Um crânio guardado num museu alemão desde 1927 deixou de ser um Tomistoma e passou a ter género próprio. O fóssil foi recolhido em Gebel Mokattam, a leste do Cairo, no calcário da mesma formação em que foi esculpida a Esfinge de Gizé, e a reavaliação — tomografia computorizada ao crânio e nova análise filogenética — saiu a 7 de Outubro na Royal Society Open Science, em acesso aberto. O animal passa a chamar-se Herugavialis cairensis.
Não é a descoberta de um fóssil novo, é a correcção de um nome com quase cem anos — e vale a pena dizê-lo, porque o comunicado a apresenta como «nova espécie». O crânio está descrito desde 1927, quando Müller o atribuiu ao género Tomistoma pela semelhança com o falso-gavial. Análises recentes já suspeitavam que ali não pertencia; faltava o detalhe anatómico para o sustentar e o nome para o dizer.
Os gavialóides são crocodilianos de focinho longo e estreito. Hoje restam duas espécies, ambas no sudeste asiático — o gavial-do-Ganges (Gavialis gangeticus) e o falso-gavial (Tomistoma schlegelii) —, mas o registo fóssil tem mais de 40 espécies e uma distribuição quase mundial. Muitas foram arrumadas em Tomistoma por hábito: um nome antigo onde cabia tudo o que parecia.
| Espécie | Herugavialis cairensis |
|---|---|
| Nome anterior | «Tomistoma» cairense (Müller, 1927) |
| Holótipo | crânio SMNS 10575, sem mandíbula |
| Museu | Staatliches Museum für Naturkunde Stuttgart |
| Local | Gebel Mokattam, a leste do Cairo, Egipto |
| Formação | Mokattam, calcário marinho numulítico |
| Idade | Lutetiano, Eoceno Médio (cerca de 45 milhões de anos) |
| Focinho | cerca de 64% do comprimento do crânio |
| Publicação | Royal Society Open Science 13(10): 261173, 7 de Outubro de 2026 |
Um nome tirado da Esfinge
Heru é o deus egípcio associado à Esfinge de Gizé — e, escrevem os autores, possivelmente a sua inspiração. A escolha do nome tem duas razões. A primeira: a Esfinge foi esculpida no calcário da Formação Mokattam, a mesma formação de onde veio o crânio. A segunda é um acidente feliz — ao fóssil falta a ponta anterior do focinho, tal como à Esfinge falta o nariz. O sufixo -gavialis marca o parentesco dentro dos gavialóides e cairense passou a cairensis para concordar com o género masculino.
Dada a coincidência com o nariz que falta à Esfinge, decidimos dar ao novo crocodilo o nome do deus egípcio Heru, que possivelmente inspirou este monumento.
— Philip MannionCo-autor do estudo, University College London — citação do comunicado da UCL, traduzida do inglês
O holótipo: crânio SMNS 10575 nas vistas lateral direita e esquerda, em fotografia e desenho interpretativo (figura 2 do artigo). O focinho alongado ocupa cerca de 64% do crânio; falta-lhe a ponta anterior.
Crédito: Fotografia e desenho: Burke et al., «Royal Society Open Science» 13(10) — CC BY 4.0
A diagnose do novo género apoia-se em três caracteres: o lacrimal com comprimento anteroposterior mais do dobro do pré-frontal; as órbitas «telescopadas», formadas pelas margens elevadas do lacrimal, do pré-frontal e do frontal; e o esquamosal, cujas margens dorsal e ventral não divergem para a frente. A tomografia revelou ainda a anatomia interna do crânio. Comparado com Eogavialis africanum e Paratomistoma courti — duas outras espécies egípcias praticamente da mesma idade —, o animal é distinto.
A análise filogenética, por máxima parcimónia, coloca H. cairensis entre os gavialóides, mas fora do grupo do falso-gavial e fora dos taxa mediterrânicos. No Eoceno Médio, o Egipto tinha pelo menos três gavialóides a partilhar a mesma região — e o artigo mostra agora que não eram variações do mesmo animal.
Um Mediterrâneo cheio de gaviais — e depois vazio
O estudo enquadra a espécie numa história maior. No Paleogénico, o Mediterrâneo teve pelo menos seis espécies de gavialóides, muitas delas em habitats costeiros e de águas pouco profundas, com capacidade oceânica. Depois, quase todo o Oligocénico aparece vazio: os autores sugerem que o arrefecimento global e a descida do nível do mar reduziram o habitat disponível. No Miocénico, o aquecimento e a subida do mar terão permitido um regresso, com pelo menos outras seis espécies. O fim chega no Miocénico tardio: os crocodilianos desaparecem do Mediterrâneo antes do Pliocénico, talvez por causa da crise de salinidade do Messiniano, quando o Mediterrâneo secou.
Este encadeamento é uma hipótese de trabalho, não um resultado demonstrado — o artigo escreve «potencialmente» e admite que a lacuna do Oligocénico possa ser, em parte, falta de amostragem. Os autores apresentam um argumento contra essa leitura simples, retirado da própria análise, mas a causa continua em aberto.
E Portugal?
Entre as espécies do Miocénico mediterrânico que o artigo inventaria está «Tomistoma» lusitanica, descrita a partir de fósseis portugueses do Burdigaliano. O nome do género aparece entre aspas — a marca que os autores usam para as formas que já não se sustentam onde foram colocadas. E, no fim do artigo, dizem que a revisão taxonómica destas espécies europeias aguarda a reavaliação de «Tomistoma» lusitanica e de Gavialosuchus eggenburgensis, remetendo para dados ainda não publicados. O próximo capítulo desta história pode ter fósseis portugueses.
O que este estudo não diz
O fóssil não foi encontrado na Esfinge nem nas pedreiras que a alimentaram: foi recolhido em Gebel Mokattam, a leste do Cairo, e a Esfinge está em Gizé — o que partilham é a formação geológica, não o bloco de pedra. O crânio está algo esmagado, falta-lhe a mandíbula e o lado esquerdo, junto à órbita, está danificado; e o próprio artigo admite que alguns dos exemplares atribuídos à espécie possam pertencer ao mesmo indivíduo. Também não há aqui uma explicação para a extinção: há uma hipótese sobre o clima e o nível do mar, apresentada como tal.
O que fica é mais modesto e mais útil: um animal que passou quase cem anos com o nome errado tem agora um lugar próprio na árvore, e os gavialóides do Mediterrâneo — incluindo os que viveram em Portugal — ganham uma base mais firme para serem revistos um a um.
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