Portugal consumiu 40,5 TWh de eletricidade entre janeiro e setembro, o valor mais elevado de sempre para esse período. São 3,4% acima do anterior máximo, registado em 2025, ou 2,9% quando se corrigem os efeitos da temperatura e do número de dias úteis, segundo o balanço que a REN divulgou a 1 de outubro.
O mesmo balanço tem uma segunda face, menos citada: 22% da eletricidade consumida nos nove meses veio do estrangeiro, o saldo importador mais elevado de sempre para este período. A produção renovável abasteceu 64% do consumo — hídrica 24%, eólica 23%, fotovoltaica 13% e biomassa 5% — e a produção a gás natural 14%.
Vento e sol produziram abaixo da média
Os índices de produtibilidade ajudam a perceber de onde veio a eletricidade. Numa escala em que 1 é a média histórica do período, a hídrica ficou em 1,21 — as barragens produziram acima do normal —, a eólica em 0,97 e a fotovoltaica em 0,82, ou seja, 18% abaixo da média. Menos produção própria significa mais espaço para a energia comprada fora.
Só em setembro, o consumo cresceu 6,8% face ao mesmo mês de 2025 — 3,3% depois de corrigidos temperatura e dias úteis —, num mês que a REN descreve como «impulsionado pelas temperaturas elevadas». As renováveis abasteceram 52% do consumo, a produção não renovável 13% e 35% foi energia importada. Nesse mês a fotovoltaica subiu para 0,96 e a hídrica para 1,39, com a eólica em 0,88.
A eólica abasteceu 23% do consumo nos primeiros nove meses, com produtibilidade ligeiramente abaixo da média. Imagem de arquivo.
Crédito: Fotografia: JC Ferreira — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0). Monte do Colcurinho, imagem de arquivo.
No gás, o país foi exportador
O mercado do gás natural seguiu o caminho inverso. Em setembro, o consumo caiu 12%, com quebras de 15% no segmento de produção de eletricidade e de 10% no convencional. No conjunto dos nove meses, o consumo totalizou 33,2 TWh, mais 0,5% — mais 4,5% no mercado elétrico e menos 1,2% no convencional.
Todo o abastecimento de setembro passou pelo terminal de gás natural liquefeito de Sines, e o saldo exportador para Espanha equivaleu a 62% do consumo nacional. Nos nove meses, o sistema foi abastecido quase inteiramente a partir de Sines, com origem predominante na Nigéria (58%), seguida dos Estados Unidos (34%) e da Rússia (8%); o saldo exportador de gás para Espanha foi o mais elevado de sempre no sistema nacional para este período.
| Consumo de eletricidade (jan–set) | 40,5 TWh, máximo de sempre |
|---|---|
| Variação face a 2025 | +3,4% (+2,9% corrigido) |
| Renováveis | 64% do consumo |
| Hídrica | 24% |
| Eólica | 23% |
| Fotovoltaica | 13% |
| Biomassa | 5% |
| Gás natural | 14% |
| Eletricidade importada | 22% (máximo para o período) |
| Consumo em setembro | +6,8% |
| Gás natural (jan–set) | 33,2 TWh (+0,5%) |
O que o balanço não diz
A nota da REN não atribui o saldo importador a uma causa concreta e não menciona centros de dados nem novas cargas industriais; o crescimento do consumo em setembro é justificado com as temperaturas. A diferença entre os 3,4% brutos e os 2,9% corrigidos mostra quanto do aumento se explica por calor e calendário, e não por consumo estrutural.
O ano elétrico tem, por isso, duas metades. No primeiro trimestre, a REN reportou o melhor arranque de sempre em renováveis — 80,4% do consumo, num total de 14 624 GWh — com o saldo importador a cair para quase metade. Nos nove meses, a média ficou em 64% e o saldo importador no máximo histórico.
O próximo balanço mensal da REN, referente a outubro, dirá se o setembro de calor foi um mês atípico ou o início de um padrão. Até lá, o que os dados deste ano mostram é isto: Portugal consome mais eletricidade do que em qualquer outro período janeiro–setembro e, para o conseguir, recorreu mais ao exterior do que nunca nesse período.
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