Portugal é o único país da Europa capaz de produzir framboesas 52 semanas por ano — e essa vantagem competitiva está a transformar a fileira dos pequenos frutos num dos setores mais dinâmicos da agricultura nacional. A produção triplicou numa década, as exportações de framboesas, mirtilos e amoras atingiram 398 milhões de euros em 2025 e o impacto económico total da fileira ultrapassou pela primeira vez a barreira dos mil milhões de euros.
Mil milhões de euros com raízes no Alentejo
O estudo "O Impacto Económico do Setor dos Pequenos Frutos em Portugal", elaborado pela EY Parthenon a pedido da Lusomorango e apresentado em junho na Feira Nacional de Agricultura (FNA 2026) com a presença do ministro da Agricultura, José Manuel Fernandes, revela números impressionantes: a fileira gerou 1.037 milhões de euros de impacto económico em 2025, dos quais 76% resultam de efeitos indiretos e induzidos que se propagam por toda a economia.
A produção nacional passou de 27.600 toneladas em 2015 para 91.400 toneladas em 2025 — mais do que triplicou. Em valor, a produção atingiu 580 milhões de euros no ano passado, um crescimento de 72,6% face a 2020. Para 2026, a projeção aponta para um novo recorde: 645 milhões de euros.
52 semanas por ano: a vantagem que ninguém na Europa tem
O sudoeste alentejano, com epicentro em Odemira, beneficia de condições climáticas únicas na Europa que permitem produzir framboesas e amoras durante todo o ano. Enquanto os produtores espanhóis, holandeses ou britânicos estão limitados a ciclos sazonais, as estufas e túneis de produção do Alentejo garantem colheita ininterrupta — 52 semanas, 365 dias por ano.
Esta capacidade resulta de uma combinação de fatores: clima ameno, latitude favorável, e sobretudo investimento em tecnologia de produção protegida — estufas com controlo climático automatizado, túneis de plástico com sistemas de ventilação e arrefecimento, e cultivares selecionadas especificamente para produção contínua. A Driscoll's, multinacional californiana que é a maior produtora mundial de pequenos frutos, instalou em Portugal o seu hub estratégico para o sul da Europa precisamente por esta vantagem única.
Drones, sensores e inteligência artificial no campo
A fileira dos pequenos frutos em Portugal não cresceu apenas à boleia do clima. O salto tecnológico foi decisivo. Os produtores da Lusomorango — a maior organização de produtores nacional do setor das frutas e legumes, com 131,99 milhões de euros de volume de negócios em 2025 — investiram fortemente em agricultura de precisão.
Drones equipados com câmaras multiespectrais sobrevoam regularmente as plantações para monitorizar o vigor vegetativo através do índice NDVI (Normalized Difference Vegetation Index). Estes sensores aéreos detetam stress hídrico, carências nutricionais e focos de doença antes que sejam visíveis a olho nu, permitindo intervenções cirúrgicas. Em vez de pulverizar campos inteiros, os agricultores aplicam fitofármacos apenas nas zonas identificadas — uma redução significativa no uso de produtos químicos que torna a produção mais sustentável e económica.
Sensores IoT de humidade do solo, temperatura e condutividade elétrica estão instalados em centenas de hectares, ligados a sistemas de rega inteligente que ajustam o caudal gota-a-gota em tempo real. Os dados são processados por plataformas de apoio à decisão que combinam informação meteorológica, leituras de sensores e imagens de satélite para otimizar cada rega. O resultado é uma poupança expressiva de água, com impactos reais na sustentabilidade hídrica das explorações.
Há ainda sistemas de recirculação e reaproveitamento de água nas estufas, que captam a água da chuva e reutilizam a drenagem das culturas, fechando o ciclo. E começa a dar os primeiros passos o uso de drones de pulverização de precisão, capazes de aplicar produtos fitossanitários em voo autónomo a baixa altitude, com uma precisão impossível para equipamento terrestre.
Centro de Investigação para a Sustentabilidade: o laboratório vivo de Odemira
No Polo de Inovação da Fataca, em Odemira, funciona desde 2023 o Centro de Investigação para a Sustentabilidade (CIS), um laboratório vivo que resulta de uma parceria entre o INIAV, a Lusomorango, a Driscoll's e a Maravilha Farms. O CIS tem como missão produzir conhecimento científico para apoiar os produtores, testando soluções em condições reais de produção.
Entre as áreas de atuação do CIS estão a eficiência e reutilização hídrica, a redução do uso de pesticidas, o desenvolvimento de sistemas agrivoltaicos (painéis solares compatíveis com a produção agrícola) e a promoção da biodiversidade. Em maio de 2026, o centro formalizou o seu Conselho Consultivo, que reúne especialistas nacionais e internacionais, incluindo o geneticista Bruno Mezzetti (Università Politecnica delle Marche), especialista em melhoramento de pequenos frutos, e o diretor de I&D do Biobest Group. O CIS foi ainda distinguido com o Prémio Sustentabilidade 2025 do COTHN.
Framboesa: a rainha das exportações
A framboesa é a estrela da fileira. Sozinha, representa 23% do valor total das exportações nacionais de fruta, com 258 milhões de euros em vendas ao exterior em 2025 a um preço médio de 8,65 €/kg. O mirtilo segue com 53 milhões de euros (6,59 €/kg). Espanha é o principal destino (37% dos mirtilos, 32% das framboesas), seguida de França, Países Baixos e Alemanha.
Joel Vasconcelos, CEO da Lusomorango, sublinha que o setor "é muito mais do que produção agrícola: é uma fileira económica estruturante, com capacidade para gerar riqueza, emprego, rendimento e receita fiscal em Portugal". E os números dão-lhe razão: a receita fiscal associada ao setor deverá atingir 298 milhões de euros em 2026, com um crescimento médio anual de 8,9% desde 2020.
O desafio da água e a expansão do regadio
O crescimento da fileira coloca pressão sobre os recursos hídricos. O Governo aprovou em janeiro de 2026 o aumento do volume anual de água de Alqueva de 620 para 730 hectómetros cúbicos, dos quais 100 hm³ são para novos regadios. O plano do Governo prevê ainda a expansão da área regada em mais 250.000 hectares até 2050, com um investimento de 965 milhões de euros apenas na primeira fase (50.000 hectares até 2027).
A sustentabilidade deste crescimento é uma preocupação real. O CIS dedica grande parte da sua investigação à eficiência hídrica e ao desenvolvimento de sistemas de rega cada vez mais precisos, que permitam produzir mais com menos água. Os resultados estão à vista: nos blocos de produção mais tecnológicos do sudoeste alentejano, o consumo de água por quilo de fruta produzido tem registado uma redução consistente nos últimos cinco anos.
Com 645 milhões de euros de produção projetada para 2026, exportações a triplicar em dez anos, uma vantagem competitiva única na Europa e um ecossistema de inovação que junta produtores, multinacionais, centros de investigação e tecnologia de ponta — dos drones aos sensores IoT — a fileira dos pequenos frutos é, hoje, um dos casos de sucesso mais sólidos da agricultura portuguesa.
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