Uma equipa do Centro de Matemática da Universidade do Minho está a construir um sistema de inteligência artificial para prever as necessidades hídricas do olival e, integrado na rega gota-a-gota, controlar a água que cada parcela recebe. O ensaio decorre no Vale da Vilariça, em Trás-os-Montes, e é financiado por 281 643 euros do programa Promove.
O modelo alimenta-se de três camadas de dados: sensores no terreno que medem a humidade do solo e as condições atmosféricas, estações meteorológicas e imagens de satélite. O objectivo não é fazer previsões do tempo, mas responder às duas perguntas do agricultor: quando regar e quanta água aplicar.
Onde a água já é contada
O regadio do Vale da Vilariça estende-se por 2 347,7 hectares em nove freguesias de três concelhos do distrito de Bragança: Alfândega da Fé, Torre de Moncorvo e Vila Flor. Ali cruzam-se olival, amendoal, pistácio, fruticultura e horticultura, num perímetro com cerca de 600 beneficiários de rega, segundo números divulgados em 2021.
| Projecto | IAOlivais — Inteligência Artificial na Optimização da Rega para Olivais Resilientes às Alterações Climáticas |
|---|---|
| Referência | PL24-00057, concurso Promove — Projetos Piloto 2024 |
| Promotor | Centro de Matemática da Universidade do Minho (CMAT) |
| Financiamento | Fundação «la Caixa» e Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) |
| Coordenação | Cecília Coelho (CMAT), com Anabela Fernandes (UTAD/CITAB) |
| Parceiros | Associação de Agricultores do Vale da Vilariça e Sementinteligente |
| Ensaio | Vale da Vilariça, concelho de Vila Flor |
A água é o limite do vale. Em Maio de 2026, o município de Alfândega da Fé abriu concurso para alargar o bloco Norte do regadio em 200 hectares, um investimento de 1,8 milhões de euros financiado a 100% pelo Plano Nacional de Regadio.
A Associação de Beneficiários do Vale da Vilariça avisou que o alargamento, sem uma barragem nova, põe em causa culturas permanentes já instaladas. «Vamos ter de dar água sem a ter», disse à Lusa o presidente da associação, Fernando Brás.
A barragem do Cerejal, prevista há anos para reforçar o sistema, não vai avançar, segundo o presidente da Câmara de Alfândega da Fé. «Para a autoridade nacional, era suficiente o alteamento da barragem da Burga», explicou Eduardo Tavares.
A obra da Burga, em curso e liderada pelo município de Vila Flor, sobe o paredão dois metros e aumenta a capacidade de armazenamento em 15%. O autarca de Vila Flor disse à Lusa desconhecer a exclusão da barragem do Cerejal.
Prever não é decidir
O sistema está em construção, e a forma como a equipa recruta mostra em que ponto está. Uma bolsa aberta este ano no CMAT pede um mestre em Matemática ou Informática com experiência em aprendizagem profunda — sinal de que os modelos existem e estão a ser afinados, não de que o produto esteja pronto.
As tarefas da bolsa são cinco: tratar os dados dos sensores, rever técnicas de refinamento de redes neuronais, construir uma interface gráfica multiplataforma, integrar nela os modelos melhorados e escrever o artigo científico que os descreve. A bolsa dura três meses, com início previsto em Setembro de 2026.
Um olival intensivo com rega gota-a-gota em Malpica de Tajo, na província de Toledo, em Espanha. É este tipo de olival — denso, alinhado e regado — que o projecto português quer passar a regar com menos água. A fotografia é espanhola e ilustra a técnica, não o ensaio do Vale da Vilariça. Fotografia: LBM1948 — Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).
O segundo modelo do projecto não trata de água, mas de potássio — o nutriente ligado à capacidade de a oliveira aguentar períodos de seca —, e o objectivo é recomendar quanto aplicar. A meta declarada é um software de apoio à decisão que junte água e nutrientes no mesmo conselho.
Um país em seca
No fim de Julho de 2026, todo o Portugal continental estava em seca: 60,3% do território em seca moderada, 39,1% em seca fraca e 0,6% em seca severa. As áreas classificadas como normais desapareceram, segundo o índice PDSI do Instituto Português do Mar e da Atmosfera.
Trás-os-Montes é a segunda região olivícola do país, com 101 mil hectares — 21% do olival nacional —, atrás dos 242 mil do Alentejo. Nessa região, 96% da área continua a ser olival tradicional, e é essa a fatia que a conversão para regadio está a mudar.
A campanha também está a correr a favor. A Olivum, que representa cerca de 70% da produção nacional, prevê que o país extraia cerca de 177 mil toneladas de azeite em 2026/2027, mais 10% do que as 160 mil toneladas da campanha anterior. O calor, diz a associação, está a antecipar a maturação da azeitona.
O que ainda não existe
Não há, para já, um número. O projecto não publicou resultados, não mediu a poupança de água em campo e não tem software disponível: o que existe são modelos em refinamento, dados de sensores a serem tratados e um piloto com anos de calendário pela frente.
Há trabalho parecido noutros lados. O OlivarIA, liderado pela Universidade de Huelva com o INIAV, junta robótica cooperativa e inteligência artificial ao olival em sebe, num projecto ibérico de 743 mil euros que termina no fim de 2026. A diferença do IAOlivais é o foco estreito: a água.
A equipa junta matemática e agronomia. Cecília Coelho coordena pelo CMAT, com Fernanda Costa, Carolina Ribeiro, Susana Faria e Luís L. Ferrás; o CITAB, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, entra pela mão de Anabela Fernandes. A Associação de Agricultores do Vale da Vilariça e a Sementinteligente ligam o modelo ao terreno.
O projecto arrancou a 1 de Setembro de 2024 e tem 41 meses de calendário, até Fevereiro de 2028. Nesse período, o modelo tem de sair do laboratório e provar numa parcela aquilo que promete no papel: que é possível regar o olival transmontano com menos água do que hoje.
Se funcionar, o que se aprender no Vale da Vilariça pode ser aplicado a outros olivais regados do país. Até lá, os dados recolhidos no vale vão alimentando um modelo que ainda não provou, em campo, a água que diz poupar.
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