A Open Cosmos, empresa europeia de satélites com fábrica em Portugal, confirmou a arquitectura da sua constelação de conectividade ConnectedCosmos: 192 satélites formam o núcleo da rede e mais de 96 devem estar em órbita até ao final de 2028, com cobertura global como objectivo até 2030. O próximo lançamento está previsto para antes do fim deste ano.
O anúncio, feito a 5 de Outubro, chega um mês depois de a empresa ter captado 300 milhões de euros — uma ronda que a Open Cosmos destina, segundo o comunicado, à fabricação em massa de satélites e à aceleração das suas três vertentes: a constelação de observação da Terra OpenConstellation, a de conectividade ConnectedCosmos e a plataforma DataCosmos.
Uma malha espacial que contorna os cabos submarinos
A ConnectedCosmos está desenhada para governos, instituições e empresas que exigem conectividade segura e controlo dos seus dados críticos, como alternativa europeia ao que já existe em órbita. Em vez de depender de estações terrestres e cabos submarinos, os satélites ligam-se entre si por ligações ópticas ponto-a-ponto e movem grandes volumes de dados — imagens em bruto, transmissões de vídeo, réplicas de bases de dados — lateralmente pelo espaço.
O sistema integra ainda a observação da Terra: a componente de conectividade serve de camada de transporte aos satélites da OpenConstellation, e a plataforma DataCosmos transforma esse fluxo em informação utilizável. O objectivo, explica a empresa, é que um governo consiga ir dos dados em bruto à decisão dentro de um mesmo circuito seguro.
O calendário: 96 até 2028, global em 2030
Pelo plano anunciado, mais de 96 satélites estarão em órbita até ao final de 2028, numa trajectória de cobertura global em 2030. O próximo lançamento da ConnectedCosmos «estará em curso antes do fim deste ano», segundo o comunicado, e a empresa diz estar em conversas avançadas com vários fornecedores de lançamento para missões adicionais entre o final de 2026 e meados de 2027.
A constelação foi revelada em Janeiro de 2026 e os dois primeiros satélites de demonstração seguiram para órbita nesse mês. O fundador e director-executivo, Rafel Jordà Siquier, disse ao SpaceNews que pelo menos 50 satélites do plano já estão construídos.
O aperto está nos foguetes. A Space News e a Space Intel Report descrevem uma empresa com dificuldades para garantir lançadores, num contexto em que também há prazos regulatórios de colocação em órbita a cumprir — e onde o calendário do espectro não tolera atrasos infinitos.
A vista oficial da página do ConnectedCosmos: a Europa iluminada de noite, um dos alvos da constelação.
Crédito: Imagem: Open Cosmos — página oficial do ConnectedCosmos
O espectro: registos do Liechtenstein, antes da Rivada
A constelação vai operar na banda Ka em registos de espectro atribuídos pelo Liechtenstein — prioridades que pertenciam à Rivada Space Networks e que a Open Cosmos assegurou em Janeiro, reporta a Via Satellite. No regime da União Internacional de Telecomunicações, o direito prioritário ao espectro exige colocar satélites em órbita dentro dos prazos registados: o calendário do anúncio não é, por isso, só marketing.
O papel português
A Open Cosmos Atlantic, a subsidiária portuguesa com sede no hub UPETEC, no Porto, anunciou em Outubro de 2024 novas instalações em Coimbra, que ficaram operacionais no início de 2025. É uma das quatro fábricas europeias do grupo — com o Reino Unido, a Espanha e a Grécia —, onde a empresa afirma ter capacidade para produzir um satélite por dia.
O investimento anunciado em Setembro para Portugal é de 50 milhões de euros, com a equipa local a dobrar, de 50 para 100 pessoas. Em paralelo, a empresa constrói três satélites portugueses de observação da Terra no âmbito da Portugal Open Constellation, apoiada pelo PRR — o lançamento continuava indicado para 2026 na cobertura do anúncio, e não há registo público de que algum tenha já ido para órbita.
O mercado já chegou a Portugal por outros caminhos: em Setembro, a MEO fechou com a Eutelsat a integração de um satélite LEO na oferta a clientes críticos. A ConnectedCosmos entra no mesmo mar mas com outro posicionamento — infraestrutura soberana para governos e instituições, não serviços de consumo.
| Constelação | ConnectedCosmos, em órbita terrestre baixa |
|---|---|
| Satélites do núcleo | 192 |
| Em órbita até ao final de 2028 | mais de 96 |
| Cobertura global | objectivo até 2030 |
| Demonstradores em órbita | 2, desde Janeiro de 2026 |
| Satélites construídos | cerca de 50, segundo o CEO (via SpaceNews) |
| Próximo lançamento | antes do fim de 2026 |
| Investimento anunciado em Portugal | 50 M€, equipa de 50 para 100 |
Continua por saber-se quanto vale cada contrato, quem são os clientes assinados, qual das quatro fábricas produz cada satélite e como se distribui o calendário missão a missão. A empresa garante que haverá mais capacidade «quando os clientes e os países parceiros precisarem», mas para já não nomeou nenhum.
Para Portugal, o anúncio transforma uma fábrica nacional num elo de uma rede europeia de conectividade soberana em construção. A parte que a empresa controla — desenhar e fabricar satélites a ritmo — está a andar; a parte que não controla, o acesso a lançadores suficientes, é a que o calendário de 2028 vai pôr à prova.
💬 Comentários
Nenhum comentário ainda. Sê o primeiro a comentar!