A sonda europeia Hera, lançada há dois anos, avistou pela primeira vez o sistema de asteroides Didymos, a cerca de 236 500 km, e prepara a manobra mais delicada da viagem: a travagem que a leva ao alvo. A primeira queima de motores está marcada para 15 de Outubro e dura 93 minutos.
A 15 de Outubro, a sonda roda sobre si própria até apontar o anel de propulsores de controlo orbital ao encontro e acende três motores de hidrazina ao mesmo tempo: uma queima contínua de 93 minutos, para lhe retirar algumas centenas de metros por segundo à velocidade.
A queima foi testada a 2 de Outubro. Terminada a travagem, uma das duas antenas de 35 metros de New Norcia, na Austrália, procura o sinal da sonda; a equipa de dinâmica de voo da ESA confere então se saiu como previsto, com a telemetria dos sensores de bordo e os dados de distância e efeito Doppler das comunicações.
A 22 de Outubro segue-se uma segunda queima, de cerca de 31 minutos, que deve completar quase toda a diferença de velocidade e compensar desvios da primeira. Mais três manobras menores, até ao fim do mês, deixam a sonda a viajar quase à velocidade do sistema Didymos.
Dois anos a caminho
A Hera partiu de Cabo Canaveral mesmo à frente do furacão Milton. Desde então, foi a gravidade a conduzir: além de duas manobras em espaço profundo, o rumo foi corrigido por um sobrevoo de Marte, na primavera de 2025, que também lhe aumentou a velocidade. A sonda viaja agora a mais de 12 km por segundo em relação à Terra.
| Lançamento | 7 de Outubro de 2024, de Cabo Canaveral |
|---|---|
| Destino | sistema Didymos — asteroide de 780 metros e uma lua de cerca de 150 |
| Primeira travagem | 15 de Outubro, 93 minutos |
| Segunda travagem | 22 de Outubro, cerca de 31 minutos |
| Primeiro avistamento | 7 de Outubro de 2026 |
| Chegada ao alvo | Novembro, segundo a ESA |
O destino apareceu como um ponto de luz, mais pequeno do que um pixel da câmara. Só combinando várias imagens e fazendo análise fotométrica a equipa o identificou entre as estrelas de fundo. As duas rochas — Didymos e Dimorphos — ainda não se distinguem uma da outra; isso virá com a aproximação.
A autópsia do impacto
O alvo é o resultado de uma experiência única. Em Setembro de 2022, a sonda DART, da NASA, embateu de propósito no Dimorphos a 6,1 km por segundo: a órbita em torno do Didymos mudou de 11 horas e 55 minutos para 11 horas e 23 minutos — 32 minutos, com uma margem de cerca de dois minutos.
É isso que falta para transformar a experiência num método de defesa planetária. A Hera vai medir a massa do Dimorphos e a cratera do impacto para calcular quanta energia foi transferida para o asteroide — a peça que a observação a partir da Terra não dá. O objectivo da ESA é uma técnica de desvio medida e repetível.
O Dimorphos na composição das dez últimas imagens da câmara da DART, minutos antes do impacto de Setembro de 2022: um monte de escombros coberto de blocos. NASA/Johns Hopkins APL — domínio público.
O Dimorphos é um monte de escombros de cerca de 150 metros — o tamanho aproximado da Grande Pirâmide de Gizé — coberto de blocos que vão do tamanho de um carro ao de uma casa. Roda em torno do Didymos a 18 centímetros por segundo; a gravidade é 200 mil vezes mais fraca do que na Terra.
Portugal a bordo
Na missão participam três empresas portuguesas, com contratos que somam 2,93 milhões de euros: a Efacec, com o altímetro laser PALT, que mede distâncias por tempo de voo; a GMV Portugal, com o sistema que controla as manobras a bordo; e a Synopsis Planet, spin-off da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, com o laser de microchip do altímetro.
O PALT apoia a aproximação e o estudo da superfície; o sistema da GMV combina o controlo a partir de Terra com um piloto automático a bordo, porque a esta distância os telecomandos chegam tarde.
Na fase de desenvolvimento, a empresa comparava o desafio a acertar uma bala disparada a dois quilómetros noutra bala. É a primeira vez que uma sonda europeia manobra de forma autónoma em torno de um corpo celeste.
O que se segue
Depois das travagens, a Hera fica a viajar quase à velocidade do sistema Didymos; a ESA aponta a chegada ao alvo para Novembro, seguindo-se a campanha de observação próxima e a largada dos dois CubeSats, o Juventas e o Milani. Todos os horários podem escorregar: são datas da agência, não um compromisso.
Até lá, ficam duas datas no calendário: a queima de 15 de Outubro e a segunda travagem, uma semana depois. Dois anos e 236 500 km depois, a sonda prepara-se para ver de perto o primeiro objecto do Sistema Solar que a humanidade desviou.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!