Cabo de fibra óptica aberto sobre fundo branco, com pares coloridos — verde e vermelho — torcidos em torno de um núcleo de elementos brancos, e a capa exterior descarnada à direita

Fotografia: Asurnipal — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

🔬 Ciência

Internet quântica: 47,5 milhões para o protótipo europeu com Portugal

O consórcio europeu Quantum Internet Alliance (QIA) recebeu 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia para os próximos 42 meses. O objectivo não é melhorar a encriptação que já existe: é juntar hardware, software e rede num protótipo completo de Internet quântica, capaz de correr aplicações, e ligar duas redes quânticas à escala metropolitana por um troço de fibra de longa distância.

O financiamento foi divulgado no final de Setembro de 2026, ao abrigo de um novo acordo específico — o SGA 2 —, e dá continuidade à primeira fase do consórcio, que decorreu entre Outubro de 2022 e Março de 2026.

O que os 42 meses têm de entregar

O marco central é concreto: demonstrar que duas redes quânticas metropolitanas podem ser interligadas por fibra de longa distância, com repetidores quânticos pelo meio. Um repetidor quântico é a peça que falta para esticar o alcance deste tipo de rede — num cabo, um estado quântico não se amplifica como um sinal clássico, porque não se copia.

Financiamento47,5 milhões de euros da Comissão Europeia
Duração42 meses (três anos e meio)
Fase anteriorOutubro de 2022 a Março de 2026
Quadroacordo de parceria «Construir a Internet Quântica», do Horizonte Europa
Marco da fase 2ligar duas redes quânticas metropolitanas por fibra, com repetidores quânticos
CoordenaçãoStephanie Wehner, directora da QIA
Membro portuguêsPortuguese Quantum Institute, do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Lisboa

Além do protótipo, a fase 2 prevê os primeiros passos para instalações-piloto e para uma infraestrutura de acesso aberto, de modo que investigadores, programadores e empresas possam trabalhar sobre as redes em ensaio. É a parte que decide se o resultado sai do laboratório.

Portugal entrou na primeira fase e tem um segmento próprio

O Portuguese Quantum Institute (PQI), nascido do Instituto Superior Técnico e da Universidade de Lisboa, é membro da aliança, e Yasser Omar é o investigador principal português na equipa da QIA. O instituto participa desde a fase inicial e faz sobretudo investigação teórica em redes quânticas, computação quântica e sensores quânticos.

Portugal tem também um segmento próprio. O PTQCI, a Infraestrutura Portuguesa de Comunicação Quântica, é o primeiro troço terrestre do EuroQCI em território nacional: um projecto de 30 meses, financiado pelo Programa Europa Digital (contrato de subvenção n.º 101091730, com 50% de co-financiamento), que aproveita fibra óptica já instalada para ligar organismos públicos na área metropolitana de Lisboa e monta uma rede de ensaio com universidades e empresas. A entidade executora é a Autoridade Nacional de Segurança. As datas não são coincidentes entre as fontes oficiais: a página do projecto datava-o de 1 de Janeiro de 2023 a 31 de Maio de 2025, enquanto a Infraestruturas de Portugal o regista de 2023 a 2026.

Dois bastidores metálicos de laboratório, um identificado com a placa «NIST QKD System — ALICE» e outro com «NIST QKD System — BOB», com instrumentos de medição e cabos ópticos ligados entre eles

Sistema de distribuição quântica de chaves do NIST, nos Estados Unidos: os terminais «Alice» e «Bob» são os nomes convencionais do emissor e do receptor. A fotografia não é o protótipo europeu nem uma instalação portuguesa. Imagem: NIST (domínio público).

A ligação transfronteiriça já foi demonstrada. A 27 de Janeiro de 2026, a Deloitte, o PQI e a Warpcom, em parceria com a FCCN e a IPTelecom, transmitiram chaves quânticas entre Portalegre e Badajoz ao longo de cerca de 65 quilómetros de fibra já existente, com Elvas a servir de nó de confiança. Foi a primeira ligação do género entre Portugal e Espanha — uma demonstração, não um serviço em produção.

Distribuir chaves não é o mesmo que entrelaçar qubits

A distinção importa para não ler os números de hoje como se fossem outra coisa. A distribuição quântica de chaves (QKD) — a tecnologia do troço Portalegre–Badajoz e a que o EuroQCI está a instalar — serve para gerar e trocar chaves de encriptação cuja segurança assenta nas leis da física: qualquer tentativa de intercepção deixa rasto. A Internet quântica propriamente dita é mais ambiciosa: pretende ligar processadores quânticos entre si através de entrelaçamento, o que exige repetidores que a QKD não precisa. É essa segunda camada que a QIA está a tentar construir.

Os 47,5 milhões compram um protótipo de investigação, não uma rede comercial. A Europa está a financiar duas coisas a ritmos diferentes — uma Internet quântica que ainda não existe e uma infraestrutura de distribuição de chaves que já está a ser instalada — e Portugal aparece nas duas.

O calendário europeu e o que continua em aberto

A camada que já está a ser construída é o EuroQCI, a infraestrutura europeia de comunicação quântica lançada em 2019 com sete Estados-membros signatários e hoje alargada aos 27, em parceria com a Agência Espacial Europeia. O segmento terrestre é instalado pelos Estados-membros; o espacial é da ESA. A primeira fase do segmento terrestre correu entre 2023 e 2025, com apoio do Programa Europa Digital, e há 19 projectos do Mecanismo Interligar a Europa a financiar ligações transfronteiriças. O primeiro protótipo de satélite, o Eagle-1, só deverá ser lançado no final de 2027.

O objectivo declarado é que a Europa esteja na vanguarda das capacidades quânticas até 2030. Para Stephanie Wehner, directora da QIA, a Europa está na vanguarda da Internet quântica e o protótipo «pode vir a ser o primeiro do seu tipo no mundo» — mas, na mesma nota, a responsável descreve o que vai ser construído como «tecnologia que ainda não existe em lado nenhum». É uma declaração de parte: o consórcio financia investigação, não um serviço, e não há data para uma operadora vender a alguém uma ligação de Internet quântica.

Para quem segue o sector, a medida destes 42 meses não é a velocidade de uma ligação: é se os repetidores quânticos funcionam em série e se as duas redes metropolitanas ficam de facto ligadas por fibra. O resto — serviços, preços, operadores — não está nesta fase.

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