Fotografia de estúdio de um objecto de madeira com forma de lâmina alongada e cabo curto, madeira clara com nós visíveis, sobre fundo cinzento degradê; por baixo, uma escala impressa de 0 a 100 milímetros

Réplica de um instrumento de madeira do Abric Romaní, reconstruída a partir do molde em travertino (exposição «Der Neandertaler im Lonetal», 2021): Thilo Parg / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

🔬 Ciência

A madeira neandertal sobreviveu na pedra: 597 vestígios e 13 objectos

Quatro décadas de escavação no Abric Romaní, um abrigo rochoso em Capellades, a oeste de Barcelona, produziram 597 vestígios de madeira em 16 níveis com entre 62 000 e 40 000 anos. Desses, 13 foram feitos ou usados por neandertais. O estudo foi publicado a 7 de outubro na Science Advances.

A madeira quase nunca sobrevive: apodrece e leva consigo a maior parte da tecnologia pré-histórica. Aqui foi diferente. A água rica em carbonato de cálcio que escorria do teto do abrigo selou os objectos numa crosta de travertino; quando a madeira se desfez, sobraram os moldes.

Dois painéis. À esquerda, barras horizontais com os 13 objectos por categoria: 4 instrumentos, 4 contentores, 2 estruturas, 2 armas e 1 peça sem paralelo. À direita, barras verticais com os objectos por nível arqueológico: 3 no nível H, 2 nos níveis O e R e 1 em cada um dos níveis D, I, J, N e P.

Dos 597 vestígios, 13 foram identificados como objectos feitos ou usados por neandertais. A maioria veio dos níveis H, O e R.

Crédito: Gráfico: Portugal Binário, com dados de Saladié et al., Science Advances 12(41), 7 out 2026

A lista é variada. Duas lanças no nível R, de 2,45 e 1,99 metros, e quatro bandejas de casca nos níveis H e O — objectos de uso doméstico, não de caça.

A seguir vêm um tripé no nível I, um poste de 5,10 metros no nível N, uma ponta fendida no nível D, uma cavadeira no nível O, um objecto pontiagudo no nível J e, no nível P, uma peça sem paralelo conhecido.

Uma peça sem paralelo

A peça do nível P é a mais estranha. Feita de uma só tábua de madeira, tem um cabo bem definido e uma extremidade engrossada e apontada, com marcas de trabalho deliberado. O estudo descreve-a como uma maça sem paralelo claro; para que servia, ninguém sabe.

Não era um recurso ocasional

O que torna o conjunto invulgar não é um objecto isolado, é a repetição. A madeira aparece nível após nível, ao longo de cerca de vinte mil anos, o que indica que trabalhá-la era rotina.

O que é extraordinário no Abric Romaní é que podemos ver coisas que habitualmente desaparecem. Temos as lareiras, as ferramentas de pedra, os animais que processaram e também a madeira.

— Palmira Saladié

Investigadora do IPHES-CERCA e primeira autora do estudo — comunicado do IPHES, traduzido do inglês

O mesmo argumento é feito por Josep Vallverdú, também do IPHES-CERCA: a madeira mostra que a tecnologia neandertal se estendia muito para além da pedra. O retrato que temos deles foi construído sobre o que resiste.

SítioAbric Romaní, Capellades (Anoia, Barcelona)
Cronologiacerca de 62 000 a 40 000 anos, Paleolítico Médio
Níveis com vestígios de madeira16
Vestígios597
Objectos feitos ou usados por neandertais13
Níveis desses objectosD, H, I, J, N, O, P e R
Preservaçãomoldes em travertino, moldes de carvão e carvão
PublicaçãoScience Advances 12(41), eaeh2287, 7 de outubro de 2026

A pedra que guardou o que a madeira perdeu

O abrigo fica em Capellades, a cerca de 50 quilómetros de Barcelona, e é escavado desde 1983, por iniciativa de Eudald Carbonell. A direcção é hoje de Saladié, M. Gema Chacón e Josep Vallverdú, com apoio do Governo da Catalunha, da câmara de Capellades e de patrocínio.

A vantagem do sítio é a associação: no mesmo nível aparecem lareiras, ferramentas de pedra, ossos de animais e madeira. O poste de 5,10 metros estava na parte mais interior do abrigo, junto a cinco lareiras alinhadas num rectângulo de 18 metros quadrados.

Os autores interpretam esse arranjo como um espaço de sono e repouso, e o poste como parte de uma estrutura triangular encostada à parede — um corta-vento. É uma leitura, apresentada como leitura; o objecto está medido: 5,10 metros, sem ramos, com as duas pontas fracturadas.

A história dos neandertais foi escrita com aquilo que não apodrece. Este abrigo é raro porque deixa ver a parte que costuma desaparecer — e entre ela está uma peça que não se parece com nada.

O que já se sabia

Que os neandertais trabalhavam madeira não é novidade: há instrumentos preservados em Schöningen e Lehringen, na Alemanha, uma cavadeira em Aranbaltza III, no País Basco, e material em Poggetti Vecchi, em Itália.

A novidade está na escala e no método: a análise sistemática de todo o espólio de madeira de quatro décadas, com comparações objecto a objecto. A ponta fendida do nível D é equiparada às peças de Schöningen; a cavadeira do nível O, às de Poggetti Vecchi.

Noutro caso, os autores levantam uma hipótese e recusam-na: um objecto de 74 centímetros do nível Ra poderia ser um bastão de arremesso, mas só tem uma extremidade apontada, o que torna essa leitura pouco provável.

O que falta saber

Falta sobretudo a função. A peça do nível P não tem paralelo; o tripé pode ter servido para processar alimentos; as bandejas podem ter levado comida ou brasas. As espécies identificam-se pelo carvão: o pinheiro-silvestre é mais de 90% do carvão do sítio.

O estudo também não estende a conclusão a todo o Paleolítico Médio. Os autores escrevem que o conjunto mostra variedade, mas não permite identificar uma tradição técnica partilhada — o que se pode afirmar é o que se vê neste abrigo, em vinte mil anos de ocupações.

Fica a lição de método. Durante décadas, a história neandertal foi escrita com o que não apodrece; este abrigo mostra quanto falta nessa conta — e que parte do que falta ainda está lá, gravada na pedra.

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