Imagem do Sol em ultravioleta extremo sobre fundo escuro: um disco densamente texturado em tons de laranja e dourado, com regiões brilhantes e filamentos escuros, rodeado por laços e penachos de plasma que se estendem para fora do limbo

O Sol visto pelo Solar Orbiter (EUI): ESA & NASA/Solar Orbiter/EUI Team — Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 IGO)

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O Solar Orbiter apanhou um switchback a nascer na coroa do Sol

O Solar Orbiter atravessou um switchback — uma dobra no campo magnético que acompanha o vento solar — a 0,55 unidades astronómicas do Sol, mais de metade do caminho até à Terra. Dentro dele mediu iões pesados que trazem o rasto do sítio onde aquele plasma nasceu.

Os switchbacks são vistos com frequência perto do Sol, mas continuam sem explicação fechada. Uma parte da resposta esteve em 2022, quando o Solar Orbiter confirmou que têm forma de S — algo que os modelos previam e que nunca tinha sido visto em directo.

A novidade agora é a composição do plasma dentro do switchback. O oxigénio e o carbono apareceram com razões de estado de carga elevadas e o hélio estava empobrecido em relação aos protões. Essa combinação só se produz em laços coronais quentes e fechados.

Esquema com a superfície solar na base, uma faixa escura marcada como buraco coronal à direita, quatro linhas de campo abertas a subir, um laço fechado à esquerda, um X vermelho marcado como reconexão no ponto em que o laço encontra a linha aberta e uma curva laranja em forma de S a afastar-se para o canto superior direito, com uma seta cinzenta a indicar o vento solar

O que o rasto químico indica: plasma preso num laço fechado é ejectado quando o laço se reconecta com uma linha de campo aberta, deixando no vento solar uma dobra em S.

Crédito: Esquema: Portugal Binário, a partir de Coburn et al., Nature Astronomy, 8 out 2026, e do comunicado da ESA

O mecanismo tem nome: reconexão intercambiante. Na coroa há regiões abertas, com linhas de campo que se estendem para o espaço, e regiões fechadas, onde as linhas voltam a fechar-se em laços. Quando uma encontra a outra, as linhas reconectam-se e o plasma preso escapa.

Não é um mecanismo, são dois

Havia duas teorias em competição para a formação dos switchbacks: a reconexão, e os processos ligados a ondas e turbulência. Os dados deste episódio sugerem que as duas estão certas — em momentos diferentes. As flutuações observadas são compatíveis com uma onda de Alfvén a propagar-se para fora.

Depois de o switchback deixar o Sol, as ondas e a turbulência assumem o controlo e governam o seu movimento.

— Stephanie Yardley

Northumbria University, co-autora do estudo — comunicado da ESA, traduzido do inglês

Em resumo: a reconexão intercambiante explica de onde vem o switchback; as ondas e a turbulência explicam como viaja. A conclusão reconcilia duas décadas de debate e usa a composição química do plasma como prova.

MissãoSolar Orbiter (ESA, com participação da NASA)
Distância no momento da medição0,55 unidades astronómicas
InstrumentoSolar Wind Analyser (SWA)
Assinatura da origemrazões de estado de carga elevadas de oxigénio e carbono; hélio empobrecido em relação aos protões
Origem indicadafronteira de um buraco coronal ou laços dentro dele
Mecanismo apontadoreconexão intercambiante
Propagaçãocompatível com uma onda de Alfvén a sair
PublicaçãoNature Astronomy, 8 de outubro de 2026

Como se chegou lá

A equipa juntou três coisas: as partículas medidas no local pelo instrumento SWA, imagens do disco solar e modelação dos campos magnéticos do Sol e do espaço em volta. Depois construiu um modelo coronal semi-empírico para descobrir de onde vinha aquele plasma.

Esse modelo foi limitado por medições de temperatura e densidade dos electrões feitas pelo Solar Dynamics Observatory, da NASA. Foi assim que as assinaturas iónicas foram ligadas a uma região concreta: a fronteira de um buraco coronal, ou laços dentro do próprio buraco.

Porque é que isto interessa

O vento solar é o que liga a Terra ao Sol, e perceber como é aquecido e acelerado tem consequências práticas: o clima espacial pode danificar satélites, redes eléctricas e comunicações. «As nossas vidas estão entrelaçadas com o que acontece na nossa estrela», disse Daniel Müller, cientista do projecto Solar Orbiter na ESA.

Há ainda uma consequência de método: se as partículas guardam a assinatura do local onde nasceram, então é possível ler a história de um plasma muito longe do Sol — em vez de ter de o seguir desde a origem.

O switchback leva consigo o bilhete de identidade do sítio onde nasceu. Foi isso que permitiu separar, pela primeira vez, o que o faz nascer do que o faz viajar.

O que falta saber

Isto é um switchback, não todos. O resultado descreve uma travessia e uma origem; não estabelece que todos os switchbacks nasçam assim. Os próprios autores mantêm duas hipóteses para o local exacto de origem, e o vínculo ao mecanismo vem de um modelo, não de uma observação directa da reconexão.

O passo seguinte é repetir. Se a assinatura química é estável, outros switchbacks medidos por outras naves devem mostrar o mesmo rasto — e é isso que transforma uma explicação elegante numa regra.

Vale a pena guardar a escala: a sonda estava a mais de 80 milhões de quilómetros do Sol quando apanhou este pedaço de plasma a passar. Ainda assim, conseguiu dizer de que parte da superfície ele tinha saído.

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