A agência federal alemã para a inovação disruptiva (SPRIND) e a NADI, agência neerlandesa em constituição, abriram a 23 de Setembro as candidaturas ao AI-Native Chip Design Challenge. São 40 milhões de euros para pôr a inteligência artificial a desenhar chips de IA. O prazo termina a 30 de Novembro — 11h00 da Europa Central, 10h00 em Lisboa.
São dois eixos. O primeiro procura arquitecturas de chips para treino e inferência de IA: processadores para centros de dados, aceleradores de IA, circuitos integrados de aplicação específica (ASIC) e sistemas heterogéneos. O segundo financia o inverso — que a própria IA conduza o desenho, da exploração de arquitectura à geração de RTL (a descrição do circuito) e à verificação.
A justificação é dos promotores: desenhar um chip demora anos e os modelos de IA renovam-se em semanas. Os aceleradores de hoje foram pensados para os modelos de ontem. A SPRIND e a NADI dizem que a Europa depende dos Estados Unidos e da China para os seus chips e descrevem o desenho assistido por IA como estrangulamento estrutural.
Duas fases e um tecto de 9,6 milhões
O programa dura 20 meses e tem duas fases. Na primeira, de oito meses, entram até sete equipas, com um tecto de 2,6 milhões de euros cada. Na segunda, de doze meses, ficam até três equipas, com um tecto de sete milhões cada. No total, um máximo de 9,6 milhões por equipa, sem IVA.
O dinheiro é atribuído por contratos de preço fixo no quadro da contratação pré-comercial (PCP), um instrumento de compra pública: não é capital nem subvenção, e não dá participação às agências. As equipas apresentam a sua própria estimativa de custos.
| Programa | AI-Native Chip Design Challenge |
|---|---|
| Promotores | SPRIND (Alemanha) e NADI (Países Baixos) |
| Orçamento | 40 milhões de euros |
| Primeira fase | 8 meses, até 7 equipas, até 2,6 M€ cada |
| Segunda fase | 12 meses, até 3 equipas, até 7,0 M€ cada |
| Tecto por equipa | 9,6 M€, sem IVA |
| Candidaturas | até 30 de Novembro de 2026, 11h00 CET (10h00 em Lisboa) |
| Apresentações ao júri | 14 e 15 de Dezembro, em Leipzig |
| Arranque | 16 de Dezembro de 2026 |
Fechadas as candidaturas, os analistas da SPRIND fazem a pré-selecção e as escolhidas apresentam-se a um júri independente, em Leipzig, a 14 e 15 de Dezembro. O programa arranca a 16 de Dezembro. Há dois seminários online, a 9 de Outubro e a 17 de Novembro.
Quem se pode candidatar
Pode candidatar-se uma empresa de desenho de chips, sozinha, ou um consórcio de até três empresas com competências diferentes, representado por um ponto de contacto. A sede tem de estar na União Europeia, na EFTA ou no Reino Unido; membros da equipa e parceiros podem estar fora dessas regiões. As equipas devem constituir empresa, de preferência antes do arranque.
Ficam de fora os grupos de investigação puros e as instituições de conhecimento que se apresentem sozinhas: o concurso exige execução comercial e uma empresa como beneficiária. Para um laboratório ou instituto português, a porta existe como parceiro de uma candidatura, não como proponente.
A premissa técnica é o CMOS, a tecnologia dos circuitos integrados convencionais. A fotónica, a computação neuromórfica, a memristiva e a analógica são admitidas, assim como a computação em memória, a integração heterogénea e a sobreposição de camadas. Estão excluídos os chips quânticos e as plataformas com organoides.
O programa financia desenho, não fabrico. São elegíveis custos com pessoal — arquitectos de chips, projectistas de RTL, engenheiros de verificação e especialistas em IA —, materiais e despesas operacionais como a preparação da empresa e a estratégia de patentes. O tape-out, a passagem à fábrica, não tem verba atribuída.
Uma bolacha de silício de 300 mm: dezenas de cópias do mesmo chip antes de serem cortadas e encapsuladas. O concurso financia o desenho; a passagem à fábrica só está prometida às equipas destacadas.
Crédito: Fotografia: Peellden — Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)
Para as equipas destacadas, a SPRIND e a NADI prometem financiamento de acompanhamento «na casa das dezenas de milhões de euros» para levar o desenho ao silício, mas as condições só serão anunciadas mais tarde. Plataformas abertas são preferidas; dependência de um fornecedor único, como o CUDA, é desencorajada.
Porque interessa a Portugal
Portugal está dentro do perímetro: a AICEP sublinha que empresas, start-ups e consórcios portugueses podem candidatar-se. Uma precisão que o anúncio não faz: não é um programa da União Europeia. São duas agências nacionais, uma alemã e uma neerlandesa, a financiar; europeia é a elegibilidade geográfica.
Para empresas com competências em semicondutores, IA, hardware e engenharia avançada, a AICEP descreve o ganho como acesso a capital para inovação, propriedade intelectual própria e integração nas cadeias de valor europeias.
Há limites que o anúncio não sublinha. A NADI está ainda em constituição; das equipas participantes, só três chegam à segunda fase, o que faz do tecto de 9,6 milhões um número para poucos; e as condições do financiamento que decide se um desenho chega ao silício continuam por anunciar.
As candidaturas fazem-se pelo formulário da SPRIND, em inglês, até 30 de Novembro, e a página do concurso tem o aviso de abertura, o acordo de participação e um endereço de contacto para dúvidas. O essencial: 40 milhões de euros para desenhar chips de IA, com a própria IA a fazer o desenho — e sem um euro para fábricas.
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