Foguetão Falcon 9 a descolar de noite do complexo de lançamento 40, em Cabo Canaveral, com a coluna de fumo iluminada pelos motores

Fotografia de arquivo: um Falcon 9 com 23 satélites Starlink descola do SLC-40, em Cabo Canaveral, a 30 de Março de 2024 — Joshua Conti/U.S. Space Force (domínio público), via Wikimedia Commons

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SpaceX compra 800 MHz à Grain e quer ser operadora móvel nos EUA

A Grain Management anunciou a 8 de Outubro um acordo definitivo para vender à SpaceX a carteira nacional de espectro de 800 MHz nos Estados Unidos. São até 14 MHz emparelhados de baixa frequência: propaga-se longe e atravessa paredes, o que falta a um serviço que chega do céu.

O negócio depende agora da Comissão Federal de Comunicações (FCC), que tem de autorizar a transferência de controlo das licenças. No pedido entregue ao regulador, os dois grupos pedem uma decisão expedita, argumentando que a SpaceX está pronta para investir rapidamente nestas frequências.

A SpaceX descreve o plano como uma «arquitetura híbrida», que junta rede terrestre e satélite. No mesmo documento, afirma que a Starlink Mobile passa a ser «a única rede capaz de fornecer banda larga terrestre, serviço por satélite, ou ambos», e diz servir mais de 12 milhões de clientes em mais de 170 países.

A tese: a SpaceX deixa de ser parceira das operadoras e passa a concorrente. É a segunda compra de espectro terrestre este ano — em Maio, a FCC aprovou o negócio com a EchoStar —, e o objectivo declarado é deixar de depender de acordos com quem agora quer substituir.

Da Nextel à SpaceX: uma banda com história

Os 800 MHz norte-americanos não são espectro novo. Vêm das redes de rádio empresarial da Nextel, passaram para a Sprint e, com a fusão, para a T-Mobile. Em Agosto de 2026, a T-Mobile vendeu a carteira à Grain — em dinheiro e em licenças de 600 MHz — e dois meses depois a Grain revende-a.

A FCC aprovou essa compra em Julho, com obrigações de cobertura. Quem usar a banda para rede terrestre tem de levar LTE de 5 MHz por 5 MHz a 33% da população — ou 25% da geografia — de cada licença até 1 de Julho de 2029, e a 66%, ou 50%, até 2034.

ÁreaEstados Unidos
Espectroaté 14 MHz emparelhados na banda dos 800 MHz
CompradorStarlink Spectrum Holdings, subsidiária da SpaceX
Estadoacordo assinado a 8 de Outubro, sujeito à FCC
Primeiro marco33% da população ou 25% da geografia até 1 Jul 2029
Marco seguinte66% ou 50% até 1 Jul 2034

Há uma alternativa: em vez de rede terrestre, o comprador pode assumir metas de serviço directo ao telemóvel, definidas no precedente do processo SpaceX/EchoStar, com marcos intermédios e um prazo final em 2036. A escolha faz-se licença a licença, e pode ser trocada mais tarde.

Estação base de rede móvel: mastro com antenas sectoriais e um armário técnico cercado, no meio de vegetação rasteira

Uma estação base de rede móvel junto à autoestrada M25, no Reino Unido, partilhada pelas operadoras EE e Three. É a metade terrestre: a SpaceX quer completar a constelação com antenas no solo (fotografia de arquivo, não relacionada com o negócio).

Crédito: Diacius/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0

Quanto custou, e o que o mercado leu

Nem a SpaceX nem a Grain divulgaram o preço. O Wall Street Journal escreveu que a SpaceX paga cerca de 8 mil milhões de dólares em dinheiro, citando fontes próximas do processo — um valor que nenhuma das partes confirmou e que, por isso, fica como não verificado.

Em Agosto, a Bloomberg noticiou que a SpaceX e a AST SpaceMobile disputavam a mesma carteira, então avaliada em cerca de 6 mil milhões de dólares. A AST perdeu esta corrida e as suas acções caíram; a SpaceX não anunciou qualquer acordo para lhe dar acesso a estas frequências.

A reacção do mercado foi imediata. As acções da AT&T, da Verizon e da T-Mobile caíram cerca de 6% nas negociações fora de hora. No dia seguinte, o índice europeu de telecomunicações perdeu 3,4%, para mínimos de oito meses, e a Deutsche Telekom caiu perto de 8%.

O que isto muda em Portugal

Directamente, nada: as licenças são norte-americanas e quem decide é a FCC. O que se generaliza é o modelo: um operador de satélites a comprar banda terrestre para oferecer serviço móvel completo. Em Portugal, a via tem sido a parceria — em Setembro, a MEO começou a revender capacidade de órbita baixa da Eutelsat.

Na Europa, os 800 MHz são outra coisa: a faixa dos 790 aos 862 MHz está harmonizada pela Comissão Europeia para sistemas terrestres, e a atribuição a operadores é feita país a país — em Portugal, pela ANACOM. Uma operação como esta exigiria autorização ou leilão nacional.

O que ainda falta

A FCC tem de aprovar a transferência de controlo das licenças, ao abrigo da secção 310(d) da lei das comunicações. A SpaceX pediu ainda que estas frequências passem a integrar a autorização da próxima geração da Starlink Mobile, concedida a 6 de Outubro. Nada disto é automático.

A SpaceX argumenta que a operação não trava nos limites de concentração: a sua posição atribuível chega a 89 MHz num mercado e fica em 14 MHz ou menos abaixo de 1 GHz. É a tese da empresa, sujeita à verificação da FCC — é ela que decide se a banda muda de mãos.

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