Disco lunar parcialmente iluminado, visto de perto pela tripulação do Artemis II: o terminador atravessa o topo do quadro, com crateras a recortarem-se como ilhas na sombra e cadeias de crateras a estenderem-se pelo terreno iluminado; fundo negro

Superfície lunar na linha do terminador, a 6 de Abril de 2026: NASA/JSC (fotografia da tripulação do Artemis II)

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NASA publica 800 GB de ciência lunar recolhidos a bordo do Artemis II

A NASA abriu esta quarta-feira o arquivo científico da missão Artemis II: mais de 800 GB de imagens, vídeo, áudio e notas das observações da Lua feitas pela tripulação em Abril. O material foi entregue ao Sistema de Dados Planetários (PDS), o arquivo público das missões planetárias norte-americanas, para ser estudado por qualquer pessoa.

O lote inclui mais de 11 mil imagens e vídeos em resolução total, das câmaras de mão da tripulação e das câmaras da Orion, além de 8,5 horas de áudio com as observações da superfície lunar e imagens anotadas pelos próprios astronautas.

Seguem-lhe três publicações: o Relatório Preliminar de Ciência Lunar, o Relatório de Operações Científicas e o Guia de Utilização de Dados.

Lançamento1 de Abril de 2026
Amerissagem10 de Abril de 2026, ao largo de San Diego
Duração9 dias, 1 hora e 32 minutos
Distância máxima da Terra252 756 milhas (406 771 km), recorde a 6 de Abril
Máxima aproximação da Luacerca de 4 067 milhas da superfície
TripulaçãoReid Wiseman, Victor Glover e Christina Koch (NASA) e Jeremy Hansen (CSA)
Volume libertadomais de 800 GB
Imagens e vídeomais de 11 000 em resolução total
Áudio8,5 horas de observações da tripulação
ArquivoPlanetary Data System, nó de Geociências

Cinco clarões vistos a 74 mil quilómetros

O achado mais inesperado do voo não veio de um instrumento. Os cientistas pediram à tripulação que observasse o lado escuro da Lua à procura de pequenos clarões: rochas a bater numa superfície sem atmosfera que as trave. A 46 mil milhas, cerca de 74 mil quilómetros, os astronautas relataram cinco explosões extremamente ténues, «picadas de alfinete», segundo a NASA.

A equipa científica descartou raios cósmicos e reflexos da própria nave antes de confirmar os avistamentos. Pelo brilho, estimou que as rochas não teriam mais do que alguns centímetros — mas viajavam a milhares de quilómetros por hora. O eclipse solar total, com quase uma hora de escuridão, criou as condições ideais para as detectar.

Os clarões valem pelo que medem. Perceber a frequência com que pequenos fragmentos atingem a Lua é essencial para avaliar o risco a longo prazo de habitats e infra-estruturas na superfície. A tripulação apanhou provavelmente os clarões mais ténues já vistos a olho nu: os astronautas do Apollo tinham observado fenómenos semelhantes, mas a partir da órbita lunar.

Visualização da Lua escura a eclipsar o Sol, com anotações manuscritas a cores: «JEREMY RED», «REID BLUE», «IKE GREEN», os números 2 a 5 sobre pontos minúsculos, «CIRCLED LIKELY SAME IMPACTS» e, no canto, o carimbo «7 Apr 2026 01:04:00.000»

A vista da tripulação durante o eclipse total, com as marcas que fizeram a bordo: cada astronauta anotou na sua cor os clarões que viu — Hansen a vermelho, Wiseman a azul, Glover a verde. Visualização da vista, não fotografia. Imagem: NASA

Crédito: NASA — anotações da tripulação a bordo (7 de Abril de 2026)

A cor da Lua também tem leitura

As fotografias e as notas registam diferenças de cor que a NASA resume em três famílias: azuis apontam para rochas vulcânicas ricas em titânio, castanhos para teores variáveis de ferro e verdes para vidro formado em erupções ou impactos. Cruzadas com os dados do orbitador Lunar Reconnaissance Orbiter, ajudam a perceber como o olho humano lê a cor na Lua.

A percepção muda com o ângulo da luz, e a tripulação foi treinada para isso. Separar artefactos de iluminação de características geológicas verdadeiras é crítico para navegar, documentar e interpretar — sobretudo nos pólos, onde a luz rasante domina e para onde apontam as próximas missões de superfície.

O instrumento desta missão foi a tripulação: o que quatro pessoas viram, desenharam e discutiram a bordo passa agora a dado científico aberto — e é isso que a NASA leva para a Artemis III.

A linha que separa o dia da noite na Lua foi o que mais marcou os astronautas. «O terminador é a coisa mais impressionante que vi até agora», relatou o piloto Victor Glover durante a passagem. «Gostava de ter mais tempo para descrever o que estou a ver», acrescentou.

Do lado da luz, o relevo lê-se em detalhe: crateras com quilómetros de profundidade e picos da mesma altura, recortados na orla da Lua. Durante o eclipse, com o Sol atrás do disco lunar, essa luz rasante desenhou o relevo com precisão suficiente para a especialista de missão Christina Koch reagir em voz alta: «Vocês estão a brincar comigo.»

A Terra inteira num só quadro

No segundo dia da missão, a 2 de Abril, a tripulação fotografou a Terra inteira através de uma janela da Orion. Cientistas passaram a noite a examinar o ficheiro e encontraram auroras nos dois pólos, uma nuvem de poeira do Sara a deslocar-se para oeste e o cone de luz zodiacal, luz solar reflectida em poeira interplanetária.

No mesmo quadro identificaram relâmpagos sobre a bacia do Congo e luzes de cidades no Norte de África e na Península Ibérica. Christina Koch descreveu a sensação de ver a Terra daquela distância: «A Lua é uma esponja de luz e a Terra é um espelho de luz.»

Disco completo da Terra visto do espaço: o Sara e o Norte de África em tons acastanhados, o Mediterrâneo e a Europa sob nuvens, um halo luminoso no bordo direito e fundo negro com estrelas

A Terra inteira num só quadro, a 2 de Abril de 2026, captada por um membro da tripulação através de uma janela da Orion. A NASA explica que a face visível parece iluminada pelo Sol, mas é luz reflectida pela Lua. Imagem: NASA

Crédito: NASA — fotografia da tripulação do Artemis II (2 de Abril de 2026)

O que este lote ainda não tem

É o primeiro de vários lotes. O pacote SPICE, com as efemérides e a geometria da missão, está atrasado no nó NAIF do arquivo, e a NASA diz esperar publicá-lo «em breve». As versões acessíveis dos relatórios completos ainda estão em preparação, e o áudio publicado foi ligeiramente editado: as gravações sem cortes estão na biblioteca de áudio da agência.

Importa também o que o lote não é: o relatório é preliminar e nenhuma destas conclusões passou por revisão por pares. O que a NASA afirma é que a informação já está a informar o planeamento da Artemis III. Os dados, esses, ficam abertos para quem quiser repetir as contas.

Para as próximas missões, o que fica deste material são milhares de decisões pequenas: que câmaras levar, para onde as apontar e que detalhe é preciso captar para distinguir iluminação de geologia. As respostas vieram de quatro pessoas que estiveram lá — e agora podem ser verificadas por qualquer investigador.

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