Quando as acções da SpaceX abriram a 150 dólares na manhã de 12 de Junho de 2026 — 11% acima do preço da IPO de 135 dólares — Elon Musk tornou-se oficialmente a primeira pessoa na história humana a possuir uma fortuna superior a 1 bilião de dólares. A Reuters chamou-lhe "o primeiro trilionário". Esta é a história de como lá chegou. E de como quase não chegou.
A Forbes estimou a sua riqueza em 1,1 biliões. A Bloomberg em 971 mil milhões. O New York Times noticiou que a sua fortuna é maior do que o PIB de Taiwan, Irlanda, Suécia e Singapura juntos. Mas a fortuna nunca foi o mais interessante sobre ele. O mais interessante é como um miúdo que foi atirado escada abaixo por bullies na escola, que viu três foguetões explodirem consecutivamente, que esteve a horas de perder tudo na véspera de Natal de 2008, que dormiu no chão de uma fábrica a semanas da falência — se tornou o homem mais rico que alguma vez existiu.
I. O Menino de Pretória
O refúgio de Musk quando criança — Devorava enciclopédias e ficção científica. Dizia que "O Guia do Mochileiro das Galáxias" e a série "Fundação" moldaram a sua visão do mundo.
Elon Reeve Musk nasceu a 28 de Junho de 1971 em Pretória, África do Sul, num país então mergulhado no apartheid. A mãe, Maye Musk, era modelo e nutricionista canadiana. O pai, Errol Musk, era engenheiro electromecânico e teve participação em minas de esmeraldas na Zâmbia. A família vivia numa casa ampla no bairro abastado de Waterkloof.
O jovem Elon não era como as outras crianças. Passava horas imerso nos livros — lia enciclopédias inteiras, a trilogia Fundação de Isaac Asimov, O Guia do Mochileiro das Galáxias. Os pais levaram-no ao médico para testar a audição, tantas vezes ele não respondia quando lhe chamavam. Maye Musk recordou: "Ele estava sempre a sonhar acordado, a planear invenções na cabeça."
Musk estudou na Queen's University (Canadá) e na Universidade da Pensilvânia, onde se formou em Física e Economia.
Aos 10 anos, ganhou o primeiro computador — um Commodore VIC-20, com 5 KB de RAM. Ensinou-se a programar sozinho. Dois anos depois, criou o Blastar, um jogo estilo Space Invaders, e vendeu-o à revista PC and Office Technology por 500 dólares (cerca de 1600 dólares actuais).
A escola era um inferno. Pequeno, introvertido e intelectual, era alvo constante de bullying. Um dia, um grupo de rapazes atirou-o escada abaixo. Ficou hospitalizado. "Eles bateram tanto nele que ele demorou uma semana a recuperar", conta o irmão Kimbal. Aos 15 anos, disparou em altura e aprendeu karaté — o assédio diminuiu.
Quando era miúdo, não fazia ideia do que queria ser. Mas sabia que tinha de estar nos Estados Unidos. Era lá que as grandes coisas aconteciam.
— Elon Musk, 2013
Aos 17 anos, emigrou sozinho para o Canadá, usando o passaporte canadiano da mãe, para evitar o serviço militar no regime do apartheid. Chegou a Montreal sem casa. Trabalhou a limpar caldeiras, a serrar madeira. Estudou na Queen's University e depois na Universidade da Pensilvânia, onde completou Física e Economia. Em 1995, chegou a Stanford para um doutoramento em energia. Durou dois dias. A internet estava a explodir.
II. O Primeiro Milhão
Musk e o irmão Kimbal fundaram a Zip2, software de guias de cidade online para jornais. O escritório era um quarto alugado. Elon dormia no sofá, tomava banho no ginásio da YMCA e programava de noite, enquanto o computador servia de servidor durante o dia.
Em 1999, a Compaq comprou a Zip2 por 307 milhões de dólares. Musk, 28 anos, recebeu 22 milhões. Fundou a X.com, uma plataforma de pagamentos online que permitia enviar dinheiro com um e-mail. A empresa fundiu-se com a Confinity e tornou-se o PayPal. Em 2000, enquanto Musk viajava em lua-de-mel, o conselho demitiu-o. Em 2002, o eBay comprou o PayPal por 1,5 mil milhões de dólares. Musk, maior accionista, recebeu entre 165 e 180 milhões.
Elon Musk — O engenheiro e empresário sul-africano que viria a revolucionar os transportes terrestres e espaciais. Fonte: Royal Society / Wikimedia Commons (CC BY-SA)
Mas o dinheiro não era para descansar. Em Fevereiro de 2004, Musk liderou a ronda de investimento inicial da Tesla Motors — uma pequena startup de Silicon Valley que queria construir carros eléctricos desportivos — e assumiu a presidência do conselho de administração. Com 6,3 milhões de dólares investidos, tornou-se o maior accionista e o homem no comando estratégico da empresa. Não sabia ainda que a Tesla o levaria à beira da falência, à glória, e a uma guerra de vida ou morte com Wall Street.
Tinha 31 anos. Podia reformar-se. Em vez disso, fez a coisa mais irracional que um homem rico pode fazer: decidiu ir para Marte.
III. O Sonho Que Quase Matou o Sonhador
Falcon 9 da SpaceX a descolar de Cabo Canaveral, Florida — Foguetão reutilizável que revolucionou o acesso ao espaço. Fonte: NASA / Rick Wetherington, Tim Powers e Tim Terry
Em 2001, Musk foi a Moscovo comprar foguetões russos. Gozaram com ele: "Miúdo, não tens dinheiro para isto." No voo de regresso, fez contas: as matérias-primas custavam 3% do preço. Em Maio de 2002, fundou a SpaceX.
