Atirador em posição durante prova de Field Target no Alentejo — tiro desportivo com carabina de ar comprimido.
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Desmistificar o Tiro Desportivo em Portugal: Para Todas as Idades, Todas as Carteiras — e Não Só Armas de Fogo

Quando se fala em tiro desportivo em Portugal, o imaginário colectivo salta logo para armas de fogo, calibres restritos, licenças complicadas e um desporto caro e fechado. Mas a realidade é bem diferente. O tiro desportivo é muito mais vasto, mais acessível e mais inclusivo do que a maioria imagina. E a prova disso chama-se Field Target.

O Field Target é uma modalidade de tiro praticada com carabinas de ar comprimido — sim, daquelas que muitos conhecem como «carabinas de chumbos», mas que neste desporto atingem níveis de precisão e exigência técnica que rivalizam com qualquer outra disciplina de tiro. E o melhor: não precisa de licença de uso e porte de arma para praticar, porque as carabinas de ar comprimido até 24 joules são de aquisição livre em Portugal.

Atirador em posição sentada, durante prova de Field Target no montado alentejano. Concentração, precisão e muito respeito pela natureza.

Afinal, o que é o Field Target?

Imagine um percurso ao ar livre, montado no meio de um montado de sobro ou azinho, onde dezenas de alvos metálicos — silhuetas de animais — estão espalhados a distâncias que podem ir dos 7 aos 60 metros. Cada alvo tem um diâmetro variável e uma distância que o atirador tem de estimar por si próprio, porque as distâncias não são anunciadas. O objetivo? Acertar no maior número possível de alvos, com o mínimo de tiros, usando apenas a carabina e a sua capacidade de ler o terreno.

Esta é a essência do Field Target: interpretar o terreno, calcular a distância, compensar o vento, controlar a respiração e executar o tiro. É técnica, paciência e estratégia — um verdadeiro desporto de precisão ao ar livre, onde o atleta compete tanto contra os alvos como contra si próprio.

Há duas grandes categorias de carabinas usadas: as PCP (Pre-Charged Pneumatic — ar pré-comprimido) e as clássicas de cano articulado (springer). As potências variam entre 7 e 24 joules, e os calibres mais comuns são o 4,5mm (.177) e o 5,5mm (.22). Sim, munições de chumbo — as mesmas que se compram em qualquer loja de desporto ou loja de caça.

Carabinas de ar comprimido de entrada de gama — Hatsan e Verney-Carron — equipadas com miras ópticas. Equipamento acessível para quem quer começar no desporto.

Para todas as idades e todas as carteiras

Um dos maiores equívocos sobre o tiro desportivo é que é caro e exclusivo. No Field Target, a realidade é oposta. Uma carabina de entrada de gama, como as Hatsan ou Verney-Carron que se veem nas imagens desta prova, custa o equivalente a um jantar fora para a família — e dá resultados perfeitamente competitivos para quem está a começar. O equipamento usado nesta modalidade pode ser tão simples ou sofisticado quanto o atirador quiser, mas a verdade é que há material de entrada a preços muito acessíveis.

E as idades? Na prova deste artigo, viu-se Francisco Corado, Sara Lago e João Lago — pai e filha. Sim, pai e filha a competir lado a lado, na mesma prova. O tiro desportivo é um desporto familiar, que se pratica dos 10 aos 80 anos, sem limite de idades. E as senhoras? Cada vez mais presentes, como demonstra a Sara, a competir com os melhores.

Da esquerda para a direita: Francisco Corado (agricultor, produtor de vaca Limusine de alta qualidade), Sara Lago (atiradora) e João Lago (agricultor e Cozinheiro). Ambos os empresários agrícolas cedem culturalmente os seus terrenos para a realização das provas de Field Target — um gesto que merece o nosso profundo agradecimento.

Federado, mas aberto a todos

O Field Target é um desporto reconhecido pela Federação Portuguesa de Tiro (FPT) e segue o regulamento da World Field Target Federation (WFTF). Cada prova tem um marshal / árbitro da FPT, que garante o cumprimento das regras e a segurança de todos os participantes. Mas uma das grandes vantagens é que, ao lado das competições federadas, existem actividades abertas («Open») especificamente pensadas para desafiar quem nunca experimentou — e convidá-lo a imergir na prática.

