como um sinal clássico, porque não se copia.
| Financiamento | 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia |
|---|---|
| Duração | 42 meses (três anos e meio) |
| Fase anterior | Outubro de 2022 a Março de 2026 |
| Quadro | acordo de parceria «Construir a Internet Quântica», do Horizonte Europa |
| Marco da fase 2 | ligar duas redes quânticas metropolitanas por fibra, com repetidores quânticos |
| Coordenação | Stephanie Wehner, directora da QIA |
| Membro português | Portuguese Quantum Institute, do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Lisboa |
Além do protótipo, a fase 2 prevê os primeiros passos para instalações-piloto e para uma infraestrutura de acesso aberto, de modo que investigadores, programadores e empresas possam trabalhar sobre as redes em ensaio. É a parte que decide se o resultado sai do laboratório.
Portugal entrou na primeira fase e tem um segmento próprio
O Portuguese Quantum Institute (PQI), nascido do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Lisboa, é membro da aliança, e Yasser Omar é o investigador principal português na equipa da QIA. O instituto participa desde a fase inicial e faz sobretudo investigação teórica em redes quânticas, computação quântica e sensores quânticos.
Portugal tem também um segmento próprio. O PTQCI, a Infraestrutura Portuguesa de Comunicação Quântica, é o primeiro troço terrestre do EuroQCI em território nacional: um projecto de 30 meses, financiado pelo Programa Europa Digital (contrato de subvenção n.º 101091730, com 50% de co-financiamento), que aproveita fibra óptica já instalada para ligar organismos públicos na área metropolitana de Lisboa e monta uma rede de ensaio com universidades e empresas. A entidade executora é a Autoridade Nacional de Segurança. As datas não são coincidentes entre as fontes oficiais: a página do projecto datava-o de 1 de Janeiro de 2023 a 31 de Maio de 2025, enquanto a Infraestruturas de Portugal o regista de 2023 a 2026.
Sistema de distribuição quântica de chaves do NIST, nos Estados Unidos: os terminais «Alice» e «Bob» são os nomes convencionais do emissor e do receptor. A fotografia não é o protótipo europeu nem uma instalação portuguesa. Imagem: NIST (domínio público).
A ligação transfronteiriça já foi demonstrada. A 27 de Janeiro de 2026, a Deloitte, o PQI e a Warpcom, em parceria com a FCCN e a IPTelecom, transmitiram chaves quânticas entre Portalegre e Badajoz ao longo de cerca de 65 quilómetros de fibra já existente, com Elvas a servir de nó de confiança. Foi a primeira ligação do género entre Portugal e Espanha — uma demonstração, não um serviço em produção.
Distribuir chaves não é o mesmo que entrelaçar qubits
A distinção importa para não ler os números de hoje como se fossem outra coisa. A distribuição quântica de chaves (QKD) — a tecnologia do troço Portalegre–Badajoz e a que o EuroQCI está a instalar — serve para gerar e trocar chaves de encriptação cuja segurança assenta nas leis da física: qualquer tentativa de intercepção deixa rasto. A Internet quântica propriamente dita é mais ambiciosa: pretende ligar processadores quânticos entre si através de entrelaçamento, o que exige repetidores que a QKD não precisa. É essa segunda camada que a QIA está a tentar construir.
O calendário europeu e o que continua em aberto
A camada que já está a ser construída é o EuroQCI, a infraestrutura europeia de comunicação quântica lançada em 2019 com sete Estados-membros signatários e hoje alargada aos 27, em parceria com a Agência Espacial Europeia. O segmento terrestre é instalado pelos Estados-membros; o espacial é da ESA. A primeira fase do segmento terrestre correu entre 2023 e 2025, com apoio do Programa Europa Digital, e há 19 projectos do Mecanismo Interligar a Europa a financiar ligações transfronteiriças. O primeiro protótipo de satélite, o Eagle-1, só deverá ser lançado no final de 2027.
O objectivo declarado é que a Europa esteja na vanguarda das capacidades quânticas até 2030. Para Stephanie Wehner, directora da QIA, a Europa está na vanguarda da Internet quântica e o protótipo «pode vir a ser o primeiro do seu tipo no mundo» — mas, na mesma nota, a responsável descreve o que vai ser construído como «tecnologia que ainda não existe em lado nenhum». É uma declaração de parte: o consórcio financia investigação, não um serviço, e não há data para uma operadora vender a alguém uma ligação de Internet quântica.
Para quem segue o sector, a medida destes 42 meses não é a velocidade de uma ligação: é se os repetidores quânticos funcionam em série e se as duas redes metropolitanas ficam de facto ligadas por fibra. O resto — serviços, preços, operadores — não está nesta fase.
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