Os envios mundiais de computadores pessoais caíram 20,1% no terceiro trimestre de 2026, para 62,7 milhões de unidades, segundo os dados preliminares da IDC publicados a 8 de outubro. É a segunda queda consecutiva — a anterior foi de 3,8% — e, pela contagem da Omdia, a mais acentuada desde o início de 2023.
As duas consultoras contam de forma diferente: a Omdia somou 58,1 milhões de unidades, com uma queda homóloga de 21,2%. O sentido do movimento é o mesmo. A memória e o armazenamento encareceram, os preços afastaram compradores e o trimestre ficou sem procura para consumir o que já estava nos armazéns.
Os dois números do trimestre: 78,5 milhões de unidades um ano antes, 62,7 milhões agora. A queda não foi igual para todos — a HP perdeu quase um terço dos envios, a ASUS menos de um décimo.
Crédito: Gráfico: Portugal Binário, com dados preliminares da IDC (8 out 2026)
«Depois da antecipação que sustentou o mercado no primeiro semestre, esta queda não é surpresa», afirmou Ishan Dutt, director de investigação da Omdia. A consultora nota que os fabricantes já previam contrações de dois dígitos no segundo semestre e que os retalhistas indicavam preços médios em alta a par de vendas em queda.
Um trimestre que devia ser o melhor
O terceiro trimestre costuma ser maior do que o segundo. Este ano não foi: a IDC registou uma descida sequencial de 9,1%, uma inversão da sazonalidade. A razão está no início do ano, quando fabricantes e canais encheram os armazéns para se anteciparem às subidas de preço da memória.
«O que estamos a ver é o resultado da forte antecipação do primeiro semestre», disse Jitesh Ubrani, da IDC. «Os canais estão agora preocupados em carregar inventário a mais para um mercado onde os preços altos estão a suprimir a procura.»
A própria IDC admite que o stock acumulado pode trazer promoções e algum alívio de curto prazo, mas descarta um regresso aos preços do ano passado. Com condições macroeconómicas a piorar, o cenário dos próximos trimestres pode ficar «pior antes de melhorar».
Quem apanhou a pancada
A queda não foi repartida por igual. A HP perdeu 30,9% dos envios homólogos, a Dell 25% e a Lenovo 22,6%; as três cederam 4,2 pontos de quota, segundo a IDC. A Apple caiu 11,3% e a ASUS 8,6%, e ambas ganharam terreno.
A Apple passou de 8,5% para 9,5% do mercado e a ASUS de 7,6% para 8,7%. A Omdia lê a mesma assimetria: o posicionamento premium limitou o efeito dos preços altos na Apple, a ASUS teve a menor queda entre os cinco maiores e a HP foi quem mais perdeu.
| Envios no 3.º trimestre de 2026 | 62,7 M de unidades (IDC) e 58,1 M (Omdia) |
|---|---|
| Variação homóloga | −20,1% (IDC) e −21,2% (Omdia) |
| Variação sequencial | −9,1% (IDC) |
| Peso de DRAM e SSD no custo de um PC | cerca de 15% (nível típico) para quase 40% (Omdia) |
| Previsão para o 4.º trimestre de 2026 | −24% homólogo; total de 2027: −7% (Omdia) |
| Memória no custo de materiais | pico de 23% em 2026, contra 16% em 2025 (Gartner, fev. 2026) |
| Fontes | IDC (8 out 2026) e Omdia (9 out 2026), dados preliminares |
De 15% para quase 40% do custo
O mecanismo está medido. Ben Yeh, analista principal da Omdia, diz que o peso da DRAM e dos discos SSD num computador passou de um nível típico de cerca de 15% para quase 40%, com aumentos de preço superiores ao quádruplo.
«Apesar de os fabricantes terem subido os preços várias vezes nos últimos trimestres, estes aumentos ainda não compensaram totalmente o impacto», afirmou. E não é só a memória: a Omdia fala de escassez de processadores, placas gráficas e outros componentes, com custos de materiais mais de 40% acima em todos os patamares de preço.
A Gartner já tinha posto números nisto em fevereiro: previa uma subida de 130% nos preços combinados de DRAM e SSD até ao fim de 2026 e um aumento de 17% no preço dos computadores.
O segmento de PCs de entrada abaixo de 500 dólares vai desaparecer até 2028.
— Ranjit AtwalDirector sénior de análise da Gartner — comunicado de 26 de Fevereiro de 2026, traduzido do inglês
A mesma análise previa que a memória chegasse a 23% do custo de materiais de um PC, contra 16% em 2025, e que a vida útil dos equipamentos subisse 15% nas empresas e 20% nos consumidores: são compras adiadas, não canceladas. Para o total de 2026 projectava uma queda de 10,4% — um trimestre sozinho já perdeu 20,1%.
O que falta saber
Estes números são estimativas de mercado, não resultados auditados, e as duas consultoras contam coisas ligeiramente diferentes. Os envios para os canais também não são vendas ao público, e nenhum dos comunicados abre dados por país: não é possível dizer quantos computadores se venderam em Portugal no trimestre.
A Omdia espera que piore: menos 24% no quarto trimestre e mais 7% de queda em 2027. A IDC não arrisca números, mas diz que os preços vão manter-se «bem acima» do ano anterior.
Em setembro, o Portugal Binário documentou o mesmo mecanismo do lado dos telemóveis: a memória passou de cerca de 10% para 34% do custo de materiais de um iPhone Pro, e o mesmo degrau da gama ficou 150 euros mais caro em Portugal.
O que fica é uma inversão difícil de ignorar. Durante anos, o computador pessoal foi o produto que ficava mais barato com o tempo. Agora, o preço do modelo mais acessível depende da procura de memória dos centros de dados que treinam modelos de inteligência artificial.
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