O primeiro lançamento do Falcon 1, em 2006: explodiu 25 segundos após o lançamento. A segunda tentativa, em 2007: falhou. A terceira, em Agosto de 2008: o foguetão desintegrou-se a meio do voo. Restava dinheiro para um lançamento — e apenas um. Musk investira 100 milhões de dólares do próprio bolso.
Entretanto, a Tesla sangrava dinheiro. A crise de 2008 devastara a economia. Musk tinha 40 milhões em liquidez. Podia dar tudo à SpaceX e a Tesla morria. Tudo à Tesla e a SpaceX morria. Dividindo, ambas podiam morrer. "Debati essa decisão vezes sem conta." O primeiro filho, Nevada, morrera subitamente com 10 semanas (SIDS). O casamento terminava num divórcio público. Musk dormia no chão da fábrica.
I could either pick SpaceX or Tesla or split the money I had left between them. If I split the money, maybe both of them would die. I debated that over and over.
— Elon Musk, citado na biografia de Ashlee Vance (2015)
IV. O Milagre de Natal (2008)
A 28 de Setembro de 2008, o quarto lançamento do Falcon 1 — o último — foi bem-sucedido. A SpaceX tornou-se a primeira empresa privada a colocar um foguetão em órbita. Dias depois, a NASA ofereceu um contracto de 1,6 mil milhões de dólares. Musk mal conseguiu segurar o telefone: "Acho que disse: 'Adoro-vos, rapazes'."
Mas a Tesla continuava à beira do precipício. Em Dezembro, a empresa tinha 9 milhões em caixa — insuficiente para pagar salários. O investidor Alan Salzman, da VantagePoint Capital, bloqueava nova ronda e tentava remover Musk. Kimbal Musk impediu a votação.
Véspera de Natal, 2008, 14h00. Musk reformulou o plano: converter dívida em acções. Numa conferência telefónica decisiva, Salzman cedeu. A ronda fechou às 18h00 de 24 de Dezembro de 2008. "Dois dias depois, o salário teria ressaltado", escreveu Musk. Quando desligou, chorou.
V. O Inferno de Produção e a Guerra dos Shorts
Entre 2017 e 2019, a Tesla enfrentou o "production hell". O Model 3 era montado em tendas. Musk dormia no chão, trabalhava 120 horas por semana, soldava peças quando os robôs avariavam.
Os short-sellers nunca tinham sido tantos. David Einhorn comparou a Tesla ao Lehman Brothers. Jim Chanos, que antecipara a Enron, apostava contra. Michael Burry, o "Big Short", juntou-se. Em 2019, a Tesla era o título mais shortado da História — mais de 30 mil milhões de dólares contra Musk.
Musk odiava-os com paixão. Vendia calções vermelhos ("Short Shorts") no site da Tesla. Chamou à SEC — que o multara em 20 milhões pelo tweet "funding secured" — a "Shortseller Enrichment Commission". Em 2020, a Tesla tornou-se lucrativa. Os shorts perderam 40 mil milhões de dólares.
VI. O Jogador que Nunca Para
Musk nunca parou. Criou a Neuralink (implantes cerebrais, primeiro implante humano em Janeiro de 2024), a Boring Company (túneis), co-fundou a OpenAI (depois abandonou-a). Em 2022, comprou o Twitter por 44 mil milhões e transformou-o em X.
Em 2024, apoiou Donald Trump com 300 milhões de dólares e liderou o DOGE, cortando desperdício federal. Em Fevereiro de 2026, a SpaceX fundiu-se com a xAI, avaliando o conjunto em 1,25 biliões antes da IPO.
VII. O Dia em que a História Mudou
IPO da SpaceX na Nasdaq, Times Square, Nova Iorque — 12 de Junho de 2026. O dia em que Elon Musk se tornou o primeiro trilionário da História. Fonte: TechCrunch / Getty Images / AFP / Timothy A. Clary
A 12 de Junho de 2026, a SpaceX abriu na Nasdaq sob o símbolo SPCX. Oferta a 135 dólares. Abertura a 150. Fecho a 161,11 — +20%. A IPO levantou 75 mil milhões — mais do dobro do recorde da Saudi Aramco. A SpaceX ficou avaliada em 2,1 biliões de dólares. Foi a maior IPO da História.
De Starbase, Texas, Musk tocou o sino por videoconferência. Times Square inteira coberta de ecrãs SpaceX. Com 38% da SpaceX, Musk viu a fortuna atingir 1,1 a 1,26 biliões — mais do que os quatro homens mais ricos a seguir-lhe juntos: Larry Page, Sergey Brin, Jeff Bezos e Larry Ellison.
It is certainly hard to believe that a little company that started in a warehouse in El Segundo is now going public with the largest IPO ever. I gave SpaceX less than a 10% chance of succeeding at all.
— Elon Musk, 12 de Junho de 2026, no dia da IPO da SpaceX
VIII. Epílogo
Há uma imagem que circula na internet: Musk sentado no chão da fábrica da SpaceX, durante um lançamento falhado, rosto nas mãos. Devia 100 milhões a si próprio, os empregados olhavam-no com esperança e medo, e o mundo ria-se do "bilionário do PayPal que achava que conseguia construir foguetões."
Menos de 18 anos depois, era o primeiro trilionário. Não por herança, não por sorte. Porque quando os russos se riram, construiu foguetões. Quando os shorts apostaram contra, venceu. Quando a falência bateu à porta na véspera de Natal, recusou. Não é santo nem vilão. É um sobrevivente.
Um jornalista perguntou-lhe se ser trilionário o fazia sentir diferente. Musk encolheu os ombros: "O objectivo sempre foi Marte. Se para isso for preciso ser trilionário, que seja." 🚀
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!