Vista aérea da costa sul da ilha de Santa Maria, Açores, com os característicos campos em socalcos, arquitectura tradicional de telhados vermelhos e as águas cristalinas do Atlântico. A ilha acolhe o primeiro porto espacial português, em Malbusca. Foto: Jules Verne / Wikimedia Commons (CC BY-SA)
Portugal tem oficialmente um porto espacial. A ilha de Santa Maria, nos Açores, recebeu em Agosto de 2025 a primeira licença nacional para operar um centro de lançamento espacial, emitida pela ANACOM em colaboração com a Agência Espacial Portuguesa. A licença, válida por cinco anos, cobre o centro de lançamento de Malbusca e coloca Portugal no mapa dos países com capacidade de acesso ao espaço a partir do seu próprio território.
Uma placa de betão no meio do Atlântico
O centro de Malbusca é, nesta fase inicial, uma placa de betão com vista para o oceano, num terreno rodeado de vegetação e vacas. Mas a simplicidade da infraestrutura é enganadora: a localização da ilha de Santa Maria, a cerca de 1.500 quilómetros a oeste de Lisboa, oferece vantagens estratégicas que poucos locais na Europa conseguem igualar. Os lançamentos são feitos para sul, sobre oceano aberto, sem sobrevoar território habitado. O clima é ameno, com menos restrições de vento do que as alternativas na Noruega, Suécia ou Escócia. E a ilha já tem infraestrutura de apoio: uma pista de 3.048 metros, um porto de mar, uma estação de rastreio da ESA e duas estações terrestres do sistema de navegação Galileo.
O Atlantic Spaceport Consortium (ASC), liderado por Bruno Carvalho, estima que o desenvolvimento do espaço portuário custará entre 5 e 10 milhões de euros, financiados por investidores privados. A meta é chegar a 12 a 14 lançamentos por ano, com capacidade para até 20 com duas rampas de lançamento.
PERUN: o primeiro foguetão polaco a partir de Portugal
O primeiro cliente confirmado do spaceport de Santa Maria é a polaca SpaceForest, que assinou contrato em Julho de 2025 para lançar o seu foguetão suborbital PERUN a partir dos Açores. O PERUN é um veículo de 11,5 metros de altura, movido a propulsão híbrida (óxido nitroso e parafina modificada — combustível não tóxico), capaz de transportar cargas úteis de até 50 quilogramas até uma altitude de 150 quilómetros, ultrapassando a linha de Kármán (100 km), a fronteira reconhecida do espaço.
Lançamento do foguetão PERUN da SpaceForest a partir da base de Ustka, na costa báltica da Polónia, durante o Flight 3 em Novembro de 2025. O foguetão de propulsão híbrida atingiu 19,3 km de altitude. Foto: SpaceForest
O foguetão já realizou três voos de teste a partir da base polaca de Ustka, o mais recente em Novembro de 2025, durante o qual atingiu 19,3 km de altitude e testou com sucesso os sistemas de segurança, incluindo o sistema de aborto de missão. O voo seguinte, o Flight 4, está planeado para Santa Maria, onde a SpaceForest espera completar a qualificação do veículo e atingir pela primeira vez o espaço. O projeto é cofinanciado pela Agência Espacial Europeia no âmbito do programa Boost!, com um investimento de 2,4 milhões de euros.
Foguetão suborbital PERUN, da empresa polaca SpaceForest, montado na rampa de lançamento durante os testes na base de Ustka, na Polónia. Com 11,5 metros de altura, o PERUN é o primeiro veículo contratado para lançar do porto espacial de Santa Maria. Foto: SpaceForest
Coreia do Sul escolhe Santa Maria para lançamentos orbitais
Em Janeiro de 2026, o spaceport açoriano deu um salto qualitativo ao assinar um contrato de cinco anos com a sul-coreana INNOSPACE. A empresa, que desenvolve os foguetões Hanbit, escolheu Santa Maria como a sua primeira base de lançamento na Europa, com o primeiro voo orbital previsto para o quarto trimestre de 2026. O acordo, válido até 2030, dá à INNOSPACE acesso prioritário à rampa de Malbusca. Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, classificou o contrato como "um forte sinal da confiança internacional nas ambições espaciais de Portugal".
Space Rider: o vaivém europeu vai aterrar nos Açores
Para além dos lançamentos, Santa Maria foi também escolhida como local de aterragem do Space Rider, o veículo orbital reutilizável não tripulado da ESA. O Space Rider será lançado a bordo de um foguetão Vega-C a partir de Kourou, na Guiana Francesa, cumpre missões de curta duração em órbita baixa e regressa à Terra planando até à pista do aeroporto de Santa Maria, onde aterra como um parapente. O voo inaugural está previsto para 2028.
Modelo de teste do Space Rider, o veículo orbital reutilizável não tripulado da ESA, durante montagem no Centro Italiano de Pesquisa Aeroespacial (CIRA). O Space Rider vai aterrar em Santa Maria a partir de 2028. Foto: ESA / CIRA
O ecossistema espacial português
A aposta no espaço não se fica pelo porto de lançamento. A Agência Espacial Portuguesa inaugurou a sua sede em Santa Maria em Novembro de 2024. A ilha acolhe já a Space Forge e a Stellar Kinetics, empresas que se instalaram nos Açores para aproveitar o ecossistema espacial em crescimento. O governo regional dos Açores anunciou um investimento de 15 milhões de euros no Space Hub Açores, um centro tecnológico espacial que inclui um contributo de 3 milhões do executivo regional.
Portugal, que já tinha no seu currículo o primeiro satélite português (PoSat-1) lançado nos anos 90, e que é membro da ESA desde 2000, dá agora um passo que ambicionava há décadas: poder lançar e recuperar veículos espaciais a partir do seu próprio território.
Este local é viável do ponto de vista técnico e económico. Apresenta condições climáticas muito favoráveis face a outras alternativas na Europa. Do ponto de vista da segurança, também tem condições excepcionais: os lançamentos seriam para sul, onde só temos oceano.
— Nuno Ávila, diretor-geral da Deimos Engenharia, em estudo para a ESA (2018)
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