A UAVision vai instalar-se no aeródromo municipal de Viseu. A empresa de Torres Vedras assinou a 14 de setembro um protocolo com a Câmara Municipal que prevê um investimento até cinco milhões de euros em três anos, a contratação inicial de 10 a 20 pessoas e o desenvolvimento de um HAPS, uma aeronave de alta altitude que funciona como pseudo-satélite.
O que foi assinado
O protocolo de colaboração foi celebrado na manhã de 14 de setembro, segundo o Diário de Viseu, e cede à empresa um terreno com cerca de dois mil metros quadrados no Aeródromo Municipal Gonçalves Lobato, junto às instalações do Aeroclube de Viseu.
O aeródromo fica na freguesia de Lordosa, a cerca de sete quilómetros do centro da cidade, e tem uma pista asfaltada com 1200 metros de comprimento. É aí que a UAVision quer construir um hangar para produção, testes e formação.
As obrigações dividem-se: a empresa compromete-se a assegurar produção industrial em Viseu e a promover ações de formação; a autarquia disponibiliza a infraestrutura para a realização regular de testes e voos. «É uma empresa altamente qualificada que vem para Viseu», afirmou o presidente da Câmara, João Azevedo.
O investimento será faseado. «No primeiro ano vamos investir até dois milhões de euros, sendo que o investimento poderá, até ao final, ascender até aos cinco milhões de euros», explicou ao Diário de Viseu o administrador e fundador Nuno Simões, que aponta para 10 a 20 novos postos de trabalho numa primeira fase.
O pseudo-satélite que ainda não tem data
Um HAPS é uma aeronave que voa na estratosfera, acima do tráfego aéreo comercial, e faz o trabalho de um satélite a partir de muito mais perto: permanece semanas ou meses sobre uma região, sem o custo de colocar equipamento em órbita.
Em Portugal, a área não começa agora. O INESC TEC participa no AtlantHAPS, um projeto que quer usar plataformas estratosféricas a cerca de 20 quilómetros de altitude para vigilância marítima e monitorização do Atlântico, num país com uma zona económica exclusiva alargada.
O administrador da UAVision condiciona o passo seguinte a fatores que não dependem da empresa: o objetivo é criar o sistema no aeródromo de Viseu, «vendo as condições necessárias por parte das entidades aeronáuticas». O projeto HAPS, na sua globalidade, ronda os 10 milhões de euros, mas em Viseu o investimento será parcelar.
A UAVision, neste momento, está a liderar uma iniciativa que é um projeto de um HAPS, sistema não tripulado de alta altitude, um pseudo-satélite, digamos, que será um sistema inovador em Portugal e na Europa, digo eu. Não há muitos no mundo.
— Nuno Simões, administrador e fundador da UAVision (Lusa)
Ficam em aberto as datas de arranque da produção e do primeiro voo, o modelo concreto do HAPS — não descrito em nenhuma das fontes consultadas — e o papel que as autoridades aeronáuticas terão de autorizar antes de uma aeronave deste tipo poder operar a partir de Viseu.
A empresa que vem de Torres Vedras
Fundada em 2005, a UAVision começou pelo software: desenvolveu um piloto automático próprio, o UXpilot, que a empresa diz estar hoje na nona geração e continua a ser a base de todas as plataformas que fabrica. Só depois vieram as aeronaves.
É fabricante oficial do OGASSA OGS 42, um drone usado pela Força Aérea e pela Marinha portuguesas em missões de vigilância. O catálogo atual inclui ainda o OGASSA HORIZON, apresentado como uma evolução do OGS 42 com asa maior e mais eficiente para ganhar autonomia.
«Estamos na expectativa de poder trazer para aqui uma boa parte do nosso desenvolvimento, no que diz respeito aos sistemas aviónicos, ou seja, todos os sistemas que são necessários para a navegação das aeronaves não-tripuladas que nós fabricamos», disse Nuno Simões.
O responsável descreveu a instalação em Viseu como um «regresso às origens»: a empresa está em Torres Vedras, mas a família é de Mortágua, no mesmo distrito.
Onde a defesa europeia entra
A UAVision chega a Viseu com credenciais na área da defesa. A 17 de julho, a Agência Europeia de Defesa anunciou os vencedores da primeira fase do Sentinel Strike Challenge, um concurso para munições de percurso — drones de ataque que procuram o alvo antes de o atingir.
A empresa portuguesa ficou entre as cinco selecionadas para a segunda fase, ao lado de Helsing (Alemanha), Destinus, C-Astral (Eslovénia) e Spirit Aeronautical Systems. Cada finalista recebe 30 mil euros e o direito de participar na campanha de experimentação operacional EU OPEX26, no outono, no campo militar de Santa Margarida.
O concurso está limitado a munições de percurso de classe I, com massa máxima até 25 quilos e alcance até 40 quilómetros, avaliadas ao longo de todo o ciclo de missão: planeamento, lançamento, deteção e identificação do alvo, seguimento, ataque e avaliação posterior.
O que falta esclarecer
Para o município, o protocolo acrescenta uma empresa de defesa e aeronáutica a um aeródromo até aqui associado sobretudo à aviação ligeira e desportiva e à atividade do Aeroclube de Viseu. Nas fontes consultadas não há indicação de apoios públicos, de prazos de construção nem de contrapartidas financeiras.
As fontes consultadas não esclarecem a duração do protocolo, as obrigações detalhadas de cada parte, o número final de trabalhadores nem o investimento autárquico na infraestrutura. Também não está confirmado que o HAPS venha a operar a partir de Viseu, e não apenas a ser desenvolvido e testado na região.
O que existe hoje é uma assinatura e um compromisso de investimento faseado. A parte mais visível — a fábrica a produzir e um pseudo-satélite a voar sobre a região — continua dependente de decisões que ainda não foram tomadas nem anunciadas.
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