A Haffner Energy apresentou uma oferta energética dedicada a centros de dados, desenhada para produzir electricidade local a partir de biomassa residual e aproveitar o calor do processo para a refrigeração. O comunicado, publicado a 28 de Agosto, diz que já existem propostas comerciais iniciais, mas não identifica um centro de dados contratado ou uma instalação desta oferta já em operação.
Imagem oficial de uma instalação Hynoca da Haffner Energy usada como referência visual da tecnologia de conversão de biomassa. Não é uma fotografia de um centro de dados nem prova a execução desta nova oferta. Crédito: Haffner Energy.
A proposta: levar a central para junto do consumo
A ideia parte de um problema conhecido dos centros de dados de IA: a procura de electricidade cresce mais depressa do que algumas redes conseguem reforçar subestações e linhas. Em vez de esperar que toda a potência venha da rede, a Haffner propõe módulos instalados perto do centro de dados, alimentados por biomassa residual local e capazes de funcionar de forma despachável, isto é, quando são necessários.
O sistema pode trabalhar em paralelo com a rede e reduzir a potência que o centro de dados tem de importar. Isso não elimina a ligação à rede, nem torna automaticamente a energia renovável em qualquer localização: a sustentabilidade depende da origem da biomassa, da logística, das emissões do processo e das autorizações do projecto concreto.
Módulos C-iB e dezenas de megawatts
A oferta é baseada na arquitectura modular CORE100 e na variante C-iB, concebida para instalações com vários módulos. A empresa diz que a configuração pode chegar a dezenas de megawatts ou mais, conforme a necessidade do cliente, e que permite acrescentar capacidade à medida que a computação cresce. A modularidade também procura reduzir o risco de uma falha única: a manutenção pode ser feita por etapas, mantendo os restantes módulos activos.
A biomassa residual tem uma característica que a distingue da solar e da eólica: pode ser armazenada durante semanas e convertida quando há procura. Mas essa vantagem vem com dependências físicas. Um projecto de grande escala precisa de fornecimento contínuo, transporte, armazenamento, controlo de humidade, licenciamento e uma contabilidade de emissões que não é resolvida apenas pelo rótulo “residual”.
99,995% de disponibilidade — na arquitectura anunciada
Para uma configuração de dez módulos, dois dos quais mantidos como redundância, a Haffner acrescenta uma fonte limitada de gás natural para períodos excepcionais em que a capacidade disponível não chega para a potência total. Segundo a empresa, esta combinação foi desenhada para ultrapassar 99,995% de disponibilidade energética, com o gás a representar menos de 0,1% da energia primária.
Estes números descrevem a arquitectura proposta e não são uma medição independente de uptime de um centro de dados. Além disso, disponibilidade da fonte de energia não é exactamente o mesmo que disponibilidade de todos os serviços de TI: servidores, rede, UPS, distribuição interna e refrigeração têm os seus próprios modos de falha e requisitos de certificação.
Electricidade e frio a partir do mesmo calor
O processo produz gás de síntese a partir da biomassa, que pode ser usado para gerar electricidade. A Haffner indica uma eficiência eléctrica global de cerca de 55% relativamente à energia contida nesse gás e propõe recuperar o calor para alimentar chillers de absorção de brometo de lítio. No desenho descrito, calor a cerca de 90 °C seria convertido em água refrigerada a aproximadamente 4 °C.
É aqui que a oferta tenta diferenciar-se: em vez de produzir electricidade e depois consumir mais electricidade para arrefecer os servidores, usa parte do calor recuperado para a refrigeração. A Haffner afirma que isso evita o uso de electricidade e água para as necessidades de cooling e que o condensado recuperado da biomassa pode reduzir a necessidade líquida de água. São alegações de projecto; o balanço real dependerá do clima, da carga térmica, da qualidade da biomassa e do desenho da instalação.
Da candidatura europeia ao contrato concreto
A empresa diz ainda ser membro fundador do consórcio europeu ÆTHER, candidato ao concurso da Comissão Europeia para AI Gigafactories, e aponta para possíveis instalações na região de Estrasburgo. Ser candidato a esse processo não equivale a ter recebido financiamento ou uma encomenda. Da mesma forma, a publicação de propostas comerciais não confirma localização, cliente, potência instalada ou data de comissionamento.
Para Portugal, não foi anunciado um projecto desta oferta. A ideia pode ser relevante para zonas onde a rede esteja limitada e exista biomassa residual suficiente, mas a avaliação teria de incluir abastecimento local, licenciamento ambiental, ruído, emissões, água, custos e ligação à rede. A notícia, por agora, é a passagem da Haffner para uma proposta comercial orientada a centros de dados — não a chegada de uma central de biomassa a um data center português.
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