Homem de fato, com capacete branco e lanterna na testa, segura uma ferramenta de ligação e sorri junto a um grande componente cilíndrico metálico de um acelerador, num túnel iluminado por lâmpadas

Fotografia: CERN — Mark Thomson, director-geral do CERN, no túnel do LHC a 17 de Setembro de 2026, no início da desmontagem dos troços que vão ser substituídos pelos componentes do HiLumi LHC (termos de utilização do CERN: uso informacional com crédito, copyright do CERN). A imagem mostra o túnel e o equipamento no arranque dos trabalhos; não mostra os ímanes a serem retirados.

🔬 Ciência

CERN retira 28 ímanes do LHC: a máquina só volta a colidir em 2030

Desde 7 de Setembro, equipas do CERN desmontam os troços do LHC de um lado e do outro do ATLAS e do CMS, as duas maiores experiências do acelerador. O objectivo é retirar 28 ímanes supercondutores, incluindo os tripletos internos — grupos de três quadrupolos que apertam o feixe antes de cada colisão.

É o arranque visível da terceira paragem longa do LHC, a Long Shutdown 3, que começou a 29 de Junho e pode durar até quatro anos. A 17 de Setembro, o director-geral do CERN, Mark Thomson, desceu ao túnel para assinalar o início dos trabalhos.

O que sai do túnel e o que entra

Além dos 28 ímanes, vão ser instalados 16 criostatos e 28 montagens criogénicas nas zonas onde o feixe é apertado. Os primeiros quadrupolos novos só devem chegar no início de 2029 — e é este calendário que explica porque é que a paragem começada este ano só termina em 2030.

Ímanes a substituir28 supercondutores, incluindo os tripletos internos
Criostatos a instalar16, com 28 montagens criogénicas
Campo dos novos quadrupolos11,3 T, cerca de 40% mais forte
Luminosidade instantânea prevista5 a 7,5 vezes o valor nominal do LHC
Dados acumulados previstosdez vezes o projecto original, em cerca de doze anos
Início da Long Shutdown 329 de Junho de 2026
Regresso das colisõesmeados de 2030

No total, mais de 1,2 quilómetros do anel de 27 quilómetros vão ser desmontados e substituídos. O LHC não é o único parado: todo o complexo de aceleradores está em manutenção e consolidação, e instalações de experiências como o ISOLDE e o North Area estão em obras.

Porque é que a máquina tem de ser aberta

Um acelerador vale pelo número de colisões que acumula. Para o aumentar, é preciso apertar mais os feixes nos pontos onde eles se cruzam — e isso depende precisamente dos quadrupolos que estão a ser retirados.

Os ímanes novos usam bobinas de nióbio-estanho e atingem 11,3 tesla, cerca de 40% mais campo do que os actuais. Com o feixe mais apertado, o ATLAS e o CMS recolhem mais dados no mesmo tempo de operação.

O LHC não está a ser demolido: está a ser aberto. Durante vários anos não há colisões novas, o que sai agora do túnel só regressa em 2029 e a máquina deve voltar a operar em 2030 com dez vezes mais dados acumulados do que o projecto original previa.

Detectores novos, electrónica nova

O upgrade não é só dos ímanes. As experiências vão receber detectores e electrónica de leitura capazes de aguentar muito mais colisões em simultâneo — até 200 interacções sobrepostas por cruzamento de feixes, segundo a equipa do LIP que trabalha no CMS.

Duas secções circulares de ímanes do LHC expostas numa parede: à esquerda, o dipolo principal, com dois enrolamentos de cobre em torno de dois tubos; à direita, o quadrupolo principal, com dois enrolamentos de cobre em forma de anel

Secções de um dipolo (à esquerda) e de um quadrupolo (à direita) do LHC, com os enrolamentos de cobre à vista. São os quadrupolos que apertam o feixe nos pontos de colisão, e é essa família de ímanes que está a ser retirada do túnel. Fotografia: Ajheindel — Wikimedia Commons (CC0, domínio público).

É aqui que a contribuição portuguesa se vê. O LIP, laboratório de instrumentação e física experimental de partículas, participa no upgrade de fase 2 do ATLAS e do CMS.

No CMS, a equipa portuguesa está associada ao desenvolvimento de circuitos integrados dedicados — ASICs — para a leitura do BTL e para o regulador de baixa tensão do HGCAL, além de detectores de tempo LGAD e de electrónica do ECAL. São todos subsistemas do detector que vai receber o feixe mais apertado.

O projecto português que apoia a participação no upgrade do ATLAS está inscrito no Plano de Recuperação e Resiliência, e a descrição do trabalho aponta para luminosidades até 7,5 vezes acima do valor de projecto do LHC.

O que ainda não está fechado

O CERN não marca um dia para o fim da paragem: fala em «até quatro anos» e num regresso faseado do complexo a partir de meados de 2028, com o LHC a voltar a colidir em meados de 2030 já como High-Luminosity LHC.

O financiamento não vem de uma linha única: é o orçamento da organização, alimentado pelos Estados-membros — Portugal é membro do CERN desde 1985. Nesta fase, o que está confirmado é o trabalho físico no túnel, com responsáveis nomeados pelo CERN e datas de chegada de equipamento.

Para quem segue física de partículas, isto significa anos sem colisões novas: os resultados que forem saindo vêm de dados já recolhidos. Para as equipas portuguesas, o trabalho continua longe do túnel — a electrónica dos novos detectores está a ser desenhada enquanto o acelerador está aberto.

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