Grãos de café — a matéria-prima que pode tornar-se fonte de energia limpa
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Borras de café transformadas em biocombustível de alta qualidade em 90 segundos

Uma chávena de café deixa para trás muito mais do que uma mancha nos dentes. As borras — esse resíduo húmido que a maioria deita fora sem pensar — podem tornar-se combustível sólido de alta qualidade em menos tempo do que aquele que se demora a preparar o café.

Uma equipa do Korea Institute of Geoscience and Mineral Resources (KIGAM), liderada pelo Dr. Taejun Park em colaboração com a GodTech Co., Ltd., desenvolveu um processo de pirólise por plasma de chama (FPP) que converte borras de café com 55% de humidade em biochar de qualidade industrial em apenas 90 segundos — sem necessidade de pré-secagem.

Sistema de pirólise por plasma de chama (FPP) desenvolvido pelo KIGAM. À esquerda, o esquema do sistema; à direita, o plasma em operação sobre a biomassa. Crédito: KIGAM / Chemical Engineering Journal (2026)

O problema mundial das borras de café

O consumo global de café gera mais de 10 milhões de toneladas de borras por ano. A maioria acaba em aterros ou é incinerada, libertando gases com efeito de estufa e poluentes. O potencial energético das borras é real — contêm hidrocarbonetos e compostos orgânicos com valor calórico significativo — mas a elevada humidade (cerca de 55%) sempre foi o obstáculo. Os processos convencionais exigem secagem prévia, que consome tanta energia que inviabiliza economicamente a recuperação do resíduo em larga escala.

A equipa coreana eliminou esse passo. O FPP gera plasma a 800-900°C através da combustão de gás de petróleo liquefeito (GPL) e ar comprimido, à pressão atmosférica. As chamas de plasma tratam diretamente a biomassa húmida sem qualquer pré-tratamento.

Antes e depois: 30 gramas de borras de café (esquerda) convertidas em 5 gramas de biochar (direita) — uma redução mássica de 83,3%. Crédito: KIGAM

O efeito pipoca que cria combustível

Durante o processamento, a energia térmica intensa vaporiza rapidamente a humidade retida nas partículas de biomassa. A acumulação de pressão desencadeia micro-explosões — a que os investigadores chamam "efeito pipoca" — que simultaneamente aceleram a carbonização e criam estruturas altamente porosas. Em vez de ser um obstáculo, a humidade torna-se um agente de ativação que acelera as reações e melhora a qualidade do produto final.

O biochar resultante apresenta um poder calorífico de 29,0 MJ/kg — comparável ao da antracite, um dos carvões de maior qualidade — e representa um aumento de 33% face ao valor das borras cruas (21,8 MJ/kg).

Os resultados são impressionantes: o teor de carbono fixo quase triplicou (de 15,6% para 46,2%), o enxofre foi completamente eliminado (zero emissões de SOx durante a combustão), e a área superficial específica aumentou de 1,5 para 115,4 m²/g — o que abre portas para aplicações como carvão ativado ou material de adsorção industrial.

Micrografias SEM (a) e esquema (b) da transformação das borras de café durante o processo FPP. O 'efeito pipoca' é visível aos 90 segundos, com porosidade máxima. Crédito: KIGAM / Chemical Engineering Journal

Mais rápido que qualquer alternativa

A velocidade é uma das maiores vantagens da nova tecnologia. Comparado com a carbonização hidrotérmica (HTC), que requer uma a seis horas, o FPP é 40 a 240 vezes mais rápido. Face à torrefação, que leva pelo menos 30 minutos, é mais de 20 vezes mais rápido. O sistema também produz quase zero fumo ou alcatrão, ao contrário dos métodos convencionais.

Além disso, o processo consome menos energia por depender de plasma gerado por combustão em vez de dispositivos de plasma alimentados a eletricidade. Isto torna-o particularmente adequado para sistemas descentralizados de valorização energética de resíduos — exatamente o tipo de solução que países como Portugal mais precisam.

O que isto significa para Portugal

Cada Português consome cerca de 5 kg de café por ano, o que se traduz em aproximadamente 29 milhões de quilogramas de borras anuais — resíduo que atualmente segue, na sua maioria, para aterro. E este é apenas um dos muitos fluxos de resíduos orgânicos com elevada humidade que o país produz.

Portugal deposita em aterro 59% dos seus resíduos urbanos (dados de 2023), um número que desceu para 54% em 2024 mas que continua muito acima da meta europeia de 10% até 2035. O Orçamento do Estado para 2026 já reconhece o risco de esgotamento iminente da capacidade dos aterros e aponta o Plano de Ação TERRA como resposta estrutural. Tecnologias como o FPP — compactas, rápidas e capazes de processar resíduos húmidos sem pré-secagem — poderiam ter um papel relevante na estratégia nacional de desvio de aterro.

Para além do café, o processo pode ser aplicado a outros resíduos orgânicos húmidos: restos alimentares, lamas de depuração e resíduos agrícolas. Isto abre caminho a sistemas locais de valorização energética, reduzindo custos de transporte e promovendo uma economia circular descentralizada.

«Esta tecnologia apresenta um novo paradigma em que os resíduos deixam de ser vistos como um problema de eliminação e passam a ser encarados como um recurso energético valioso», disse o Dr. Taejun Park. A equipa planeia expandir a tecnologia para vários tipos de resíduos orgânicos e otimizar o processo para comercialização à escala industrial.

O estudo foi publicado no Chemical Engineering Journal (DOI: 10.1016/j.cej.2026.176452), uma das revistas mais conceituadas da engenharia química mundial.

Feito por humanos — Portugal Binário

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