O Solar Orbiter atravessou um switchback — uma dobra no campo magnético que acompanha o vento solar — a 0,55 unidades astronómicas do Sol, mais de metade do caminho até à Terra. Dentro dele mediu iões pesados que trazem o rasto do sítio onde aquele plasma nasceu.
Os switchbacks são vistos com frequência perto do Sol, mas continuam sem explicação fechada. Uma parte da resposta esteve em 2022, quando o Solar Orbiter confirmou que têm forma de S — algo que os modelos previam e que nunca tinha sido visto em directo.
A novidade agora é a composição do plasma dentro do switchback. O oxigénio e o carbono apareceram com razões de estado de carga elevadas e o hélio estava empobrecido em relação aos protões. Essa combinação só se produz em laços coronais quentes e fechados.
O que o rasto químico indica: plasma preso num laço fechado é ejectado quando o laço se reconecta com uma linha de campo aberta, deixando no vento solar uma dobra em S.
Crédito: Esquema: Portugal Binário, a partir de Coburn et al., Nature Astronomy, 8 out 2026, e do comunicado da ESA
O mecanismo tem nome: reconexão intercambiante. Na coroa há regiões abertas, com linhas de campo que se estendem para o espaço, e regiões fechadas, onde as linhas voltam a fechar-se em laços. Quando uma encontra a outra, as linhas reconectam-se e o plasma preso escapa.
Não é um mecanismo, são dois
Havia duas teorias em competição para a formação dos switchbacks: a reconexão, e os processos ligados a ondas e turbulência. Os dados deste episódio sugerem que as duas estão certas — em momentos diferentes. As flutuações observadas são compatíveis com uma onda de Alfvén a propagar-se para fora.
Depois de o switchback deixar o Sol, as ondas e a turbulência assumem o controlo e governam o seu movimento.
— Stephanie YardleyNorthumbria University, co-autora do estudo — comunicado da ESA, traduzido do inglês
Em resumo: a reconexão intercambiante explica de onde vem o switchback; as ondas e a turbulência explicam como viaja. A conclusão reconcilia duas décadas de debate e usa a composição química do plasma como prova.
| Missão | Solar Orbiter (ESA, com participação da NASA) |
|---|---|
| Distância no momento da medição | 0,55 unidades astronómicas |
| Instrumento | Solar Wind Analyser (SWA) |
| Assinatura da origem | razões de estado de carga elevadas de oxigénio e carbono; hélio empobrecido em relação aos protões |
| Origem indicada | fronteira de um buraco coronal ou laços dentro dele |
| Mecanismo apontado | reconexão intercambiante |
| Propagação | compatível com uma onda de Alfvén a sair |
| Publicação | Nature Astronomy, 8 de outubro de 2026 |
Como se chegou lá
A equipa juntou três coisas: as partículas medidas no local pelo instrumento SWA, imagens do disco solar e modelação dos campos magnéticos do Sol e do espaço em volta. Depois construiu um modelo coronal semi-empírico para descobrir de onde vinha aquele plasma.
Esse modelo foi limitado por medições de temperatura e densidade dos electrões feitas pelo Solar Dynamics Observatory, da NASA. Foi assim que as assinaturas iónicas foram ligadas a uma região concreta: a fronteira de um buraco coronal, ou laços dentro do próprio buraco.
Porque é que isto interessa
O vento solar é o que liga a Terra ao Sol, e perceber como é aquecido e acelerado tem consequências práticas: o clima espacial pode danificar satélites, redes eléctricas e comunicações. «As nossas vidas estão entrelaçadas com o que acontece na nossa estrela», disse Daniel Müller, cientista do projecto Solar Orbiter na ESA.
Há ainda uma consequência de método: se as partículas guardam a assinatura do local onde nasceram, então é possível ler a história de um plasma muito longe do Sol — em vez de ter de o seguir desde a origem.
O que falta saber
Isto é um switchback, não todos. O resultado descreve uma travessia e uma origem; não estabelece que todos os switchbacks nasçam assim. Os próprios autores mantêm duas hipóteses para o local exacto de origem, e o vínculo ao mecanismo vem de um modelo, não de uma observação directa da reconexão.
O passo seguinte é repetir. Se a assinatura química é estável, outros switchbacks medidos por outras naves devem mostrar o mesmo rasto — e é isso que transforma uma explicação elegante numa regra.
Vale a pena guardar a escala: a sonda estava a mais de 80 milhões de quilómetros do Sol quando apanhou este pedaço de plasma a passar. Ainda assim, conseguiu dizer de que parte da superfície ele tinha saído.
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