Marshal / árbitro da Federação Portuguesa de Tiro (FPT) durante a prova — colete WFTF e crachás que atestam a seriedade da competição.

Nas posições de tiro — sentado, ajoelhado ou em pé — os atiradores enfrentam alvos colocados a distâncias que não são reveladas, para aumentar a dificuldade e testar a capacidade de leitura de terreno de cada um. O atirador precisa de estimar a distância, ajustar a mira (sim, aquele alumínio na torre da mira que se vê nas fotos ajuda a combater a oscilação térmica da própria mira) e compensar os fatores ambientais antes de cada tiro.

Pormenor da mira com alumínio na torre — ajuda a combater a oscilação térmica e garante maior precisão em provas longas ao ar livre.

As posições de tiro variam para incrementar a dificuldade: sentado, ajoelhado e por vezes até em pé. Cada alvo — a diferentes distâncias e com diferentes diâmetros — exige uma abordagem diferente. E os atiradores adaptam-se, mostrando que este desporto é muito mais físico do que parece.

Vários atiradores em diferentes posições de tiro — ajoelhado, sentado e em pé — mostrando a diversidade física e técnica do Field Target.

Alvos metálicos espalhados pelo montado alentejano — distâncias não anunciadas, dos 7 aos 60 metros, com diferentes graus de dificuldade.

O convívio é parte do desporto

Se há coisa que o Field Target tem de especial, para além da competição, é a componente social. Esta prova foi realizada no Magnífico Alentejo, nas propriedades de Francisco Corado (produtor de vaca Limusine de alta qualidade) e de João Lago (agricultor e Cozinheiro), que abriram as portas das suas terras para receber atletas de Portugal e Espanha. O ambiente é de tal maneira acolhedor que mais parece um encontro de amigos do que uma competição federada.

Há sempre café, comes e bebes à disposição — gentilmente cedidos pelo Clube TADC (Tiro Desportivo) — e no final, um almoço típico no sertão alentejano. Desta vez, o almoço teve patrocínio do Mourato Leitões, de Portalegre, que trouxe o sabor genuíno do Alto Alentejo para a mesa dos atletas. Enchidos, queijos, pão alentejano, e claro, o leitão — uma refeição à altura das planícies que serviram de cenário à prova.

Patrocínio do Mourato Leitões (Portalegre) — o típico almoço alentejano que encerra cada prova de Field Target com chave de ouro.

E porque desporto também é convívio, atletas federados Portugueses e Espanhóis marcaram presença nesta prova, confraternizando entre séries de tiro, partilhando dicas e celebrando a paixão comum pelo tiro desportivo num ambiente que mais parece uma tertúlia alentejana com carabinas à mistura.

Atletas federados Portugueses e Espanhóis na prova de Field Target — o desporto une fronteiras e gerações.

Comes e bebes cedidos pelo Clube TADC — café, cerveja e petiscos fazem parte da experiência, entre uma série e outra.

Porque vale a pena experimentar

O tiro desportivo em Portugal merece ser desmistificado. Não é um desporto de elites, não é exclusivo a armas de fogo, não é caro, não é perigoso quando praticado com responsabilidade — e é para todos. Se tem 10 ou 80 anos, se é homem ou mulher, se tem 100 ou 1000 euros para investir, há um lugar no Field Target para si.

O melhor de tudo é que, para experimentar, basta aparecer. As provas Open são feitas para isso: para desafiar pessoas de todas as idades a entrar no mundo do tiro desportivo. E depois há o Alentejo. O montado. O silêncio entre os tiros. O cheiro a terra seca e a sobreiro. O café ao meio da manhã. O almoço com os amigos no final. Não é só tiro — é uma experiência.

E se ficou com curiosidade, fale com o TADC, procure a Federação Portuguesa de Tiro (FPT) ou a Associação Portuguesa de Field Target. O próximo Open pode estar mesmo à sua espera — e quem sabe, da próxima vez é o seu nome na lista de atiradores.

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