A NASA e o Departamento de Energia dos Estados Unidos (DOE) assinaram esta quinta-feira, em Washington, um novo memorando para acelerar a energia e a propulsão nuclear no espaço. O acordo — «Accelerating American Leadership in Space Nuclear Power and Propulsion» — entra em vigor a 1 de Novembro e cobre a cadeia completa: investigação, combustível, testes, lançamento e operações.
A assinatura decorreu na cimeira «Science: A New Golden Age». Ao lado de Michael Kratsios, do gabinete de política científica da Casa Branca (OSTP), estavam o administrador da NASA, Jared Isaacman, e o secretário da Energia, Chris Wright. «Estamos a entrar na era 'NASA nuclear'», disse Isaacman; «o renascimento nuclear americano está a chegar a uma nova fronteira», afirmou Wright.
O memorando não inventa o calendário: dá-lhe execução. A ordem executiva de Dezembro de 2025, «Ensuring American Space Superiority», fixou a meta de um reator lunar pronto a lançar até 2030. Em Abril, a NSTM-3 criou a Iniciativa Nacional para a Energia Nuclear Espacial e fixou mínimos: 20 quilowatts elétricos, três anos em órbita e cinco na superfície lunar.
Não é o primeiro passo do ano: em Janeiro, as duas agências já tinham assinado um acordo mais estreito, centrado apenas no sistema de fissão de superfície lunar. O de hoje é mais amplo — da investigação às operações — e é o que a Casa Branca liga às suas diretivas de política espacial.
Um reator que só acende depois de sair da Terra
O primeiro marco é a Space Reactor-1 Freedom (SR-1), uma nave que reutiliza o sistema de propulsão e energia do programa Gateway. O reator de bordo — 20 quilowatts elétricos ou mais, a urânio de baixo enriquecimento (HALEU) — alimenta propulsores elétricos: em vez de explosões químicas, uma aceleração lenta e contínua, a aposta para viagens interplanetárias.
Conceito artístico do SR-1 Freedom a caminho de Marte, onde um reator de fissão alimenta os propulsores elétricos. Ilustração: NASA
Crédito: NASA — ilustração (conceito artístico)
A SR-1 parte na janela de Marte, no final de 2028. Por segurança, o reator viaja desligado e só acende já no espaço, após a verificação do veículo — o calendário de Setembro aponta para cerca de um mês após o lançamento. Será, segundo a NASA, o primeiro reator de fissão a propulsionar uma nave além da órbita terrestre.
A bordo segue o pacote SkyFall: três helicópteros herdeiros do Ingenuity, que serão lançados sobre Marte para procurar gelo de água e locais de aterragem para missões humanas.
A noite lunar dura duas semanas
Na Lua, cada noite dura cerca de 14 dias terrestres, e nas crateras polares onde existe gelo o Sol nunca chega. Painéis solares com baterias não sustentam uma base nessas condições; é a fissão que a NASA quer levar para a superfície.
O Lunar Reactor-1 (LR-1) deverá alimentar habitats, comunicações, instrumentos e rovers da futura base lunar, operando anos sem reabastecimento. A ordem executiva quer o reator pronto a lançar até 2030, e os requisitos exigem pelo menos 20 quilowatts elétricos durante cinco anos, sem manutenção.
Conceito de base lunar da NASA: a fissão deverá dar energia durante a noite lunar. Esta ilustração não mostra o reator — é uma visão do conjunto da base. Ilustração: NASA
Crédito: NASA — arte conceptual (STMD)
A NASA voa primeiro o SR-1 — sem a complexidade de aterrar — para reduzir risco e qualificar a cadeia industrial do futuro LR-1. A par da fissão, as fontes radioisotópicas continuam: a Dragonfly, a Titan em 2028, levará um gerador e 24 unidades de aquecimento; outras 24 seguem para o rover europeu Rosalind Franklin, em Marte.
| Memorando | «Accelerating American Leadership in Space Nuclear Power and Propulsion» |
|---|---|
| Assinado | 8 de Outubro de 2026, em Washington |
| Em vigor | 1 de Novembro de 2026 |
| Space Reactor-1 Freedom | lançamento no final de 2028 |
| Reator da SR-1 | 20 kWe ou mais, urânio de baixo enriquecimento (HALEU) |
| Lunar Reactor-1 | meta de prontidão até 2030 |
| Requisitos (NSTM-3) | ≥20 kWe, 3 anos em órbita, 5 anos na superfície |
| Último reator dos EUA no espaço | SNAP-10A, 1965 |
Sessenta anos à espera do segundo voo
Os Estados Unidos só colocaram um reator nuclear em órbita uma vez: o SNAP-10A, em 1965, que funcionou 43 dias até uma falha o desligar. Nas décadas seguintes, os programas sucederam-se sem voar; o mais recente, o DRACO, de propulsão térmica nuclear, foi cancelado em 2025.
O calendário é apertado, dizem os especialistas: missões assim levam normalmente três a cinco anos, e a Science notava em Abril que a integração do reator com a propulsão e os trâmites para transportar material nuclear podem comer meses. E não há números novos: o memorando não anuncia financiamento — a decisão continua no Congresso dos EUA.
Há pressa política por trás: a China e a Rússia anunciaram planos para uma central nuclear robótica na Lua até 2035, e Washington fala abertamente de corrida — uma disputa que passa a incluir quem gera a energia da próxima base lunar.
O acordo entra em vigor a 1 de Novembro. Se o calendário aguentar, o primeiro reator a voar sai na janela de Marte de 2028; a meta da Lua fica para 2030.
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