Aldeia de casas brancas e telhados vermelhos no fundo de um vale, com encostas de olival em socalcos e uma mancha de vinha em primeiro plano, sob céu limpo

Fotografia: Vitor Oliveira — Santa Comba da Vilariça, uma das nove freguesias do regadio do Vale da Vilariça, vista das encostas com olival e vinha (Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0). A imagem mostra o vale onde o ensaio decorre; não mostra o projecto, os sensores nem o olival em que o modelo está a ser testado.

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A IA que vai decidir quanta água o olival de Trás-os-Montes precisa

Uma equipa do Centro de Matemática da Universidade do Minho está a construir um sistema de inteligência artificial para prever as necessidades hídricas do olival e, integrado na rega gota-a-gota, controlar a água que cada parcela recebe. O ensaio decorre no Vale da Vilariça, em Trás-os-Montes, e é financiado por 281 643 euros do programa Promove.

O modelo alimenta-se de três camadas de dados: sensores no terreno que medem a humidade do solo e as condições atmosféricas, estações meteorológicas e imagens de satélite. O objectivo não é fazer previsões do tempo, mas responder às duas perguntas do agricultor: quando regar e quanta água aplicar.

Onde a água já é contada

O regadio do Vale da Vilariça estende-se por 2 347,7 hectares em nove freguesias de três concelhos do distrito de Bragança: Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo e Vila Flor. Ali cruzam-se olival, amendoal, pistácio, fruticultura e horticultura, num perímetro com cerca de 600 beneficiários de rega, segundo números divulgados em 2021.

ProjectoIAOlivais — Inteligência Artificial na Optimização da Rega para Olivais Resilientes às Alterações Climáticas
ReferênciaPL24-00057, concurso Promove — Projetos Piloto 2024
PromotorCentro de Matemática da Universidade do Minho (CMAT)
FinanciamentoFundação «la Caixa» e Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT)
CoordenaçãoCecília Coelho (CMAT), com Anabela Fernandes (UTAD/CITAB)
ParceirosAssociação de Agricultores do Vale da Vilariça e Sementinteligente
EnsaioVale da Vilariça, concelho de Vila Flor

A água é o limite do vale. Em Maio de 2026, o município de Alfândega da Fé abriu concurso para alargar o bloco Norte do regadio em 200 hectares, um investimento de 1,8 milhões de euros financiado a 100% pelo Plano Nacional de Regadio.

A Associação de Beneficiários do Vale da Vilariça avisou que o alargamento, sem uma barragem nova, põe em causa culturas permanentes já instaladas. «Vamos ter de dar água sem a ter», disse à Lusa o presidente da associação, Fernando Brás.

A barragem do Cerejal, prevista há anos para reforçar o sistema, não vai avançar, segundo o presidente da Câmara de Alfândega da Fé. «Para a autoridade nacional, era suficiente o alteamento da barragem da Burga», explicou Eduardo Tavares.

A obra da Burga, em curso e liderada pelo município de Vila Flor, sobe o paredão dois metros e aumenta a capacidade de armazenamento em 15%. O autarca de Vila Flor disse à Lusa desconhecer a exclusão da barragem do Cerejal.

Prever não é decidir

O sistema está em construção, e a forma como a equipa recruta mostra em que ponto está. Uma bolsa aberta este ano no CMAT pede um mestre em Matemática ou Informática com experiência em aprendizagem profunda — sinal de que os modelos existem e estão a ser afinados, não de que o produto esteja pronto.

As tarefas da bolsa são cinco: tratar os dados dos sensores, rever técnicas de refinamento de redes neuronais, construir uma interface gráfica multiplataforma, integrar nela os modelos melhorados e escrever o artigo científico que os descreve. A bolsa dura três meses, com início previsto em Setembro de 2026.

O Vale da Vilariça vai ganhar 200 hectares de regadio antes de o modelo que decide a rega estar terminado. Num vale onde a própria associação de regantes diz que já falta água, um sistema que promete gastar menos é, antes de mais, um instrumento de racionamento.
Olival intensivo em linha, com tubos de rega gota-a-gota ao longo do solo e protectores brancos nos troncos das oliveiras, sob céu limpo

Um olival intensivo com rega gota-a-gota em Malpica de Tajo, na província de Toledo, em Espanha. É este tipo de olival — denso, alinhado e regado — que o projecto português quer passar a regar com menos água. A fotografia é espanhola e ilustra a técnica, não o ensaio do Vale da Vilariça. Fotografia: LBM1948 — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

O segundo modelo do projecto não trata de água, mas de potássio — o nutriente ligado à capacidade de a oliveira aguentar períodos de seca —, e o objectivo é recomendar quanto aplicar. A meta declarada é um software de apoio à decisão que junte água e nutrientes no mesmo conselho.

Um país em seca

No fim de Julho de 2026, todo o Portugal continental estava em seca: 60,3% do território em seca moderada, 39,1% em seca fraca e 0,6% em seca severa. As áreas classificadas como normais desapareceram, segundo o índice PDSI do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.

Trás-os-Montes é a segunda região olivícola do país, com 101 mil hectares — 21% do olival nacional —, atrás dos 242 mil do Alentejo. Nessa região, 96% da área continua a ser olival tradicional, e é essa a fatia que a conversão para regadio está a mudar.

A campanha também está a correr a favor. A Olivum, que representa cerca de 70% da produção nacional, prevê que o país extraia cerca de 177 mil toneladas de azeite em 2026/2027, mais 10% do que as 160 mil toneladas da campanha anterior. O calor, diz a associação, está a antecipar a maturação da azeitona.

O que ainda não existe

Não há, para já, um número. O projecto não publicou resultados, não mediu a poupança de água em campo e não tem software disponível: o que existe são modelos em refinamento, dados de sensores a serem tratados e um piloto com anos de calendário pela frente.

Há trabalho parecido noutros lados. O OlivarIA, liderado pela Universidade de Huelva com o INIAV, junta robótica cooperativa e inteligência artificial ao olival em sebe, num projecto ibérico de 743 mil euros que termina no fim de 2026. A diferença do IAOlivais é o foco estreito: a água.

A equipa junta matemática e agronomia. Cecília Coelho coordena pelo CMAT, com Fernanda Costa, Carolina Ribeiro, Susana Faria e Luís L. Ferrás; o CITAB, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, entra pela mão de Anabela Fernandes. A Associação de Agricultores do Vale da Vilariça e a Sementinteligente ligam o modelo ao terreno.

O projecto arrancou a 1 de Setembro de 2024 e tem 41 meses de calendário, até Fevereiro de 2028. Nesse período, o modelo tem de sair do laboratório e provar numa parcela aquilo que promete no papel: que é possível regar o olival transmontano com menos água do que hoje.

Se funcionar, o que se aprender no Vale da Vilariça pode ser aplicado a outros olivais regados do país. Até lá, os dados recolhidos no vale vão alimentando um modelo que ainda não provou, em campo, a água que diz poupar.

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